Por Bernardo Guimarães (1872)
Ainda que Eugênio não conhecesse e amasse Margarida desde a infância, ainda que a visse então pela primeira vez, era impossível, que toda a virtude e austeridade daquele cenobita em botão não se prostrasse vencido diante daquela deslumbrante visão.
Margarida estava vestida de cor-de-rosa com muita graça e simplicidade; tinha por único enfeite na cabeça um simples botão de rosa. Eugênio esteve por muito tempo mudo e entregue a um indizível acanhamento diante da companheira de sua infância, como se achasse em presença de uma alta e poderosa princesa. Foi a tia Umbelina quem primeiro rompeu o silêncio:
— Está com efeito um mocetão o Sr. Eugeninho!... há de dar um bonito padre.
O estudante olhou para Margarida como quem dizia — nunca! corou e abaixou os olhos sorrindo tristemente, como o faria a mais pudica donzela. Aquele cumprimento de bonito padre, que lhe era lançado em face ali, em presença de Margarida, causou-lhe uma estranha e desagradável impressão.
— É isso mesmo — continuou Umbelina em ar de gracejo —, já não conhece os seus amigos velhos ou daqui a pouco é senhor padre, senhor vigário, e nem há de querer mais olhar para a gente, não é assim, senhor Eugeninho?
— Não diga isso nem brincando, tia Umbelina — replicou Eugênio cada vez mais enfiado. — Deus me livre de fazer pouco caso de ninguém, quanto mais da gente de casa de quem eu tinha tanta saudade. O que me admira é ver a dona Margarida como cresceu tanto e ficou moça tão depressa.
— Toma lá, menina! — exclamou Umbelina dando uma risada; — está-te dando de dona!... que dizia eu?... para ele já somos como gente estranha. Já se esqueceu que ainda o outro dia brincavam juntos?... deixemo-nos de donas aqui, senhor Eugênio; esta menina é para Vm. o mesmo que uma irmãzinha. Quero vê-lo tal qual era dantes.
— Mas ela... já está tão... já está moça... — ia gaguejando Eugênio no maior enleio — e eu achava que...
— Tem razão, meu filho — atalhou a mãe acudindo ao embaraço do filho; — nem sempre a gente é criança; Margarida já está ficando uma senhora, e você não pode tratar "a ela" agora, como no tempo em que brincavam juntos o "escondeesconde".
— Assim deve ser mesmo, retorquiu Margarida com um sorriso cheio de encanto, mas um tanto malicioso; — minha madrinha tem razão; também ele já está ficando um homem sério, e eu daqui em diante não o devo tratar senão por — senhor Eugênio, não é assim, mamãe?
— Sem dúvida, minha filha. Agora vou caindo em mim, e vejo que todos têm razão. Nem todo o tempo é um. Algum dia ainda pode acontecer, que te ajoelhes aos pés ali do senhor Eugênio no confessionário, e é bom desde já ir-te acostumando a tratá-lo com o respeito que lhe é devido.
Margarida e Eugênio olharam um para o outro. Lembraram-se do juramento mútuo, que se haviam feito havia quatro anos a respeito de confissão, no vargedo junto às paineiras da ponte, e uma abaixou os olhos e corou; o outro que já estava rubro a não poder mais, empalideceu.
Com aqueles gracejos, Eugênio tornava-se cada vez mais tolhido e desconcertado, coçava a cabeça, mordia os beiços, e estava quase a chorar de desapontamento. O título de padre, que até então lhe parecia tão bonito, naquela ocasião não sei por que lhe causava arrepios e lhe parecia horrivelmente áspero e desentoado.
Margarida principalmente, que havia herdado um pouco do espírito cáustico e zombeteiro de sua mãe, trazendo à conversa também a sua pilhéria, tinha acabado de desconcertar e desorientar completamente o pobre rapaz. Vendo, porém, quanto o afligia e incomodava aquela conversação arrependeu-se no íntimo da alma, e como corrida de seu próprio procedimento procurou repará-lo do melhor modo que pôde.
— Queira perdoar-me, se o agravei, senhor Eugênio — disse-lhe com meiguice — Nós estamos brincando, e não temos a menor intenção de incomodá-lo. Eu não me lembrava que não estamos mais naquele nosso bom tempo em que eu lhe dizia quanta asneira me vinha à boca, sem que o senhor desse o cavaco...
— Eu dar o cavaco?! está enganada!... disse o rapaz levantando-se e forcejando por mostrar-se lesto e desembaraçado. — Podem caçoar, quanto quiserem, que eu nem dou fé.
Entretanto não teve remédio senão ir colocar-se a uma janela a fim de ocultar a perturbação e desapontamento, que lhe transtornava a fisionomia.
— Aqui ninguém é capaz de caçoar com Vm., senhor Eugênio, acudiu Umbelina; — Deus nos livre de tal! Estamos gracejando; a gente também não há de estar sempre séria como uma abadessa: de vez em quando é preciso rir um bocado.
— Diz muito bem, comadre — atalhou a senhora Antunes; a gente deve divertir-se. Isso do Eugênio, é acanhamento que trouxe do seminário; logo há de se ir desembaraçando... arre!... como faz calor! vamos nós passear à horta, heim, comadre?
— Pronta!... vamos: vamos todos.
CAPÍTULO IX
A educação claustral é triste em si e em suas conseqüências: o regime monacal, que se observa nos seminários, é mais próprio para formar ursos do que homens sociais. Dir-se-ia que o devotismo austero, a que vivem sujeitos os educandos, abafa e comprime com suas asas lôbregas e geladas naquelas almas tenras todas as manifestações espontâneas do espírito, todos os vôos da imaginação, todas as expansões afetuosas do coração.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.