Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CLARIMUNDO – Silêncio, entra comigo neste gabinete; a ação é má; as circunstâncias, porém, a desculpam. (Indo.)
CINCINATO (Seguindo-o.) – Ah!... o senhor também quebra louça!... (Entram no gabinete.)
CENA VII
JOSÉ, que logo se retira, FÁBIO e logo HELENA
JOSÉ (À porta.) – Minha senhora não tarda: queira entrar e sentar-se.
FÁBIO – Assegura-lhe que eu sinto incomodá-la; mas o caso é urgente. (Vai
José.) Minha senhora... (Vendo Helena.)
HELENA – Sr. Fábio... tenha a bondade de sentar-se. Procurava meu marido?
FÁBIO – Não o encontrei no seu escritório, e sendo indispensável que eu lhe fale quanto antes... se v. ex. pudesse indicar-me...
HELENA – Infelizmente não posso...
FÁBIO – V. ex. não compreende como é lamentável, como pode ser funesta qualquer demora... perdão... sei que v. ex. não se apraz da minha presença e só um caso extraordinário me obrigaria..
HELENA – Meu marido não está em casa, e ignoro onde o possa encontrar fora do seu escritório.
FÁBIO – Oh! não é por embaraços da minha vida, é por seu próprio marido, que vim sujeitar-me a importunar a v. ex... é preciso que ele me fale quanto antes... ocorre um infortúnio... uma contrariedade gravíssima.
HELENA – Em relação a Adriano? ...
FÁBIO – A situação é tal que... em desespero talvez v. ex. ache um recurso em suas amizades... eu devo falar...
HELENA – De que se trata?
FÁBIO – Achando-se em grandes apuros, o sr. Adriano assinou um depósito de seis contos de réis, que deve restituir amanhã... Tínhamos a promessa de um mês de espera; mas o malvado usurário faltou a ela, e exige o seu dinheiro.
HELENA – E então?...
FÁBIO – O sr. Adriano... não tem em si aquela quantia... e se não achar quem lha empreste...
HELENA – As conseqüências?
FÁBIO – Um depósito... oh! é ao sr. Adriano que me cumpre falar... (Como para sair) minha senhora... minha senhora...
HELENA – Mas... se isto é verdade, eu quero saber tudo...
FÁBIO – Não... não, minha senhora; talvez ainda seja possível...
HELENA – Veio então só para amargurar-me?...eu quero saber...
FÁBIO – Tem razão... e v. ex. conta prestimosos amigos... e só quem pode impedir a maior desgraça; porque amanhã... a prisão... a desonra...
HELENA – Oh! a prisão de Adriano!...
FÁBIO – Cumpre-me prevenir à v. ex. que os recursos do sr. Adriano estão esgotados e que ele não achará quem lhe empreste...
HELENA – Oh! se o sr. Clarimundo não estivesse em pobreza... os meus brilhantes... mas valem tão pouco... meu Deus!... isso é verdade, senhor...
FÁBIO – Minha senhora, se não tem entre os seus amigos um, que para poupá-la a maior dom, honre a firma de seu marido, habilitando-o para restituir o depósito.
resigne-se: o sr. Adriano deve ocultar-se, fugir hoje mesmo.
HELENA – Fugir?... e a desonra?...
FÁBIO – E a prisão amanhã?
HELENA – Meu marido!... oh!... isto é horrível...
FÁBIO – Confesso: eu não vim procurar o sr. Adriano; vim prevenir a v. ex. de que é indispensável obrigá-lo a fugir esta noite...
HELENA – Fugir não!
FÁBIO – Conta pois com algum amigo?... veja bem...
HELENA – Oh! Adriano! meu marido!.. . (Cai sentada chorando.)
FÁBIO – Não se consterne... não posso vê-la assim... atenda... minha irmã é rica... muito sua amiga... e basta uma palavra de v. ex. para que nem mesmo lhe seja preciso passar pelo vexame do pedido... (Com ternura.) HELENA (Levantando-se e fugindo.) – Oh!...
FÁBIO – Uma palavra, uma ordem sua, e eu...
HELENA (Levanta a cabeça e em silêncio vai até a mesa e toca a campainha.) FÁBIO – Dª. Helena!
CENA VIII
FÁBIO, HELENA e JOSÉ
HELENA – Entrega a este senhor o seu chapéu. (José obedece.) FÁBIO – Minha senhora...
HELENA (Sem olhar estende o braço e aponta com o dedo a porta.) – José!
convida este senhor a sair. (Fábio toma o chapéu e sai arrebatado.)
CENA IX
HELENA, CLARIMUNDO e CINCINATO
CLARIMUNDO – Filha abençoada!... exulta!...
HELENA (Rompendo em soluços.) – E Adriano!... e meu marido!... (Nos braços de Clarimundo.)
CLARIMUNDO – Eu o salvarei.
CINCINATO (De joelhos toma e beija a mão de Helena.) – Perdão, minha senhora! beijo-lhe o santo dedinho indicador que mostrou a porta da rua ao diabo.
FIM DO TERCEIRO ATO
ATO IV
A mesma decoração do primeiro ato.
CENA I
BRÁULIO e GERTRUDES
BRÁULIO – Assim é que é: sessão cheia! pensei que o espanhol me tivesse desacreditado a casa, e hoje acudiu ainda mais gente! eu tinha chegado a calcular com a necessidade de mudar de acampamento.
GERTRUDES – Ora... a polícia aqui é tão boa!
BRÁULIO – Em sinal de gratidão não falemos nela.
GERTRUDES – E Dionísia? em que ficamos?...
BRÁULIO – É uma entrosga difícil! quem diria que o Quebra-louça em um abrir
e fechar de olhos nos poria em revolução!... três contos de réis!... é um homem de bem: por mim estou resolvido a faltar a palavra ao Fábio, que é um impostor, e tanto mais que se arranja o negócio de modo que me deixam com cara de logrado, o que me serve para desculpar-me com ele.
GERTRUDES – Eu desconfio do Cincinato: é um estróina que se diverte a debicar-me.
BRÁULIO – Ele nos pagará: basta entregá-lo a Dionísia.
GERTRUDES – O pior é que Dionísia tem sua queda para Adriano.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.