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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

PORFÍRIO – Elas arrepiam-se muito no princípio, mas acabam por ceder; teima.

CASIMIRO – Não. Irene é um anjo de pureza, depois do que lhe disse, devo pedi-la em casamento; cumprirei o dever, e me farei ditoso.

PORFÍRIO – Irene tem dezoito anos; daqui a dezesseis anos terá trinta e quatro, e será ainda moça e bela; tu, então, contarás setenta, será inválido da pátria, posto fora do serviço ativo, e apesar teu contemplado na passiva.

CASIMIRO – Setenta anos!... não chego lá; quero passar em flores o resto da vida.

PORFÍRIO – Darás a Clemência madrasta dois anos mais moça.

CASIMIRO – Melhor; brincarão ambas como se fossem irmãs; elas são muito amigas; além disso... Clemência que trate de achar marido... já é tempo.

PORFÍRIO – E Mário?

CASIMIRO – Conheço-lhe o caráter; é de gênio revoltoso, mas por fim obedece-me sempre; hei de convencê-lo a entrar para o seminário de S. José, os padres lazaristas deve ganhar muito.

PORFÍRIO – Estás desarrazoando.

CASIMIRO – Nunca tive tanto juízo; olha, tudo me anda às avessas: a Acrobata adoeceu de bexigas e adeus amores! é pena: o ladrão da rapariga arrebatava! a mana Violante está doida, e quer casar; adeus herança! Eu ganho suficientemente no comércio para manter com decência e algum luxo a minha família; e até para capitalizar dois a três contos de réis por ano; mas a paixão pelo belo sexo traz-me sempre a bolsa rasa, e cria-me dificuldades. Irene é pois um sábio recurso; com os seus encantos me fará esquecer todas as Acrobatas, me consolará do casamento de Violante, e me tornará caseiro, circunspecto, grave, econômico e feliz; não achas?

PORFÍRIO – Acho que é uma grande asneira.

CENA II

CASIMIRO, PORFÍRIO, BRAZ que entra pelo fundo.

BRAZ – Qual é a asneira? são tantas! agora serão pelo menos duas.

PORFÍRIO – Que lhe importa? nós nunca podemos estar de acordo.

CASIMIRO – Ao contrário, estou certo que desta vez o Braz me apoiará. PORFÍRIO – Entende-te pois com ele. (Indo-se) CASIMIRO – Espera: não tarda o jantar...

PORFÍRIO – Com o Braz à mesa a indigestão é infalível. (Vai-se) BRAZ – Efeito do molho, tens medo da mostarda et coetera.

CENA III

CASIMIRO e BRAZ

CASIMIRO – Quero os teus conselhos; prometes ouvir-me e falar-me seriamente?

BRAZ – Conforme: eu canto segundo o gênero e o caráter da música.

CASIMIRO – Estou cansado de fazer loucuras impróprias da minha idade; ontem fiz a última.

BRAZ – Veremos, qual foi a última?

CASIMIRO – Direi depois; faço-te uma confidência de irmão: eu amo Irene...

BRAZ – Ainda hoje?

CASIMIRO – Hoje mil vezes mais.

BRAZ – Ah! de que data é a tua última loucura?

CASIMIRO – De ontem; já to disse.

BRAZ – Ah! et coetera; continua.

CASIMIRO – Amo Irene, mas ontem... eis a loucura... falei-lhe de um modo de que ela justamente se ofendeu... fui insensato... grosseiro...

BRAZ – Até aí muito bem pela conclusão, e Irene?

CASIMIRO – Tratou-me com o desprezo mais esmagador.

BRAZ – E tu?

CASIMIRO – Choro o meu arrependimento, e adoro-a perdidamente; sem Irene continuarei a ser o que tenho sido; com Irene me corrigirei e serei feliz; e tendo-a... des.... des... desconsiderado um pouco... entendo que o dever por um lado e o amor pelo outro me ordenam...

BRAZ – A pedi-la em casamento et coetera.

CASIMIRO – Essas tuas et coetera me apoquentam...

BRAZ – Não faças caso; é costume: porém... essa idéia de casamento na tua idade, e no teu estado...

CASIMIRO – Esquece essas circunstâncias, e, abstração feita, aconselha-me.

BRAZ – Ah! abstração feita, aprovo unanimente.

CASIMIRO – Não zombas comigo?

BRAZ – De modo nenhum; postas de lado aquelas circunstâncias et coetera, aprova-se por força o teu projeto.

CASIMIRO – Falas sério, Braz?

BRAZ – Não vês? abstração feita...

CASIMIRO – Então... é o caso de me prestares o maior favor; Irene está arrufada... se te quisesse encarregar de falar-lhe... de convencê-la...

BRAZ – Encarrego-me, conta comigo; mas... atende, casamento de velho com menina é fazê-lo de improviso, ou falha.

CASIMIRO – Eu não me sinto velho; concordo, porém, e se fosse possível... amanhã mesmo...

BRAZ – Amanhã é impossível, Casimiro; há muita obra a fazer; primeiro alcançar a palavra de Irene, depois obter todas as dispensas na Conceição; tomo tudo a mim; se é que não estás abusando da minha simplicidade, basta que assines os papéis que logo te darei...

CASIMIRO – És meu irmão adotivo, não deves iludir-me, não podes gracejar em tão grave assunto...

BRAZ – Sou teu irmão adotivo, lembraste-o bem; farei por tua felicidade e por tua reputação mais do que esperavas em mim.

CASIMIRO – Braz! meu Braz!

BRAZ – Deixa para depois os agradecimentos; estou tomando gosto à negociação e ao serviço de que me encarregas pela mais interessante coincidência...

CASIMIRO – Que coincidência?

BRAZ – No domingo a madrinha proclama o seu casamento, e no mesmo dia poderás realizar o teu; mas... tu sabes, a alma do negócio é o segredo, e neste gênero de negócios...

(continua...)

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