Por José de Alencar (1857)
— Não, senhor; é justo. O que possuo atualmente, o que adquiro com o meu trabalho, não me pertence; é um depósito, que Deus me confia, e que deve servir não só para pagar as dívidas de meu pai, como também a dívida sagrada que contraí para com uma moça inocente. Gastar esse dinheiro seria roubar, senhor Almeida.
— Bem; não argumentemos sobre isto ; não se discute um generoso sacrifício: admira-se. Venha jantar comigo.
— Não posso, respondeu o moço.
— Por quê?
— Não aceito um favor que não posso retribuir.
— Quem faz o favor é aquele que aceita e não o que oferece. Demais, eu pobre, nunca me envergonhei de sentar-me à mesa de seu pai rico, acrescentou o velho com severidade.
— Desculpe!
O velho tomou o braço de Carlos e dirigiu-se com ele ao Hotel Pharoux, que naquele tempo era um dos melhores que havia no Rio de Janeiro; ainda não estava transformado em uma casa de banhos e um ninho de dançarinas.
Poucos instantes depois, estavam os dois companheiros sentados a uma das mesas do salão; e o senhor Almeida, com um movimento muito pronunciado de impaciência, instava para que o moço concordasse na escolha do jantar que ele havia feito à vista da data.
Carlos recusava com excessiva polidez os pratos esquisitos que o velho lembrava, e a todas as suas instâncias respondia, sorrindo :
— Não quero adquirir maus hábitos, senhor Almeida.
O velho reconheceu que era inútil insistir.
— Então o que quer jantar?
Carlos escolheu dois pratos.
— Somente?
— Somente.
— Não me meto mais a teimar com o senhor, respondeu o velho, olhando de encontro à luz o rubi liquido de um cálice de excelente vinho do Porto.
Serviu-se o jantar.
O senhor Almeida comeu com a consciência de um homem que paga bem e que não lastima o dinheiro gasto nos objetos necessários à vida. Satisfez o estômago e deixou apenas esse pequeno vácuo, tão difícil de encher, porque só admite a flor de um manjar saboroso ou de uma iguaria delicada.
Então, bebendo o seu último cálice de vinho do Porto, passando na boca as pontas do guardanapo, cruzou os braços sobre a mesa com ar de quem dispunha a conversar.
— Pode acender o seu charuto, não faça cerimônia.
— Já não fumo, respondeu Carlos simplesmente.
— O senhor já não é o mesmo homem. Não come, não bebe, não fuma; parece um velho da minha idade.
— Há uma coisa que envelhece mais do que a idade, senhor Almeida: é a desgraça. E além disto o senhor tem razão; não sou, nem posso ser o mesmo homem; já morri uma vez, acrescentou em voz baixa.
— Mas há de ressuscitar.
— É essa a esperança que me alimenta.
— E como vai esse negócio? perguntou o velho com interesse.
— Tem-me custado recolher as letras de meu pai; já paguei 60:000$, e amanhã devo pagar 5:000$ ; seis letras que me faltam não sei onde se acham. Se eu pudesse anunciar...
Mas, na minha posição, receio comprometer-me.
— Pensou bem. Porém só restam por pagar essas seis letras?
— Unicamente.
— Quer saber então onde elas estão?
— É o maior favor que me pode fazer.
— Com uma condição.
— Qual?
— Que há de ouvir-me como se fosse seu pai quem lhe falasse, disse o velho, estendendo a mão.
Por toda a resposta o moço apertou, com efusão e reconhecimento, a mão leal do honrado negociante.
— Essas seis letras, disse o senhor Almeida, estão em meu poder.
— Ah!
— Lembra-se do que lhe disse, há cinco anos, na véspera do seu casamento?
— Lembro-me de tudo.
— Era minha intenção salvar a firma de meu melhor amigo... de seu pai. Mas a sua morte suposta impossibilitou-me.
O passivo da casa excedia as minhas forças. Os credores reuniram-se e resolveram fazer declarar a falência.
— De um homem morto.
— É Verdade. Não o pude evitar. O mais que consegui foi abafar este negócio, comprando a alguns credores mais insofridos as suas dividas. Eis como essas letras vieram parar à minha mão.
— Obrigado, senhor Almeida, disse o moço comovido, ainda lhe devo mais esse sacrifício.
— Está enganado, respondeu o velho, querendo dar à sua voz a aspereza habitual; não fiz sacrifício; fiz um bom negócio; comprei as letras com um rebate de 50%, ganho o dobro.
— Mas quando as comprou não tinha esperança de ser pago.
— Tinha confiança na sua honra e na sua coragem.
— E se eu não voltasse?
— Era uma transação malograda; a fortuna do negociante está sujeita a estes riscos.
— Felizmente, Deus ajudou-me e quis que um dia pudesse agradecer-lhe sem corar, esse benefício. O que tinha sido da sua parte uma dádiva generosa, tornou-se um empréstimo que devo pagar-lhe hoje mesmo.
— Não consinto; prometeu-me ouvir como a seu pai ; eis o que ele lhe ordena pela minha voz.
— Todas as suas dívidas acham-se pagas; a sua honra está salva; é tempo de voltar ao mundo.
— Mas as seis letras que estão em sua mão? Interrompeu o moço.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.