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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Mais ainda. Todo mundo sabe que não há quem nasça perfeito. Suponhamos que eu estou na agradável companhia de três jovens, todas são lindas; a primeira vence a segunda na delicadeza do talhe, esta supera aquela na ternura do olhar e na graça dos sorrisos, e a terceira, enfim, ganha-as na sublime harmonia de umas bastas madeixas negras, coroando um rosto romanticamente pálido; ora, bem se vê que seria cometer a mais detestável injustiça se eu, por amar a delicadeza do talhe da primeira, me esquecesse das ternuras dos olhares e da graça dos sorrisos da segunda, assim como das bastas madeixas negras e do rosto romanticamente pálido da última.

— Muito bem, Augusto, exclamou Filipe. Estou achando um não sei quê tão aproveitável no teu sistema, que me vejo em termos de segui-lo.

— Eis aqui, pois, porque sou inconstante, minhas senhoras; é o respeito que tributo ao merecimento de todas, é talvez o excesso a que levo as considerações que julgo devidas ao sexo amável, que me faz ser volúvel. Agora eu entro na segunda parte de minha explicação.

— Atenção! ... Ele vai provar que é constante!

— Antes que ninguém, minhas senhoras, eu repreendi o meu coração pela sua volubilidade; mas vendo que era vão trabalho querer extinguir por tal meio uma disposição que a natureza nele plantara, pretendi primeiro achar na mesma natureza um corretivo que o fizesse constante. Procurei uma jovem bem encantadora para me lançar em cativeiro eterno, mas debalde o fiz, porque eu sou tão sensível ao poder da formosura, que sempre me sucedia esquecer a bela de ontem pela que via hoje, a qual, pela mesma razão, era esquecida depois. Quantas vezes, minhas senhoras, nos meus passeios da tarde, eu olvidei o amor da manhã desse mesmo dia por outro amor, que se extinguiu no baile dessa mesma noite!

— E exageração! disse uma senhora.

— E exatamente assim, acudiu Fabrício.

— Que folha d’alho! ... exclamou d. Quinquina.

— Então, minhas senhoras, prosseguiu Augusto, entendi que deveria recorrer a mim próprio para tornar-me constante. Consegui-o. Sou firme amante de um só objeto que não tem existência real, que não vive.

— Como é isso!... Então a quem ama?

— A sua sombra, como Narciso?...

— A boneca que se vê na vidraça do Desmarais?...

— Ao cupido de Praxíteles, como Aquídias de Rodes?...

— Alguma estátua da Academia das Belas-Artes?...

— Nada disso.

— Então a quem?

— A todas as senhoras, resumidas num só ente ideal. À custa dos belos olhos de uma, das lindas madeixas de outra, do colo de alabastro desta, do talhe elegante daquela, eu formei o meu belo ideal, a quem tributo o amor mais constante. Reuno o que de melhor está repartido e faço mais ainda: aperfeiçôo a minha obra todos os dias. Por exemplo, retirando-me desta ilha, eu creio que vestirei o meu belo ideal de novas formas!

Viva o cumprimento!...

— Foi assim, minhas senhoras, que me pude tornar constante e, graças ao meu proveitoso sistema, posso amar a todas as senhoras a um tempo, sem ser infiel a nenhuma, disse.

— Muito bem!... Muito bem!...

— Augusto desempenhou-se.

O champanha estourava naquele momento. Leopoldo tomou a palavra pela ordem.

Eu vou, exclamou, propor um belo meio de terminar estas discussões, convidando a todos os senhores para um brinde, no qual Augusto, por castigo de sua inconstância, não nos poderá acompanhar. Não é novo que mancebos bebam, no meio dos prazeres de um festim, um copo de vinho depois de pronunciar o nome daquela que é a dama de seus pensamentos. Aqui não estamos só mancebos e, pois, não faremos tanto; pronunciaremos, contudo, a inicial do primeiro nome.

— Sim! Sim! disse Filipe, Augusto não beberá conosco...

— Não, maninho, acudiu a interessante Moreninha, ele há de beber também.

— Ah, minha senhora! No beber um copo de champanha não está a dúvida; a dificuldade toda é poder, entre tantos nomes, escolher o mais amado. Acode-me tal número dos que têm tocado o superlativo do amor...

— M... disse Leopoldo, esvaziando seu copo.

— C... pronunciou Filipe, olhando para d. Clementina.

— J... balbuciou Fabrício, exasperado com um acesso de tosse que atacara Augusto.

Os outros mancebos pronunciaram suas letras, e só o inconstante faltava.

— Eia! Ânimo, sr. Augusto, disse d. Carolina.

— Mas que letra, minha senhora?... se eles me dessem licença, faria o enorme sacrifício de reduzir as que me lembram ao diminuto número de vinte e três.

— Nada! nada! Nesta saúde não entra o número plural.

— Pois bem, sr. Augusto, continuou a menina, uma coleção não deixa de ser singular; beba o seu copo de champanha ao alfabeto inteiro!

— Sim, minha senhora, ao alfabeto inteiro!

Meia hora depois levantaram-se da mesa. Leopoldo aproximou-se de Augusto.

— Então que dizes, Augusto?...

— Que passaremos a mais agradável noite.

— E quem ganhará a aposta?

— Eu.

— De qual destas meninas estás mais apaixonado?...

— Estou na minha regra, mas hoje tenho-me apaixonado só de três, principalmente.

— E o que pensas da irmã de Filipe?

— A melhor resposta que te posso dar, é... não sei... porque, ao meio-dia, a julgava travessa, importuna e feia, mas era-me completamente indiferente.

— À uma hora?...

— Eu a supus estouvada e desagradável.

— Às duas horas?...

— Má, e desejava vê-la longe de mim.

— Durante o jantar?...



(continua...)

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