Por José de Alencar (1875)
Saltando do tílburi, o velhinho subiu ao sobrado, donde voltou logo munido de um par de óculos verdes, que usara outrora por causa dum ameaço de oftalmia. Fez ao cocheiro sinal de acompanhá-lo, e dobrou pela rua da Quitanda.
Pouco adiante entrou em uma loja:
- Ó comendador, dá-me aí uma carta de apresentação para o Seixas.
O negociante a quem estas palavras eram dirigidas puxou pela memória.
- Seixas... Não conheço!
- Hás de conhecer por força. Vamos, escreve lá. Em favor do sr. Antônio Joaquim Ramos.
Era esta a carta que o tutor de Aurélia acabava de apresentar ao Seixas. Viera ele confiado nos dois disfarces, o dos óculos, e o do nome recomendado.
Se apesar disto o moço o reconhecesse, ele acharia meio de sair perfeitamente da dificuldade.
- Desculpe-me, V.S., se o procuro logo no dia seguinte ao da sua chegada, quando ainda deve estar fatigado da viagem; mas o assunto que me traz é de sua natureza urgentíssimo.
- Estou pronto a ouvi-lo com toda a atenção.
- É negócio importante que exige a maior reserva e discrição.
- Pode contar com ela.
O Lemos bamboleou-se na cadeira com sua frenética alacridade e prosseguiu:
- Trata-se de uma moça, sofrivelmente rica, bonitota, a quem a família deseja casar quanto antes. Desconfiando desses peralvilhos que por aí andam a farejar dotes, e receando que a menina possa de repente enfeitiçar-se por algum dos tais bonifrates, assentou de procurar um moço sisudo, de boa posição, embora seja pobre; porque são justamente os pobres que sabem melhor o valor do dinheiro, e compreendem a necessidade de poupá-lo, em vez de atirá-lo pela janela fora como fazem os filhos dos ricaços.
Lemos fitou os olhinhos de azougue no semblante do Seixas.
- Fui encarregado por essa família que me honra com sua amizade de procurar a pessoa que se deseja, e minha presença aqui, neste momento, significa que tive a fortuna de encontrá-la.
- Sua escolha devia lisonjear-me o amor próprio, se o tivesse, sr. Ramos; porém há de compreender que não posso aceder...
- Perdão; em negócio tenho o meu sistema. Faço a proposta com lisura, sem omitir os encargos e as vantagens, porque não costumo regatear. O outro pensa, e aceita se lhe convém.
- Já vejo que é um verdadeiro negócio que me propõe? Observou Fernando com ironia cortês.
- Sem dúvida! Atestou o velho. Mas ainda não disse tudo. A pequena é rica bastante e dota o marido com cem mil cruzeiros em moeda sonante.
Como Seixas se calasse:
- Agora V.S. me dirá se posso levar uma boa decisão?
- Nenhuma!
- Como assim? Nem recusa, nem aceita?
- Sua proposição, sr. Ramos, permita-me esta franqueza, não é séria, disse o moço com a maior urbanidade.
- Porque razão?
- Antes de tudo cumpre-me declarar-lhe que estou de algum modo comprometido e embora não haja um ajuste formal, todavia não poderia dispor livremente de mim.
- Os compromissos rompem-se dum momento para outro.
- É exato; às vezes ocorrem circunstâncias que desatam as mais solenes obrigações. Mas entre as razões que movem a consciência, não se conta o interesse; ele daria ao arrependimento a feição de uma transação.
- E o que é a vida, no fim de contas, senão uma contínua transação do homem com o mundo? Exclamou Lemos.
- Não vejo ainda a vida por esse prisma. Compreendo que um homem sacrifique-se por qualquer motivo nobre, para fazer a felicidade de uma mulher, ou de entes que lhe são caros; mas se o fizer por um preço em moeda, não é sacrifício, mas tráfico.
O Lemos insistiu com todos os recursos da dialética materialista que ele manejava habilmente. Não conseguiu, porém, desvanecer os escrúpulos do moço que o ouvia com afabilidade, mantendo-se inflexível na negativa.
- Bom, resumiu o velho. Não são negócios que se resolvem assim de palpite. O sr. Seixas pensará, e se como eu espero decidir-se, me fará o favor de prevenir. Vou deixar-lhe minha morada...
- Agradeço, mas para esse objeto é inútil, observou Seixas.
- Ninguém sabe o que pode acontecer!
O velho escreveu a lápis a rua e o número de sua casa numa folha da carteira que deixou sobre o consolo.
Meia hora depois, Seixas descia a rua do Ouvidor em busca do hotel de Europa, onde ia almoçar à fidalga, pela volta do meio dia.
De caminho encontrava os camaradas e conhecidos que o festejavam, pedindo-lhe novas da viagem e dando-lhe as mais frescas da corte. Entre estas figurava a aparição de Aurélia Camargo, que datava de meses, mas era ainda o grande sucesso do mundo fluminense.
Havia nessa noite teatro lírico. Cantava Lagrange no Rigoletto. Seixas, depois de um exílio de oito meses, não podia faltar ao espetáculo.
Às oito horas em ponto, com o fino binóculo de marfim na mão esquerda calçada por macia luva de pelica cinzenta, e o elegante sobretudo no braço, subia as escadas do lado par.
No patamar encontrou Alfredo Moreira com quem de véspera apenas falara de relance no Cassino.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.