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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Era Guida com efeito; tendo passado o cavaleiro, estimulada pelo prazer vivo da equitação, arrependeu-se de haver deixado tão distantes os seus companheiros. Resolveu esperá-los. Naturalmente o moço não tardaria a passar; aquele encontro, num ermo, a incomodava; mas ela já o conhecia como um homem delicado; demais a mestra não podia estar longe. 

A demora inquietou-a. Temeu que alguma coisa houvesse sucedido a Mrs. Trowshy, e que então se achasse realmente só naquela solidão. Já não era de Ricardo que se receava, mas do isolamento. 

Por isso retrocedia de corrida a caminho percorrido. 

Ricardo, apenas se persuadiu que era com efeito a moça, disparou a galope na direção da “Vista Chinesa”, a ver se escapava a novo encontro. Chegando à “Mesa”, viu Mrs. Trowshy sentada ao lado do Sr. Daniel conversando com o maior sossego. 

O advogado passou como um raio, o que fez a inglesa fingir um desmaio, imaginando algum jovem salteador que a vinha raptar. O Sr. Daniel assegurou-lhe que os salteadores da Tijuca, chamados quilombolas, furtavam bananas, galinhas e outras coisas leves, mas não inglesas que pesassem dez quintais portugueses. Nesse dia Ricardo chegou tarde para o almoço; mas livrou-se de segundo encontro. 

 

VI 

 

Do lado que olha para o mar, a Serra da Tijuca apresenta um aspecto muito diferente. As encostas que descem para o Andaraí, como os vales e eminências que se encontram pelo dorso da montanha, têm a fisionomia risonha e pitoresca; são ondulações amenas ou recortes caprichosos, que deleitam a vista. 

Na outra face, a natureza é agreste; dir-se-ia uma terra convulsa. O fogo subterrâneo ferveu nas entranhas da terra, e rasgando-lhe os flancos, arremessou aqui e ali pelas encostas aqueles enormes calhaus ou maciços de rocha, fragmentos da primeira carcaça do globo. 

A superfície da terra conserva ainda um aspecto combusto e árido; vê-se que por aí passou a lava em tempos remotos. De espaço a espaço o trabalho do homem cobriu a encosta da montanha de plantações; mas entre esses pontos cultivados destaca-se ainda mais a bronca aspereza dos sítios agrestes. 

No domingo em que estamos, Ricardo dirigiu o seu passeio a pé para aquelas bandas. Já tinha algumas vezes feito essa excursão até a “Cascata Grande”, um dos pontos mais freqüentados pelas pessoas que passam o verão na Tijuca; naquele dia porém tencionava ir mais longe, até a habitação de uma pobre gente, conhecida de D. Joaquina, e às vezes por ela socorrida em suas misérias. O saquinho da boa velha, apesar de escasso, tinha sempre uns vinténs para as esmolas do sábado. 

Justamente na véspera, D. Joaquina recebera por intermédio de algum quitandeiro um recado da pobre gente e exprimira a intenção de mandar-lhe qualquer pequeno socorro, como costumava. O advogado lembrou-se disso, quis dar a seu passeio um fim caritativo; tinha na véspera recebido dez mil-réis, como honorário por um requerimento. 

Estava rico; podia pois aliviar dessa vez o saquinho de D. Joaquina daquela despesa. 

Com este pensamento tomou às seis horas da manhã o caminho da Barra. 

Aí, próximo à Restinga, havia então, e talvez ainda exista, uma cabana coberta de palha de sapé, com paredes de emboço. Em muitos lugares porém tinha caído o barro, deixando entre as varas grandes buracos, tapados com ramas secas. 

Esta choça miserável ficava a algumas braças do caminho. Para chegar à porta, Ricardo tomou uma vereda que rodeava uma quebrada de terreno. Estendida em varas via-se a enxugar alguma roupa de chita e algodão, muito bem lavada, mas aberta em crivo de tão gasta e rasgada que já estava. Sobre o capim do terreiro estava emborcada alguma pouca louça branca de beira azul, uma panela, uma frigideira e uma colher de pau. 

Esse terreiro era, não chovendo, a lavanderia, a copa, a cozinha e a sala da pobre gente. A choça tinha apenas um compartimento, onde se acomodavam Simão, a mulher, e três crianças. 

Esse homem sustentava sua família com o produto da pescaria e de uma pequena plantação de bananas; assim iam vivendo pobremente, mas sem grandes privações, quando de repente tudo começou a desandar. O peixe fugia da tarrafa do pobre Simão; as bananeiras começaram a mirrar; e até os ovos da galinha goravam ao menor ronco da trovoada. 

O pescador era homem ativo, incansável no trabalho, porém caráter débil, que desanimava com os reveses. As contínuas decepções o acabrunharam; caiu em uma prostração moral, muito mais perigosa do que a enfermidade do corpo. Convenceu-se de que o seu infortúnio era um castigo do céu por algum pecado que cometera; e resignou-se a sofrer sem lutar. 

- Não se resiste a Deus, mulher! dissera ele. 

A Gertrudes porém atribuía a desgraça ao quebranto que algum invejoso deitara à sua casa. Ela se lembrava que um dia passara por ali e pedira água um inglês muito magro, sem dúvida chupado pelas almas do outro mundo. Desde esse dia tudo andava às avessas, dizia a mulher; porque o sujeito saindo zangado com o pequeno que o chamara de gooden, deitara à casa uma figa. 

(continua...)

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