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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Pois então nós não podemos consentir que sejam assim maltratados.

– Mas que faremos?

– Eu vou acompanhá-los... à casa da velha Irias... é tão perto...

– Louca!... exclamou o velho.

Os gritos redobravam. As duas vítimas não podiam dar um passo. Irias empregava todas as suas forças para suster o mancebo.

– Eu corro a socorrê-los, meu avô, disse outra vez a moça com interesse.

– Não; não! Manda antes o criado.

– Eles não respeitarão a um boleeiro.

– E crês que terão respeito a uma menina?...

– Respeito não; mas talvez que tenham piedade.

Nesse momento uma pedra veio cair aos pés de Irias. Celina escapou-se do braço de sua tia, correu e colocou-se ao lado da velha.

O escárnio cessou como por encanto.

Pôde-se mesmo notar que aquela gente pervertida, sem moral nem educação, que ainda há pouco gritara furiosa, parecia como que arrependida de o haver feito. Se pudesse, lançaria agora flores sobre a velha que acabava de apedrejar.

Jacó e Helena foram os únicos que murmuraram entre si daquele proceder da moça.

Celina acompanhou Irias e Cândido até a porta do “Purgatório-trigueiro”.

– Minha mãe, disse a moça beijando a mão de Irias, eu lhe agradeço as orações que rezou junto do túmulo de meus pais.

E depois voltando-se para Cândido, continuou:

– Obrigada, senhor.

Cândido, pálido como um finado, estava em pé porque se agarrara à velha rótula.

Celina voltou-se para se retirar; e então Irias pôs suas duas mãos sobre a linda cabeça da moça, e disse:

– Proteja Deus a filha dos pais dos pobres.

Quando Celina desapareceu no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, Jacó foi à janela onde estava Helena e apontando para a casa da moça, e depois para o “Purgatóriotrigueiro”, disse:

– Helena, ali há coisa que é preciso descobrir.

CAPÍTULO VI

VISITA DE GRATIDÃO

NO DIA seguinte, e por volta das quatro às cinco horas da tarde, estavam conversando na sala principal do “Céu cor-de-rosa” Mariana e seu velho pai.

No ângulo anterior e direito da sala, e a poucos passos de uma janela, achavase sentado em excelente poltrona o ancião, que era de aspecto simpático e respeitável; deveria ter já passado dos sessenta anos; tinha os cabelos totalmente brancos, a fronte alta, o rosto pálido, finas e delicadas as mãos, e era um pouco magro. Estava envolvido em um robe de chambre de chita, vestia calças brancas, e calçava chinelas de marroquim verde.

Defronte do velho, tendo a cabeça descansada graciosamente sobre a face palmar da mão que se estendia no peitoril da janela, Mariana estava olhando para ele, e entretinham-se ambos em discutir uma questão que parecia interessá-los muito.

Anacleto, com os olhos fitos em sua filha, a escutava observando-a, e como que receava dar inteiro crédito a suas palavras.

Posto que adorasse a Mariana com indizível extremo, o velho que a tinha estudado desde a infância, conhecia perfeitamente o caráter de sua filha, e mil vezes com um olhar firme e penetrante, lia no coração dela o contrário do que lhe ouvia dizer.

Mariana tinha todas as boas e más qualidades de uma senhora da alta classe. Nobre, altiva, e mesmo vaidosa, sabia, quando era conveniente, humilhar-se horas inteiras diante daqueles mesmos a quem detestava, para depois erguer-se veemente e orgulhosa. Ela misturava a audácia com a pusilanimidade, a mais inqualificável imprudência com um sangue frio que chegava a espantar. Sabia rir-se com os lábios quando chorava com o coração. Astuciosa, arrancava o segredo alheio e não confiava nunca o seu. Era capaz de rir-se à borda de um abismo, e de vir chorar numa sala de baile; e finalmente amava com ardor e odiava com extremo.

O semblante de Mariana sempre impassível, sempre o mesmo, dava a suas palavras uma força imensa de verdade, não deixando a ninguém ler-lhe no corar do rosto, no movimento dos lábios ou na expressão do olhar, o que se estava passando dentro dela: contudo Mariana tinha poucas vezes a virtude da franqueza. Podia enganar, sabia que o podia, e enganava.

Mas à força de viver com ela e de estudá-la, Anacleto era o único homem de quem não triunfava o sangue frio e a feminilidade de Mariana; o olhar do velho penetrava direito no coração da viúva; e diante de seu pai ela tremia e corava muitas vezes.

Conversavam ambos.

– Contudo, dizia o ancião, creio que ainda não é tempo de discutirmos sobre isto.

– Mas... não faz nenhum mal que desde já nos preparemos para quando chegar a hora.

– Sabes, Mariana, tornou sorrindo-se Anacleto: vai-me parecendo que estás mais adiantada neste negócio do que pretendes fazer-me crer.

– Não, meu pai, Salustiano ainda nada me disse; eu porém tenho meus olhos de mulher, e a experiência de trinta anos. Talvez que o tenhamos de ver bem cedo vir falar-nos.

– Pois deixá-lo vir.

– E que lhe diremos?...

– Dir-lhe-ei que volte no dia seguinte.

– E depois?... que faremos nós?...

– Nós?... provavelmente bem pouca coisa. Pela minha parte e quando ele tiver saído, chamarei Celina, expor-lhe-ei a questão; e se ela responder que não, diremos a Salustiano no dia seguinte: – não.

(continua...)

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