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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- O que eu queria era ganhar o caminho que vai dar em minha terra – respondeu ele. O negro e a negra não me deixaram passar; mas eles hão de pagar-me este desaforo.

- E que ias ver em tua terra? Que foi que ela te deu? maus exemplos e maus costumes. Que ias tu achar lá? A miséria, o sujo e o desprezo. No fim de contas serias recrutado e acabarias sabe Deus onde, com a farda nas costas. - Cuida que eu tenho medo de ser soldado? Eu sou forte.

- Isso sei eu.

- E gosto de brigar e combater. Havia de vir uma guerra que eu mostraria para quanto sou.

Assim que assentasses praça te arrependias logo da asneira feita. Pensas que o soldado tem licença para andar a toda hora por onde quer, como fazias tu antes de Francisco te trazer para o Cajueiro? Estás enganado. O soldado não tem a menor liberdade; é pior do que negro de engenho; não pode dar um passo sem ordem do seu superior. És uma criança, Lourenço; não sabes ainda o que é o mundo. Acomoda-te com os bons e busca ser um deles. Ajuda-nos a trabalhar e a viver em nosso sossego, que o trabalho por pouco que dê á gente, é sempre proveitoso e traz alegria e paz.

Quando se levantou da cama, Lourenço dava mostras de melhorado do gênio trêfego que fora causa da sua longa doença. Um grande fruto, quando outros se não pudessem apontar, tinha produzido o recolhimento forçado do menino: saíra-lhe de todo do entendimento a idéia de volver ao povoado donde viera. Aos olhos de Marcelina, que aprendeu sem que ninguém lhe ensinasse, a ler nas palavras e na fisionomia de quem com ela tratava, os íntimos pensamentos e intuitos, nenhum indicio de melhora podia parecer mais favorável do que este. A fugida de Lourenço a Pasmado era o que ela mais receava, e para tolher que semelhante desgraça viesse a suceder, ela liberalizava agrados e carinhos ao menino, e com espertos cuidados vigiava sobre ele a toda hora. Nada lhe recusava, mas também não o

deixava pisar em ramo verde.

A estação veio em seu auxilio na construção da grande obra moral que tinha em mãos. Chegou dezembro. O tempo estava enxuto, não obstante se mostrarem os campos borrifados das chuvas-do-cajú, nome que vem a tais chuvas de serem elas muito favoráveis a esta fruta. As laranjeiras novas, que Francisco plantara de um e de outro lado da casa, curvavam-se debaixo do peso das primícias do estio. Ao longe, para os fins do sitio, viam-se os abacaxis ostentando garbosos, dentre suas touças louçãs, o distintivo que na ordem vegetal a todos lembrava a insígnia civil da realeza.

Era a melhor estação do norte. Pobres, remediados e ricos apercebiam-se, sem excepção, cada qual conforme suas forças o ajudavam, para a festa do natal, época de folganças e divertimentos no campo, á sombra das arvores e dos rústicos alpendres.

Em toda a vasta zona açucareira da província os engenhos começavam a tirar sua safra; o que ficava do outro lado da mata, que sabemos – o engenho Bujari – tinha de botar dentro de uma semana.

O dia da botada não tem igual, pelo reboliço que o caracteriza, na grande propriedade.

Ajuntam-se parentes, amigos e conhecidos para acompanharem o proprietário na sua alegria, e participarem das suas larguezas.

Francisco, a cujos bons sentimentos e qualidades devia o lugar que tinha diante do senhor de engenho, achouse presente com Lourenço á festa rural, que oferecia ao menino novo e indizível encanto.

Não obstante ser quase nômada na povoação, nunca dai saiu este para assistir a festas semelhantes nos engenhos da freguesia pela distancia em que ficavam do lugar. De sorte que, penetrando agora com Francisco no engenho Bujari, experimentou desconhecido prazer.

Um padre veio de propósito para dizer missa na capela e benzer a nova moenda, que se achava adornada com ramos verdes, lembrança e fineza dos negros. Depois da benção, entregou ele ao senhor do engenho a primeira cana, que devia ser moída aquele ano. O sargento-mór meteu-a entre os eixos da moenda, os negros açoitaram as bestas, levantaram urras e vivas, vários moradores e convidados dispararam armas de fogo em sinal de regozijo, enfim encetouse a moagem.

Lourenço ficou ao principio admirado, perplexo perante aqueles acontecimentos inteiramente novos para ele; dai a pouco, porém, já lhe faltou o tempo para beber do caldo de cana ainda quente, e mais tarde comer do mel-deengenho saindo da tacha, subir á almanjarra e açoitar os animais de companhia com os molecotes mais espertos.

Moços e moças formosas e elegantes, que tinham ido de Goiana á festa, faziam agradáveis digressões pelos campos e outeiros próximos da propriedade. Alguns jovens pescavam no açude, enquanto outros se metiam pelos matos a colher cajus e a passarinhar.

Lourenço ouviu de noite, de sobre as palhas da cana onde se deitara ao luar, defronte da casa-da-moenda, melancólicas e saudosas harmonias, que lançavam ecos suavíssimos em sua alma.

(continua...)

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