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#Romances#Literatura Brasileira

A Viuvinha

Por José de Alencar (1857)

— Para receber o que lhe devo.

— Não tratemos disso agora.

— Escute, senhor Almeida; depois de cinco anos de provanças e misérias, não sei o que Deus me reserva. Mas, se ainda há neste mundo felicidade para mim, antes de aceitá-la é preciso que eu tenha reparado todos os meus erros; é preciso que eu me sinta purificado pela desgraça. Uma dívida, embora o credor seja um amigo, se tornaria um remorso. Tenho dinheiro suficiente para pagá-la.

— E que lhe restará?

— Um nome honrado e a esperança.

O senhor Almeida resignou-se e acompanhou Carlos até à sua casa.

Ai, o moço abriu a carteira e, tirando os valores que há pouco havia guardado, entregou ao negociante a quantia de 30:000$ representada pelo algarismo das seis letras.

— Já lhe disse que só me deve 15:000$, disse o velho, recusando receber.

— Devo-lhe o valor integral destes títulos; se a firma de meu pai não inspirou confiança aos outros, para seu filho ela não sofre desconto.

Enquanto o senhor Almeida, mordendo os beiços, guardava as notas do banco e os bilhetes do tesouro, Carlos abria uma pequena carteira preta e, depois de beijar a firma de seu pai escrita no aceite, fechou com as outras essas últimas letras que acabava de pagar.

— Aqui está a minha fortuna, disse, sorrindo com altivez.

— Tem razão, respondeu o velho; porque aí está o mais nobre exemplo de honestidade.

— E também o mais belo testemunho de uma verdadeira amizade.

— Jorge!... exclamou o negociante, comovendo-se.

Alguns instantes depois, o senhor Almeida despediu-se do moço.

— Escuso recomendar-lhe uma coisa, disse Jorge ao negociante.

— O quê?

— A continuação do segredo. Nem uma palavra!

Quando for tempo, eu mesmo o revelarei. Ainda não sou Jorge.

— Que falta?

— Depois lhe direi.

E separaram-se.



CAPÍTULO XIV

As últimas palavras do velho negociante esclareceram um mistério que já se achava quase desvanecido.

Jorge era o verdadeiro nome desse moço que morrera para o mundo e que, durante cinco anos, vivera como um estranho sem família, sem parentes, sem amigos, ou como uma sombra errante condenada à expiação das suas faltas.

A página em que eu devia ter escrito as circunstâncias desse fato ficou em branco, minha prima; agora, porém, podemos lê-la claramente no espírito de Jorge, que, sentado à sua carteira, triste e pensativo, repassa na memória esses anos de sua vida, desde a noite do seu casamento.

Acompanhando o moço no seu sinistro passeio às obras da Santa Casa de Misericórdia, o vimos sumir-se por entre os cômoros de areia que se elevavam por toda essa vasta quadra em que está hoje assentado o hospital de Santa Luzia.

O vulto que o seguia de perto, embuçado em uma capa e tomando todas as precauções para não ser conhecido nem pressentido pelo moço, desapareceu como ele nas escavações do terreno.

Jorge, como todo homem que depois de longa reflexão toma uma resolução firme e inabalável, estava ansioso por chegar à peripécia desse drama terrível; por isso parou no primeiro lugar que lhe pareceu favorável ao seu desígnio.

Mas um espetáculo ainda mais horrível do que o seu pensamento apresentou-se a seus olhos; viu a realização dessa ir idéia louca que desde a véspera dominava o seu espírito.

Um infeliz, levado pela mesma vertigem, o tinha precedido; seu corpo jazia sobre a areia na mesma posição em que o surpreendera a morte instantânea, meio recostado sobre o declive do terreno.

A cabeça era uma coisa informe; o tiro fora carregado com água para tornar a explosão surda e mais violenta; as feições haviam desaparecido e não deixavam reconhecer o desgraçado.

Naturalmente quis ocultar a sua morte, para poupar à sua família o escândalo e a impressão dolorosa que sempre deixam esses atos de desespero.

Aquele espetáculo horrorizou o moço; em face da realidade seu espírito recuou; houve mesmo um instante em que se espantou da sua loucura; e voltou o rosto para não ver esse cadáver, que parecia escarnecer dele.

Mas a lembrança do que o esperava, se voltasse, triunfou; julgou-se irremissivelmente condenado; e chamou cobardia o grito extremo da razão que sucumbia.

Tirou as suas pistolas e armou-as, sorrindo tristemente; depois ajoelhou e começou uma prece.

Desvario incompreensível da criatura que, ofendendo a Deus, ora a esse mesmo Deus! Demência extravagante do homem que pede perdão para o crime que vai cometer!

Quando o moço, terminada a sua prece, erguia as duas pistolas e ia aplicar os lábios à boca da arma assassina, o vulto que o tinha acompanhado, e que se achava nesse momento de pé, atrás dele, com um movimento rápido paralisou-lhe os braços.

Jorge ergueu-se precipitadamente, e achou-se em face do homem que se opusera à sua vontade de uma maneira tão brusca.

Era o senhor Almeida.

O velho, com a sua perspicácia e com os exemplos de tantos fatos semelhantes em uma época em que dominava a vertigem do suicídio, adivinhara as intenções do moço.

Aquela pronta resignação, aquela espécie de contradição entre os nobres sentimentos de Jorge e a calma que ele afetava, deram-lhe uma quase certeza do que ele planejava.

(continua...)

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