Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)
Celestina – não sou ambiciosa: esta modesta câmara me viu tão feliz com o teu amor, que jamais a poderei deixar sem saudades.
Adriano – Oh! Os espelhos de doze pés de altura nada será ainda: terás móveis de mogno, ricas porcelanas, vasos de Sèvres, fortes-pianos e pianos-fortes; vestidos de seda, chapéus de plumas, xales de toquim, adereços de brilhantes, jóias preciosas, ouro, coralinas, esmeraldas, o diabo, Celestina, terás o diabo a quatro: e quando te virem passear comigo de carruagem, eles... esses sujeitinhos todos que nos torciam ainda ontem o nariz, hão de abaixar os olhos, e dizer: “Aquela moça deve estar bem contente por ter um amante; que com extremo tal a adora!”
Celestina – Um amante!... mas ainda esta manhã, Adriano, tu dizias um marido! Não é a riqueza, é a verdadeira felicidade que eu aspiro, Adriano, estarás tu mudado?...
Adriano – Eu mudado?... oh!... não... não... mas... Celestina, isso é puerilidade: um amante... um marido... veremos... mais tarde... veremos é simplesmente uma mudança de palavra.
Celestina – mas essa palavra, senhor, é tudo para a mulher honesta; reconheço já que a vossa nova posição vos tornou outro: a pobre Celestina não é mais a mulher que se vos faz necessária...
Adriano – Eu não disse isso... todavia, falas de um modo que...
Celestina – Tendes razão, senhor, eu compreendo, eu adivinho tudo! (Canta)
Pobre me olhavasDigna de amor;Mas hoje rico, Mudas, senhor. Eu sou a mesma,Não mudarei;Qual vos amava Vos amarei.Adriano – Mas, Celestina, que motivo...
Celestina – (Canta e chorando vai-se)
P’ra vós mudar,No pobre quarto Me ireis achar.Constante e puraSempre serei,Pobre de novo Vos amarei. Adriano – Que teima! Quem te disse que eu te desprezo?...Celestina (Canta e chorando vai-se)Rico vos deixo,Pura me ausento;Mas levo n’almaCruel tormento Vossa venturaFaçam os céus. Adeus... eu parto; Senhor, adeus! CENA XIAdriano e FelisbertoAdriano – Celestina! Celestina! Eis aqui como são as mulheres! Deitam-nos sempre água na fervura.
Felisberto – Ainda eu!
Adriano – Senhor Felisberto, eu lhe rogo que para outra vez se faça anunciar; não se entra na casa de um homem da minha hierarquia, como aí na espelunca de qualquer...
Felisberto – Perdão! Mil vezes perdão: porém, um negócio da maior
transcendência... (Enquanto Adriano procura uma cadeira e senta-se, diz Felisberto à parte) Tenho presentemente a certeza de que esta casa se acha no alinhamento da rua projetada, e portanto ela me é necessária por todo preço.
Adriano (Sentado) – Então que temos?...
Felisberto – Senhor Adriano, Vossa Senhoria me faz um grande mal.
Adriano – Deveras?...
Felisberto – Sim: acabo de sair da casa do senhor Pantaleão, que me assegurou ter vendido esta propriedade a Vossa Senhoria.
Adriano – É certo; e que mais?...
Felisberto – Mas é que Vossa Senhoria não sabe, que eu tenho absoluta necessidade desta casa: eu a desejo ardentemente... certas recordações de família...
Adriano – Sim... sim... tudo isso é muito possível; mas também eu tenho aqui minhas recordações, e portanto conservarei a propriedade.
Felisberto – Quê! Pois Vossa Senhoria não quereria ceder-ma!
Adriano – O que há de ser! Veio-me o desejo de representar o papel de proprietário: despediram-me tantas vezes de casas onde morava, que tenho vontade de pôr também os outros no meio da rua; é mais agradável ter inquilinos do que sê-lo; e olhe, não se pode aturar inquilinos! Põem um homem doido... não pagam ao senhorio!
Felisberto – E se eu desse por esta casa quatorze contes de réis?...
Adriano – Quatorze contos?... o que são nesta vida quatorze contos de réis?...
Felisberto – Oh! É dinheiro, que se custa a ganhar!...
– Ah! ah! ah!... a quem diz o senhor isso?...
Felisberto – Está bem, darei dezesseis contos à vista...
Adriano – Dezesseis contos!... (À parte) É verdade que todos me falam de milhões, que eu possuo, mas confesso, que não me desagradaria ter já e quanto antes alguns bilhetes do banco no bolso... (A FELISBERTO) – Pois bem.... quero ser condescendente... aceito.
Felisberto – Dentro em meia hora trago-lhe o dinheiro; é negócio concluído.
Adriano – Eu lhe dou a minha palavra...
também... olhe: por ora é a única coisa que eu tenho para dar.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O Primo da Califórnia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16670 . Acesso em: 6 jan. 2026.