Por José de Alencar (1872)
Desenhava-se o pequeno e mimoso prado em oval alcatifado e com a alfombra de relva e cingido quase em volta pela floresta emaranhada, que a fechava como panos de muralha, cobertos de verdes tapeçarias e vistosas colgaduras, apanhadas em sanefas e bambolins de flores. À face oposta assomava a soberba colunata do Palmar que estendia-se até ali, formando arcarias góticas, fustes elegantes em estilo dórico e arabescos rendados de maravilhoso efeito.
À margem do Tanquinho, bonito lago formado pela represa de um ribeirão, que saía gorgolando do mais embrenhado da floresta e traçava meandros entre as palmeiras para perder-se no pasto, uma figueira brava esfraldava os ramos, em esparavel, ensombrando a pelúcia de relva.
Aí próximo contornava-se um outeirinho coroado de uma grinalda de juncos floridos, donde borbulhava também um fio d’água que alimentava o lago. De seu tope descortinava-se a casa das Palmas e toda a várzea até a margem do Piracicaba.
Ao entrar no descampado, ca[iram os olhos de Afonso direto sobre o tronco da figueira e voltaram-se logo desconsolados para Linda. Os dois irmãos trocaram um sorriso displicente.
- Não vieram, disse Afonso.
- Já foram.
- Não há tal.
Levou o moço as mãos à boca e apitou. Não teve resposta.
- Então?
- É que já estão longe!
- Não tinham tempo.
- A culpa é sua.
- Quem primeiro boliu com o outro?
- Eu hei de contar à Berta.
Depois de uma pequena volta pelo prado, os dois irmãos cuidaram de voltar do insípido passeio que tão malogrado fora.
Entretanto não estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme o costume, à sombra da figueira; e eram, como já se adivinhou, Miguel e Inhá a quem Linda tratava pelo nome.
Afastando-se de Miguel para passar a tronqueira, dera a menina ao talhe uma inflexão sedutora. Daquela travessa rapariga, com ares de diabrete, surgira de repente a mulher em toda a brilhante fascinação, na plenitude da graça irresistível que rapta a alma, e a arrasta após si cativa como um despojo, de rojo pelo chão e feliz de rojar-selhe aos pés.
Miguel levou as mãos aos olhos julgando-se ludíbrio de uma visão, e deslumbrado foi seguindo a menina sem consciência do que fazia.
Não voltou Inhá a cabeça, mas tinha ela a certeza de que o moço a acompanhava enlevado pelo garbo de seu passo, como pelo flexuoso requebro de seu talhe donoso.
Dirigiu-se a menina a uma aberta, que havia entre o palmar e a mata e dava caminho para o prado. Também ela ia pressurosa ao encontro da amiga e camarada de infância, cuidando já encontrá-la no lugar emprazado, à sombra da figueira. Ouvindo o apito de Afonso, deitou a correr; e Miguel despeitado com a sofreguidão que ela mostrara, deixou de responder ao camarada como costumava.
Chegou Berta à precinta do prado, justamente quando os dois irmãos iam desaparecer na vereda por onde tinham vindo.
- Linda!
- Ah! Berta! Eu não disse que ela vinha!
- Chegou agora, acudiu Afonso. Que dorminhoca!
- Hoje não quero graças com o senhor! replicou Berta comum sério petulante.
- Deveras! Pois estamos mal.
- Veio sozinha?
- Miguel aí vem; está se fazendo de rogado. Olhe!
Com efeito, Miguel apareceu da outra banda da esplanada.
- Quer campar de sério; mas aquilo é um maganão! Sonso como ele só; parece com certa pessoazinha que cá sei.
- Está bom, mano, eu lhe peço! balbuciou Linda acesa em rubores.
- Então Miguel, chegas ou não chegas? Queres um cavalo para a viagem. Aqui tens.
E o faceto rapaz apanhando um ramo seco, fez dele um cavalo de pau, e lá se foi galopando oferecer a montaria ao camarada.
- Sai! Não estou para brincadeiras, disse Miguel.
- Que têm você hoje? Chegam aqui ambos de nariz torcido... Acaso viram borboleta preta no caminho?
- Assim, Afonso, brigue com ele! exclamou Berta batendo com a mão direita fechada na palma da mão esquerda. Eu cá já estou contente; vi um passarinho verde!
- Mas vamos a saber, Miguel! Se é comigo que você está zangado, diga a razão.
Que lhe fiz eu?
Tão franca era a fisionomia de Afonso ao proferir estas palavras, e tão cordial afeto ressumbrava de sua voz, que Miguel correu-se de seu injusto ressentimento contra o amigo, e de todo lhe desvaneceram no coração os ressaibos de ciúme, que o pungiam.
- Engano seu, Afonso. Não estou zangado com você. Vinha pensando em uma coisa desagradável, mas já se foi, respondeu Miguel com um sorriso de efusão, apertando comovido a mão do camarada.
- Ai! Ai! Cuido que houve sua briga entre os dois! Não lhe parece, Linda?
- Não sei; por que haviam de brigar?
- Pois eu lhe digo o que foi, acudiu Inhá. Miguel quis deixar-me no caminho e ir caçar!
- Ah! exclamou Linda, com um trêmulo na voz maviosa. Não queria vir!
- Mas era só para me fazer pirraça! tornou Inhá. E senão veja, Linda; como eu lhe disse que não me importava com isso e vinha mesmo, logo ele não falou mais em caça, e veio pescar seu peixãozinho!...
- Berta!... murmurou Linda puxando a manga do corpinho da amiga.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.