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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Sem ter para o seu tirano outra resposta que o silencio, Joana resignou-se a dar-lha, e foi cair sobre um tamborete, com o rosto inundado novamente de lágrimas.

Tempos depois entrou José em casa gritando e chorando. Foi o caso, que, tendo ele querido tomar de um menino do vizinho uma xícara de arroz doce, o menino, que tinha mais idade, mais corpo e mais forca do que ele, não só não se deixou esbulhar de sua propriedade, mas até bateu em José com vontade, sem contudo se sair ileso, porque José lhe pôs a cara em sangue com as unhas, e lhe arrancou da coxa um pedaço de carne com os dentes.

Sabendo do acontecido, Joaquim fez de uma folha de facão velho um punhalzinho e, chamando o filho, entregou-lhe a nova arma, mediante este discurso:

— Sabes para que fim te dou este ferro José ? É para não sofreres desaforo de ninguém, seja menino ou menina, homem ou mulher, velho ou moço, branco ou preto o que te ofender. Se alguma vez entrares em casa, como entraste hoje, apanhado, chorando, ouve bem o que te estou dizendo, dou-te uma surra de tirar pele e cabelo, e corto-te uma orelha para ficares assinalado. Toma o ferro.

José tinha então seus nove para dez anos, e ouviu a advertência do pai com toda atenção, prometendo cumprir fielmente as suas ordens.

Joana, que tudo presenciara, e de certo tempo atrás adotara o alvitre de não contrariar abertamente o marido para o não incitar a maiores excessos, aguardou a sua ausência, e quando foi tempo pregou a José as lições de moral que seguem:

— Meu filho, Deus, nosso pai, que está no céu, não pode receber bem os feios atos a que teu pai, que está na terra, te aconselhou há pouco. Para os mais velhos não tenhas nunca expressões descorteses e muito menos ações ofensivas; ainda que seja um negro, deves ter, embora não sejas de sua qualidade, respeito pela idade dele. Seja a tua única vingança, quando alguém te ofender, pacifica retirada; não há vingança maior, nem mais digna: procedendo deste modo, terás, meu filho, agradado a Deus e dado aos homens mais bonito exemplo do que se houveres preferido, em resposta, palavras injuriosas ou insultuosas contra o teu ofensor. As armas só servem para excitar à prática de crimes; os homens bons não trazem consigo armas. Dá-me o punhal, de que teu pai te fez presente e recebe em troca este rosário que te dou para tua consolação nas tribulações. Reza por estas contas, e encomenda-te todas as manhãs e todas as noites a Deus. Assim praticando, virá a ser estimado de todos e darás prazer a tua mãe que morreria de dor e vergonha se te visse apartado do caminho do bem.

De que serviram porém estes bons conselhos, se Joaquim, vendo mais tarde o rosário no pescoço do filho, fez em pedaços a enfiadura, espalhou as contas pelo chão, e chamou a mulher feiticeira ?

Não ficou aí a manifestação do seu desagrado. Voltando-se para Joana:

— Se continuares a fazer asneiras como esta — disse ele — , acabas queimada, bruxa; e eu não respondo pelo que venha a praticar para impedir que continues a contrariar as minhas determinações. Quem avisa amigo é.

O pároco, a cujo conhecimento chegou, por portas travessas, o escândalo, mandou chamar Joaquim à sua presença, e lhe disse que se ele repetisse a cena do rosário, ou obrasse ato idêntico, seria ele Joaquim quem deveria de morrer queimado por crime de heresia.

Joaquim tornou à casa tão furioso, que puxou pela faca para matar Joana, a quem atribuiu o mexerico; esta, porém. não correu nem pediu que a socorressem; limitou-se a chorar em silêncio a sua desgraça e a apelar para Deus a quem não cessava de encomendar o filho em suas orações.

Depois de haver esgotado o vocabulário dos epítetos infamantes contra sua mulher, e dos convícios imundos contra o vigário, determinou Joaquim de deixar a casa para se ir meter com José no oco do mundo, palavras suas.

Que noite passou Joana !

Não houve rogativa, não houve lágrimas que abrandassem o coração do mameluco. Desgraçada mãe, que pediste e choraste em vão, em vão como sempre !

— Vai só, Joaquim, já que me queres deixar; deixa porém comigo meu filho; peço-te esta graça por tudo quanto há sagrado na terra e no céu — disse ao marido a infeliz mulher com angelical doçura, momentos antes da partida fatal.

— Nessa não cai ! eu — replicou Joaquim. — Se José ficasse em tua companhia, quando eu voltasse um dia por aqui, achava-o servindo ao vigário, ou, pelo menos, feito sacristão.

José entretanto, como querendo escusar-se às saudades da despedida, encaminhou-se para o quintal donde se pôs a olhar para os araçazeiros e goiabeiras em que ele foi encontrar novo motivo de pesar com que não contava. Eis que uma menina de longos cabelos castanhos, que estava brincando em um dos quintais contíguos, foi tirá-lo da sua contemplação.

— Que está você fazendo, José ?

— Ora ! Não sabes que vou sair de casa, Luisinha ?

— Não sabia, não.

— Pois vou, e não sei quando voltarei. Estou triste. Tenho pena de deixar mamãe.

— E de mim não tem também pena ? — perguntou ela com suave ingenuidade.

(continua...)

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