Por Bernardo Guimarães (1872)
– Está vendo, prima, como se escorna um boi!... Agora vou pealar aquele garrote pintado, que ali está me fazendo fosquinhas. Quer que peale pelas mãos ou pelos pés? hem, prima?... toca esse boizinho, Matias.
O escravo espantou o novilho, que saiu aos corcovos. Roberto boleou o laço e apanhou-o pelas patas dianteiras, dando ao pobre animal um horrível tombo, que o fez revirar pelos ares de cambotas, e estourar no meio do curral de um modo lastimoso.
– Olá, senhor Roberto!... gritou da varanda o velho com voz áspera;
– Que brincadeiras são essas! Vosmecê dessa maneira vai a me dar cabo de quanta rês tenho no curral.
– Não tenha susto, meu tio; queria somente desabusar este novilho; este diabo está muito arisco; precisa levar todos os dias uma boa esfrega; senão tão cedo não serve para o carro.
– Não duvido, meu sobrinho; mas não é quebrando-lhe as costelas nesse chão duro, que virá a servir. Por favor modere essas esfregas, que são mais de matar, que de amansar.
– Não tenha cuidado, meu tio; estou muito acostumado a lidar com este bicho... Viu, minha prima, como se joga um pealo bem jogado?
O amalucado rapaz vingava-se assim nos pobres bois da raiva, com que estava contra Paulina e Eduardo, e enquanto assim desabafava procurando atrapalhá-los escutemos a curta conversação, que tiveram à sombra da gameleira, conversação a cada passo interrompida pelos gritos e algazarras do atabalhoado primo. Foi Paulina quem a encetou pelo seguinte modo:
– Como lhe vi aqui tão sozinho e tão triste, sr. Eduardo, tomei a liberdade de vir trazer-lhe estas laranjas para se refrescar e também se distrair com elas. Bem vejo, que é fraca distração, mas ao menos enquanto as descasca....
Ora, d. Paulina!... um presente de suas mãos seria bastante para acabar com toda a minha tristeza, no caso que eu tivesse tristeza no coração. Acha então a senhora, que ando triste?
– Muito, e cada vez vai-se tornando mais triste, e não é de hoje que reparo isso.
– Deveras, minha senhora?... pode ser, e nesse caso será já o efeito da saudade, que hei de levar deste belo sítio, e das pessoas, que nele moram.
Este princípio não estava mau, e Paulina a estas últimas palavras do mancebo sentiu ameigar-se-lhe o coração ao sopro de uma aura de esperança.
– Não parece, – replicou Paulina; o que pelo contrário me parece certo, é que as saudades que tem da sua terra, não lhe dão muito tempo para pensar em nós.
– Oh! perdão, d. Paulina; a senhora me faz grande injustiça: não sou ingrato a tal ponto, que as saudades dos meus e da minha terra me risquem da memória pessoas, a quem devo tantas finezas, e as quais sempre trarei gravadas no coração. Lembro-me na verdade sempre e com muita saudade de minha bela Franca; tenho lá minha mãe, parentes, amigos, e...
Eduardo interrompeu-se e suspirou.
– E mais alguma coisa, não é assim? atalhou Paulina esforçando-se por sorrir, porém com o coração num susto, numa ansiedade como quem espera a sentença, que vai decidir de todo o seu futuro.
– Sim, senhora; e mais alguém, – respondeu Eduardo com acento melancólico, – para que hei de eu negá-lo, e sempre que olho para a senhora, me lembro de uma moça que lá conheço.
– Então parece-se comigo?
– Alguma coisa... ao menos na formosura. Linda como ela, só a senhora e mais ninguém.
– Que lisonja! murmurou Paulina, que cada vez se tornava mais pálida e estava branca como papel.
– Lisonja não, senhora. Eu pensava, que não seria possível encontrar no mundo criatura tão bela como Lucinda; depois que vi a senhora, desenganei-me, e falo sinceramente e com o coração nas mãos, se não quisesse tanto bem a Lucinda, teria impreterivelmente de amar a senhora...
– Quem sabe!... disse automaticamente Paulina, desconcertada, trêmula e sem já saber o que dizia. – Então o senhor quer muito bem a essa moça?
– Muito! muito! – disse Eduardo com exaltação e sem reparar na crescente perturbação de Paulina. Amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amá-la.
– Feliz mulher!... mas dizem que os moços todos são tão inconstantes...
– Pode ser... mas eu... eu nunca serei infiel... porém d.Paulina!... que tem?.. está tão pálida e trêmula! Meu Deus! está sofrendo alguma coisa?...
– Não é nada; replicou Paulina esforçando-se por mostrar-se tranqüila; – quando o sol entra, este sereno da tarde sempre me faz calafrios. É bom que me recolha. Boa-noite, sr. Eduardo.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.