Por Martins Pena (1845)
Jorge — Vizinha, somos nós...
Emília, dentro — Minha mãe, minha mãe! (Entra.)
Florência — Ah, é o vizinho Jorge! E estes senhores? (Levantando-se ajudada por JORGE.)
Emília — Minha mãe, o que foi?
Florência — Filha!
Jorge — Estava na porta de minha loja, quando ouvi gritar: Socorro, socorro!Conheci a voz da vizinha e acudi com estes quatro amigos.
Florência — Muito obrigado, vizinho, ele já se foi.
Jorge — Ele quem?
Florência — O ladrão.
Todos — O ladrão!
Florência — Sim, um ladrão vestido de frade, que me queria roubar e assassinar.
Emília, para Florência — Minha mãe!
Jorge — Mas ele não teve tempo de sair. Procuremos.
Florência — Espere, vizinho, deixe-me sair primeiro. Se o encontrarem, dêem-lhe uma boa arrochada e levem-no preso. (À parte:) Há de me pagar! Vamos menina.
Emília, para Florência — É Carlos, minha mãe, é o primo!
Florência, para Emília — Qual primo! É ele, teu padrasto.
Emília — É o primo!
Florência — É ele, é ele. Vem. procurem-no bem, vizinhos, e pau nele. Anda, anda.
(Sai com EMÍLIA.)
CENA XIII
Jorge — Amigos, cuidado! Procuremos tudo; o ladrão ainda não saiu daqui. Venham atrás de mim. Assim que ele aparecer, uma boa massada de pau, e depois os pés e mãos amarradas, e guarda do Tesouro com ele... Sigam-me. Aqui não está; vejamos atrás do armário. (Vê.) Nada. Onde se esconderia? Talvez debaixo da cama.
(Levantando o rodapé:) Oh, cá está ele! (Dão bordoadas.)
Carlos, gritando — Ai, ai, não sou eu. não sou ladrão, ai, ai!
Jorge, dando — Salta para fora, ladrão, salta! (CARLOS sai para fora, gritando:)
Não sou ladrão, sou de casa!
Jorge — A ele amigos! (Perseguem CARLOS de bordoadas por toda a cena. Por fim, mete-se atrás do armário e atira com ele no chão. Gritos: Ladrão!)
CENA XIV
Jorge só, depois Florência e Emília.
Jorge — Eles que o sigam; eu já não posso. O diabo esfolou-me a canela com o armário. (Batendo na porta.) Ó Vizinha, vizinha?
Florência, entrando — Então, vizinho?
Jorge — Estava escondido debaixo da cama.
Emília — Não te disse?
Jorge — Demos-lhe uma boa massada de pau e fugiu por aquela porta, mas os amigos foram-lhe no alcance.
Florência — Muito obrigada, vizinho. Deus lhe pague.
Jorge — Estimo que a vizinha não tivesse maior incômodo.
Florência — Obrigada. Deus lhe pague.
Jorge — Boa noite, vizinha; mande levantar o armário que caiu.
Florência — Sim senhor. Boa noite. (Sai JORGE.)
CENA XV
Florência e Emília
Florência — Pagou-me!
Emília, chorando — Então minha mãe, não lhe disse que era o primo Carlos?
Florência — E continua a teimar?
Emília — Se o vi atrás da cama!
Florência — Ai, pior, era teu padrasto.
Emília — Se eu o vi!
Florência — Se eu lhe falei!... É boa teima!
CENA XVI
Juca, entrando — Mamãe, aquela mulher do papá quer lhe falar.
Florência — O que quer essa mulher comigo, o que quer? (Resoluta:) Diga que entre (Sai JUCA.)
Emília — A mamãe vai afligir-se no estado em que está?
Florência — Bota aqui duas cadeiras. Ela não tem culpa. (EMÍLIA chega uma cadeira. FLORÊNCIA sentando-se;) Vejamos o que quer. Chega mais esta cadeira para aqui. Bem, vai para dentro.
Emília — Mas, se...
Florência — Anda; uma menina não deve ouvir a conversa que vamos ter. Farei tudo para perseguí-lo. (EMÍLIA sai.)
CENA XVII
Entra Rosa. Já vem de vestido.
Rosa — Dá licença?
Florência — Pode entrar. Queira ter a bondade de sentar-se. (Senta-se.)
Rosa — Minha senhora, a nossa posição é bem extraordinária...
Florência — E desagradável no ultimo ponto.
Rosa — Ambas casadas com o mesmo homem...
Florência — E ambas com igual direito.
Rosa — Perdoe-me, minha senhora, nossos direitos não são iguais, sendo eu a primeira mulher...
Florência — Oh, não falo desse direito, não o contesto. Direito de persegui-lo quero eu dizer.
Rosa — Nisso estou de acordo.
Florência — Fui vilmente atraiçoada...
Rosa — E eu indignamente insultada...
Florência — Atormentei meus filhos...
Rosa — Contribui para a morte de minha mãe...
Florência — Estragou grande parte da minha fortuna.
Rosa — Roubou-me todos os meus bens...
Florência — Oh, mas hei de vingar-me!
Rosa, levantando-se — Havemos de vingarmo-nos, senhora, e para isso aqui me acho.
Florência, levantando-se — Explique-se.
Rosa — Ambas fomos traídas pelo mesmo homem, ambas servimos de degrau à sua ambição. E porventura somos disso culpadas?
Florência — Não.
Rosa — Quando lhe dei eu a minha mão, poderia prever que ele seria um traidor? E vós, senhora, quando lhe destes a vossa, que vos uníeis a um infame?
Florência — Oh, não!
Rosa — E nós, suas desgraçadas vítimas, nos odiaremos mutuamente, em vez de ligarmo-nos, para de comum acordo perseguimos o traidor?
Florência — Senhora, nem eu, nem vós temos culpa do que se tem passado. Quisera viver longe de vós; vossa presença aviva meus desgostos, porém farei um esforço — aceito o vosso oferecimento — unamo-nos e mostraremos ao monstro o que podem duas fracas mulheres quando se querem vingar.
Rosa — Eu contava convosco.
Florência
— Agradeço a vossa confiança.
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.