Por Martins Pena (1845)
Jeremias (que a este tempo tem obrigado Narciso a aproximar-se dos ingleses) —
Está vendo? São os primeiros maridos de suas filhas.
Henriqueta — Os ingleses.
Narciso — Os ingleses? (Enfurecido, para os dois:) Ingleses do diabo, goddams de mil diabos, que fazem em minha casa? Larguem minhas filhas, ou eu sou capaz de...
(Bolingbrok e John deixam as mulheres e atiram-se sobre Narciso e seguram-no.)
John — Maldito velho!
Bolingbrok (ao mesmo tempo) — Velho macaco!
Narciso — Ai, deixem-me!
Jeremias — John! Bolingbrok!
John — Quero minha mulher!
Bolingbrok (ao mesmo tempo) — Minha mulher, macaco!
Narciso — Diabos, diabos!
Virgínia (para John) — Deixe meu pai!
Clarice (para Bolingbrok) — Largue! Largue! (Ambas, ajudadas por Jeremias e Henriqueta, puxam os ingleses, que se mostram enfurecidos contra Narciso. Neste tempo, Serapião e Pantaleão estão de pé, olhando muito para o que se passa.)
Narciso (vendo-se livre dos ingleses) — Haveis de pagar-me, ingleses do inferno!
Patifes!
Bolingbrok — Larga a mim, Jeremias; quer dar soco...
Narciso (para Serapião e Pantaleão) — Amigos, ide chamar meirinhos, soldados, a justiça, para prender estes dois tratantes quie desencaminharam minhas filhas.
John (sempre seguro) — Virgínia é minha mulher!
Bolingbrok (sempre seguro) — Clarice é mulher a mim!
Narciso — Isso veremos! O casamento está anulado. A sentença a estas horas estará lavrada.
Jeremias (adiantando-se) — Ainda não está.
Narciso — O quê?...
Jeremias — O procurador de Vossa Senhoria, o Sr. Moreira, por ter muito o que fazer, entregou-me os autos em que se tratava de cancelar o casamento de suas filhas, para eu dar andamento a eles. Deixei um instante sobre a minha mesa e os meus pequenos o puseram neste estado... (Assim dizendo, tira da algibeira da casaca uma grande porção de papel cortado em tiras estreitas.)
Narciso — Oh! (Tomando algumas tiras de papel e examinando-as:) Oh, é a minha letra! A assinatura... Não tem dúvida! (Para Jeremias:) Que fizeste? (Bolingbrok e
John abraçam Jeremias.)
John — Meu amigo!
Bolingbrok — Minha amigo! (Ao mesmo tempo.)
Jeremias — Não me afoguem!
Narciso — Vou me queixar ao Ministro inglês, vou me queixar ao Governo desta imposição inglesa. (Para Serapião e Pantaleão:) Vamos, amigos!
Virgínia (correndo para ele, e lançando-se-lhe aos pés ) — Meu pai!
Clarice (no mesmo, ao mesmo tempo) — Meu pai!
Narciso — O que é lá isso?
Virgínia — John ainda me ama.
Clarice, ao mesmo tempo tempo — Bolingbrok ainda me ama.
John e Bolingbrok — Yes!
Clarice — E estará pronto a sujeitar-se a todas as cerimônias religiosas que tornem o nosso casamento legítimo.
John — Eu estou pronto para tudo.
Bolingbrok — Yes, pronta.
Jeremias — Meu caro senhor Narciso, a isto não se pode o senhor se opor; elas querem... (Bolingbrok e John abraçam Jeremias.)
Clarice e Virgínia — Meu pai, eu ainda o amo.
Narciso — Levantai-vos. (As duas levantam-se.) Bem sei que sem o vosso consentimento não poderei anular o casamento. Senhores, depois que estiverdes legitimamente casados, poderei levar vossas mulheres.
John (abraçando Virgínia) — Minha Virgínia!
Bolingbrok (abraçando Clarice, ao mesmo tempo) — My Clarice!
Narciso (para Serapião e Pantaleão) — Perdoai-me, meus amigos.
John — Jeremias será nosso sociado.
Bolingbrok — Yes, será nosso sociado!
Jeremias — Oh, eu vou fazer fortuna, minha Henriqueta! (Abraça-a.)
Henriqueta — Iremos para a Bahia e seremos todos...
John, Bolingbrok, Virgínia, Clarice, Jeremias e Henriqueta — Felizes!
Narciso, Serapião e Pantaleão (ao mesmo tempo) Logrados!
FIM
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. As Casadas Solteiras. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17001 . Acesso em: 28 jan. 2026.