Por José de Alencar (1861)
Isabel — Melhor, muito obrigada. O Senhor passou bem?
Miranda — Passo sempre bem na cidade.
Isabel — Decerto. Está mais tranqüilo: não é obrigado a constranger-se a todo momento. Mas foi o Senhor quem exigiu que eu viesse a Petrópolis!
Miranda — Perdão! Não exigi. Clarinha convidou-a.
Isabel — Se eu não percebesse o seu desejo teria vindo?
Miranda — Este passeio deve fazer bem à sua saúde: é uma distração. Em companhia da sua prima, ao menos a Senhora não está tão só e tão triste. Isabel — A minha tristeza é natural; é gênio. Ninguém já repara nela. Mas o Senhor... Joaquim me disse... Tem feito tantas despesas em preparar a casa.
Miranda — Ah! Mandei fazer alguns consertos... Desculpe-me se não a preveni. Pensei que a casa como estava podia trazer-lhe lembranças desagradáveis...
Isabel — Guardava as mais doces recordações de minha vida! Não importa!... Nela viverei sempre feliz! O que sinto é que tome tanto incômodo por minha causa.
Miranda — Não, Senhora. A nossa posição exige uma certa decência, mesmo com sacrifício.
Isabel — E por que não consente que sua filha tenha uma parte nesses sacrifícios?... A glória de seu nome, os seus serviços, a estima pública que o cerca, não deve pertencer a ela algum dia? Por que não usa de sua fortuna?... Ela é rica!
Miranda — Minha filha é pobre... Quanto a essa fortuna, acredite-me, não a coloque nunca entre nós ambos... Se a felicidade de uma menina, e a sua honra, Senhora, só pudessem ser compradas por tal preço... Não teria a força.
Isabel — E tem a força de se ver caluniado, de ver pesar sobre a sua probidade uma suspeita infame! Quando podia destruí-la com uma palavra!
Miranda — Injúrias anônimas! Quem está livre delas?... Ah! Se fossem esses os espinhos de minha vida! Cuida que ainda resta sensibilidade para esses pequenos dissabores nas almas devastadas pelas grandes dores!
Isabel Se eu pudesse restituir-lhe a felicidade a custo de minha vida inteira... Mas tenho medo de morrer deixando-lhe essa idéia... É o que ainda me tem conservado neste mundo. Nunca, até hoje, o Senhor me quis ouvir uma palavra...
Miranda — Para quê?... É melhor não revolver esta cinza... seria mais uma humilhação para ambos, para o iludido, e para o que iludisse.
Isabel — Senhor!... Sinto que pouco tenho a viver!... O que eu lhe digo agora, direi com meu último suspiro, quando Deus já não deixa mentir!... Sou inocente!...
Miranda — E eu não o sei?...
Isabel — Ah!...
Miranda — A todo o momento o repito a mim mesmo... Estou ouvindo sempre, sempre, dentro de minha alma, essa palavra que já me disse uma vez... E quero crer... quero enganar-me a mim mesmo! Mas... não posso!
Isabel — Há em tudo isto um mistério que me condena!... Mas acredite! uma mulher criminosa, por mais vil que fosse, não vivia assim atada à sua vergonha, e esmagada por esse desprezo tão cruel, que a procura colocar a cada passo em face de um homem ridículo, que supõe seu amante! Oh! essa coragem só a dá consciência pura.
Miranda — Tenho-a feito sofrer muito! Por que não me deixou a mim só esse martírio!...
Isabel — Não cumpro o meu dever?
Miranda — Dever!... A Senhora não tem deveres para comigo!
CENA VII
Os mesmos e Alves
Alves — Permissão para um viajante!
Miranda — Oh! Alves!... Quando chegaste?
Alves — Esta manhã. (A Isabel) Minha Senhora! Soube agora que estavas aqui!
Miranda — Foste feliz na tua viagem? Gozaste sempre saúde?
Alves — Por esse lado não tenho razão de queixa. Passa-se perfeitamente em Minas: mas os negócios não correm bem.
Miranda — Creio que agora correm mal por toda a parte.
Alves — É verdade!... Mas, por lá não fazes uma idéia... Vai para um ano, hás de te lembrar, que ando nas minhas cobranças, e de oitenta contos de réis não cheguei a arrecadar vinte!.
Miranda — Não desanimes por isso! Continua a trabalhar, e espera por melhores tempos.
Alves — Sim; porém os meus credores, a quem passei letras ao prazo de um ano, não esperam mais! Meu sócio já me escreveu, participando-me isso, e eu não sei o que fazer... Acho-me como vês numa situação bem crítica.
Miranda — Realmente para um homem do teu caráter a posição é terrível. Faltar aos seus compromissos.
Alves — Ver declarar-se a falência da sua casa, e apesar de sua boa fé, fica sujeito a suspeitas injustas! Isso tem-me feito sucumbir! O prejuízo enfim, vá feito. Tenho forças para suportar a pobreza.
Miranda — Oh! A pobreza não assusta aos homens honestos. Dá-lhes estímulo ao contrário. Mas, dize-me que posso eu fazer em teu favor?
Alves — Obrigado por esta palavra! Não esqueci o oferecimento sincero que me fizeste na ocasião de minha partida; mas, se não o lembrasses, não teria ânimo.
Miranda — Sim, eu te disse que podias recorrer a mim, no caso de qualquer embaraço...
Alves — É o que eu faço e com bastante acanhamento. Nestes negócios vexo-me mais em dirigir-me a um amigo, do que a um estranho, a quem obrigo a minha firma, e não o meu reconhecimento.
Miranda — Não
devias ter acanhamento comigo. A minha fortuna estava toda à tua disposição...
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.