Por Bernardo Guimarães (1869)
À força de audácia e de esforços desesperados conseguiu encostar a canoa ao barranco oposto; tomou à pressa todas as suas armas, saltou em terra e embrenhou-se pelo mato, não para escapar aos selvagens, pois bem via que seria uma tentativa inútil, mas para escolher um lugar onde pudesse defender-se por mais tempo e vender mais cara a sua vida. Os índios em número sempre crescente saltavam na água e atravessavam o rio; os das canoas também se aproximavam rapidamente. O forasteiro bem compreendeu que qualquer resistência seria inútil, mas não era homem a deixar-se degolar como uma ovelha, e preparou-se para combater até o último trance. Depois de ter-se entranhado cerca de uns duzentos passos por um mato espesso e emaranhado, abrindo caminho com a faca por entre taquaras e cipós, escolheu posição para fazer frente aos inimigos junto a um corpulento tronco de peroba, que lhe oferecia formidável baluarte. Por detrás desse tronco estendia-se um espesso e impenetrável tabocal, que lhe protegia a retaguarda.
Ali encostou todo o seu arsenal de armas, que consistiam em um arco com algumas flechas, uma grande faca, uma foice pequena, uma pistola de dois canos e uma espingarda carregada com os últimos cartuchos que lhe restavam, e que de propósito reservava para ocasiões difíceis. Ali resolveu-se a resistir até às últimas aos seus selvagens agressores.
Estes, seguindo a batida que o estrangeiro ia fazendo com sua pequena foice, em breve chegaram a descobri-lo, e logo travou-se entre eles o combate o mais temeroso e desigual que se pode conceber. As flechas dos índios iam-se cravar no tronco, por trás do qual o imboaba se abrigava, ou entranhavam-se pelo tabocal, onde se perdiam silvando. Avançando um a um pela estreita picada praticada em um mato cerrado e atravancado de taquaras e cipós, os selvagens iam caindo também um a um aos tiros certeiros do aventureiro, que não perdia uma só flecha, nem um só tiro; aquele em quem fazia a mira caía infalivelmente, ou morto ou gravemente ferido. Os selvagens, cujo número de instante a instante se aumentava, atiravam-se furiosos para o tronco por trás do qual se defendia aquele homem terrível com a coragem do desespero; porém na confusão com que se precipitavam, caíam uns sobre os outros embaraçados na multidão de cipós e matos emaranhados que obstruíam aquele lugar.
Mais de um caiu aos pés do intrépido imboaba a um bem atirado golpe de foice ou recuou rugindo de dor com a mão decepada ou com o crânio escorchado. Parecia que o estrangeiro ia morrer oprimido debaixo de tantos cadáveres, que ele mesmo amontoava em torno de si.
Nada mais terrível do que a onça, quando, sendo mal atirada, se precipita abaixo do tronco em que é acuada pelos cães; assenta-se sobre os quadris rosnando e apresentando as agudas e monstruosas presas, e a cada bote que dá com as formidáveis patas atabafa e esmaga um cão, e em poucos instantes se vê rodeada de um lastro de cadáveres. Pois assim estava aquele sanhudo aventureiro ceifando e derribando a granel os imprudentes selvagens que ousavam avizinhar-se-lhe. Estes, já transidos de terror supersticioso, pensando que não combatiam contra um homem, mas contra algum espírito ou ente sobrenatural, sentiam falecer-lhes a coragem e começaram a recuar espavoridos diante de tão descomunal denodo e valentia.
Um deles porém, que parecia comandar aos outros, com um grito fez recuar todos aqueles combatentes estouvados e imprudentes, e seguido somente de um companheiro avançou resolutamente para o tronco.
O estrangeiro já tinha descarregado todas as suas armas de fogo e despedido todas as suas flechas. Este último combate portanto foi dado corpo a corpo sobre cadáveres e em um lamaçal de sangue. Ainda que extremamente fatigado e todo crivado de golpes, o forasteiro ainda deu que fazer a seus adversários. Um golpe de tacape descarregado sobre a nuca o fez titubear; outro imediatamente foi desfechado, e Gonçalo, pois era ele, caiu sobre um lago de sangue por ele mesmo derramado.
CAPÍTULO II
A TABA DO CACIQUE
Uma prolongada e imensa grita aplaudiu aquela vitória a tanto custo alcançada por uma multidão sobre um só homem. Os selvagens em seu furor de vingança já iam arrojar-se sobre o cadáver, esquartejá-lo e devorá-lo ali mesmo. Mas o jovem guerreiro que descarregara o último golpe sobre Gonçalo, e que parecia ser o chefe ou cacique daquela horda, opôs-se-lhes energicamente bradando em voz irada:
— Ai daquele que ousar tocar naquele corpo!... O cadáver de um tão feroz e valente inimigo é um troféu, que deve ser apresentado ao nosso velho e venerando chefe. Este espetáculo por certo lhe aquecerá e regozijará o coração murchado pelos anos. E quem vos diz que esse estrangeiro não está vivo ainda?... Se assim é, se ainda temos de vê-lo tornar à vida, acrescenta o jovem guerreiro em tom menos severo e quase risonho, mais escolhida vítima, sacrifício mais excelente não poderá ser oferecido a Tupá no dia de minha feliz união com a formosa Guaraciaba, esse raio de luz descido do céu para iluminar-me o coração.
O chefe, que assim falava, e que tinha prostrado a golpes de tacape o sanhudo imboaba, chamava-se Inimá. A ele estava prometida a gentil e mimosa Guaraciaba, filha do velho e poderoso cacique Oriçanga, e a mais encantadora dentre as filhas da floresta.
O fato de ter vibrado o golpe de morte sobre o formidável estrangeiro era para Inimá uma proeza que ia ainda exaltar o seu merecimento e enchê-lo de glória aos olhos do velho cacique, da danosa Guaraciaba e da tribo inteira. Pelo menos ele assim o esperava, e já de antemão se regozijava interiormente de seu triunfo.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.