Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Aquele desembargador presidia a Câmara Municipal como juiz de fora, que era, e portanto, a seu cargo principalmente estava o cuidado de garantir ao povo gêneros alimentícios em bom estado e por um preço não exagerado.
Nesse ponto, era o desembargador Petra muito severo, e um certo mercador de farinha de mandioca, fornecedor das casas de alguns fidalgos mais influentes, tinha sido por ele mais de uma vez condenado, em conseqüência de vender farinha avariada ao povo, e ainda em cima, de ter urna balança infiel.
O negociante, cansado de sofrer a retidão do juiz, apelou para os milagres do patronato.
Um dia em que o desembargador Petra dava audiência, aproximou-se dele o negociante de farinha e apresentou-lhe um aviso ou portaria do ministro em que era ordenado ao juiz de fora que não incomodasse mais o fornecedor dos fidalgos.
O desembargador leu primeiro para si e depois em alta voz a ordem do governo, e em seguida beijou respeitosamente o aviso ou portaria e disse:
– Pode ir descansado e furtar à sua vontade: o governo o autoriza a roubar ao povo. Eu hei de cumprir as ordens do governo, e V. Mce. fará muito bem si furtar dez vezes mais do que furtava até agora.
Realmente, em um país governado pelo sistema absoluto, não se podia ferir de um modo mais positivo e forte do que o fez o desembargador Petra um escandaloso patronato dos grandes.
Também é verdade que o severo magistrado contava na corte uma numerosa falange de furiosos inimigos. Mas tinha por si a confiança do príncipe real, e zombou sempre de todos eles.
Creio que por hoje basta de passeio. Mas, desta vez, fecho o segundo parêntesis que abri, e prometo que dora avante divagarei muito menos.
III
O antigo convento dos carmelitas exige agora também um breve estudo. Fazendo parte do palácio desde 1808, não pode ficar esquecido sem ofensa à exatidão histórica.
Um simples passadiço converteu aquele edifício de casa de frades em paço real; mudando-lhe, porém, a natureza, não lhe pode mudar o parecer, e o antigo convento conservou e conserva ainda a primitiva feição monástica que o apresenta sempre arquitetonicamente desarmonizado com o palácio a que se ligou.
É um aditivo que não tem relação alguma com o corpo a que foi adicionado: é um adjetivo que não concorda com o seu substantivo nem em gênero, nem em caso, nem em número: discordância completa no que diz respeito à arquitetura.
Mas pouco importa isso. Hoje em dia já estamos acostumados com essas extravagâncias que das obras de pedra e cal passaram a fazer-se sentir em obras de um outro gênero. É raro o ano em que não vemos determinarem-se discordâncias tão notáveis como aquela. Não há lei de orçamento de receita e despesa do Império que não arraste uma cauda de aditivos que se harmonizam tanto com ela como o antigo convento do Carmo com o resto do palácio.
Ao menos, porém, em 1808, uma necessidade indeclinável impôs a anexação que deu lugar àquela desarmonia arquitetônica, e atualmente nada pode desculpar a abusiva repetição dessas discordâncias administrativas.
Ora, eis aí. Insensível e involuntariamente começo a divagar outra vez! Bom foi que a tempo o conhecesse para não me adiantar muito.
Aqui vai em poucas palavras o que era o antigo convento do Carmo. Creio que não haverá quem possa notar nele mudanças sensíveis operadas nestes cinqüenta e dois anos já passados: conservou-se quase absolutamente o mesmo, o que entre nós não admira em uma casa, mas admiraria muito em um homem, porque os homens...
Pior! O antigo convento do Carmo nada tem de comum com os homens políticos.
O edifício que asilava os carmelitas começa na extrema da rua da Misericórdia, um pouco adiante da esquina da rua da Assembléia, dantes chamada da Cadeia, estende-se por toda a largura do largo do Paço até à entrada da rua Direita, onde termina com a igreja que, acompanhando o destino do convento, passou a ser capela real, como é ainda hoje capela imperial.
Pela frente da praça apresenta o edifício, além do pavimento inferior, dois andares que tinham janelas com balcões de ferro e rótulas de madeira, e que eram duas ordens de dormitórios.
Vinha logo em seguida a igreja de Nossa Senhora do Carmo, que é a capela imperial. Em primeiro lugar, levanta-se a torre, cuja entrada, que era a portaria do convento, é precedida por um alpendre sustentado por colunas de pedra. A torre é quadrangular e terminada superiormente por uma abóbada pontiaguda, em cujo cimo se observa um globo que serve de apoio ao símbolo da redenção. Um galo metálico, que é atravessado pelo pé da cruz, gira horizontalmente, obedecendo à ação dos ventos, e indica a direção destes.
Segue-se à torre uma capelinha consagrada ao Senhor dos
Passos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.