Por José de Alencar (1878)
Abriu a partitura e cantou a parte de soprano. Disse admiravelmente o delicioso allegro da fonte; mas na grande ária da loucura excedeu-se. Não era o delírio da noiva escocesa que a inspirava; era o desespero de Julieta, a dor da esposa traída.
Estava aberta uma das janelas, e o sol entrando pela sala chamejava nos espelhos e cristais. A claridade impacientou Amália; estava triste, e achava insuportável essa alegria do céu que vinha importuná-la.
Ergueu-se para fechar a janela, onde a esperava uma surpresa.
Hermano, de pé, à sombra de uma árvore, escutava o canto, em profundo recolhimento. Sua fisionomia denotava que ainda depois de ter cessado a voz, ele ouvia dentro d´ alma o eco, e esperava o seu retorno.
Tinha na mão um jornal e estava sem chapéu, como quem fora surpreendido em casa, a meio da leitura, e viera pressuroso, não lhe importando sair de cabeça descoberta.
Quando Amália recobrava-se da emoção, Hermano erguia a fronte; pela primeira vez o olhar doce, profundo e exuberante desse homem encontrou o seu; e subjugou-a.
Ela estremeceu como se recebesse um insulto; e arrebatadamente, num assomo de cólera, bateu a janela.
O que ela sentia era não ser homem para nesse mesmo instante precipitar-se do sobrado, saltar o muro, e açoitar as faces daquele insolente.
Capítulo 10
O gênio faceiro e jovial de Amália mudou completamente. A moça tornou-se pensativa: tinha longas horas de cisma e melancolia, ela que dantes não sabia senão rir e brincar.
Algumas vezes já se esquivava de freqüentar a sociedade, que até então fora para ela uma necessidade. Inventava pretextos para recusar os convites; e ficava-se em casa solitária, distraída, absorta em vagas contemplações.
Passava noites inteiras recostada à sua janela com os olhos fitos, o seio palpitante, tão alheia de si que não ouvia a voz da mãe a chamá-la, e tão presente aos seus pensamentos que estremecia e sobressaltava-se a cada instante, sem causa aparente.
Outras vezes saía ao jardim, e vagava pelos passeios talhados na relva, a desfolhar as flores que sua mão distraída ia colhendo, e a arrular palavras submissas que, pela cadência da voz melodiosa, pareciam trechos de poesia.
Amália admirava outrora as estrelas como umas jóias mimosas de que Deus havia recamado o seu manto azul, ou como umas violetas do céu a luzir por entre as sombras da noite. Era bonito; mas ela preferia um adereço de brilhantes sobre um vestido de cetim ou uma grinalda de miosótis.
Agora um místico sentimento a atraía para essas flores de luz. Gostava de conversar com elas. Pensava que talvez tivessem um coração irmão do seu.
Quem sabe se não eram os anjos da guarda que velavam sobre as almas exiladas na terra?
Ela própria achava ridículas estas abusões, quando repassava na mente as cismas da véspera; mas isto não impedia que de novo se embalasse naquela e noutras fantasias, em seus momentos de devaneio.
Toda a sua pessoa ressentia-se da revolução que lhe transformava o gênio.
Os movimentos sempre tão vivos e cintilantes tornaram-se frouxos e lentos. Sua beleza já não irradiava como no tempo feliz; agora embebia-se em uma sombra diáfana, que velava o matiz da cútis aveludada.
Ao piano, a sua execução não perdera em correção e limpidez; mas ou tocasse ou cantasse, havia na música, se esta era triste, uma repercussão íntima e profunda. Sentia-se palpitar a dor nas teclas como na voz.
De repente, sem motivo, e sem consciência, enchiam-se-lhe os olhos d'água. As lágrimas doutros tempos eram orvalhos para as boninas de seu gentil sorriso; estas de agora corriam lentamente e deixavam nas faces um brilho lívido.
A família assustou-se com esta mudança. Às perguntas inquietas da mãe, Amália respondia que andava aborrecida; e entretanto recusava as distrações que lhe ofereciam.
Afinal, tendo perscrutado debalde a causa da súbita transformação da filha, D. Felícia a atribuiu a uma dessas moléstias nervosas, a que são muito sujeitas as moças fluminenses, pela falta de educação higiênica.
Resolveu então a família passar algum tempo fora da Corte. Foram para Petrópolis.
Nos primeiros dias, Amália recobrou a sua antiga alegria; e voltou à vida agitada e folgazã. Os passeios de carro descoberto, as apostas a cavalo, e as partidas campestres, reanimaram-lhe o gosto da sociedade e a restituíram ao seu natural.
A moça conseguiu durante alguns dias atordoar-se e submergir as suas recordações num turbilhão de prazeres ruidosos, mas que não lhe davam senão a alegria artificial do momento.
Ao cabo de alguns dias cansou. A tristeza que tinha espancado à força de movimento e agitação voltou, e mais intensa. Com esta vieram as saudades da casa de São Clemente. A moça lembrou-se da sua doce solidão; e desejou-a, como nunca havia desejado os divertimentos.
Fizeram-lhe a vontade. Recolheram-se à Corte depois de um mês de ausência. Por diversas vezes quiseram levá-la para a Tijuca ou para Juiz de Fora; mas ela resistiu sempre e com energia; foi preciso ceder.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.