Por Visconde de Taunay (1871)
No dia imediato, às nove da manhã, pôs-se a coluna em movimento e, atravessando o Sombrero, avançou sobre a margem direita do Apa, tendo á vanguarda o batalhão de voluntários. Muito tempo nos custou vencer uma légua, apenas. Sucedia a cada momento algum acidente às carretas das munições. Delas não nos podíamos afastar, próximos como nos achávamos do inimigo. Atingíramos quase, segundo a opinião dos refugiados, a primeira guarda paraguaia, a saber, o forte e fazenda da Machorra, situada em território brasileiro, a uma légua e quarto para cá do forte de Bela Vista, que está construído na margem paraguaia.
Esperávamos, a cada passo, encontrar resistência. No entanto marchava sempre o nosso batalhão da vanguarda sem perceber ou sem medir a distância que as paradas continuas dos demais corpos punham entre ele e as outras unidades. Em vão soavam os clarins; já se afastara demais para que os pudesse ouvir. Deixalo assim isolado não era prudente; tornava-se indispensável mandar um próprio chama-lo. Ofereceu-se o tenente-coronel Juvêncio e partiu logo com seus dois ajudantes-de-campo e Gabriel Francisco, o genro do guia, que conosco quis ir. Felizmente, tínhamos bons cavalos, dos que haviam resistido à epizootia; safaramse de perigoso atoleiro, que pela ânsia de chegar não quiséramos contornar.
Perdemos logo de vista o corpo de exército, mas não percebíamos, ainda, nossa tropa já empenhada em combate, ao que supúnhamos, pelas descargas e disparos isolados dos atiradores. Víamos perfeitamente, por vezes, tremular a bandeira nacional, a que depois encobriam elevadas moitas. Parecia-nos, aliás, que não avançava. Em poucos instantes a rapidez da carreira dela nos aproximou e, como eletrizados pela sua vizinhança, atiramos os cavalos ás águas do volumoso ribeirão, que nos barrava o passo, o José Carlos, e afinal nos achamos reunidos aos nossos que, em lugar fechado, combatiam á entrada da Machorra.
Uma linha de paraguaios, assaz extensa, fazia frente ao ataque, ao passo que grande número dos seus se encarniçava, com uma espécie de furor, em destruir a fazenda, incendiando quanto parecia poder arder. Ocupava-se o nosso comandante da vanguarda (1) em examinar uma ponte que cumpria atravessássemos para envolver o inimigo. Foi então que o tenente-coronel Juvêncio lhe comunicou a ordem de estacar. Não permitiam as circunstâncias, porém, que a ela atendêssemos. Concordaram os oficiais na imprescindível necessidade de se ocupar a posição, custasse o que custasse.
Imediatamente a nossa linha de atiradores atirou-se a correr para a frente oposta, e pela própria ponte, porfiando todos em ardor.
Recuaram os paraguaios, mas em boa ordem. Tinham ordens, certamente, para não empenhar combate, mas somente reunir e tanger á retaguarda cavalos e bois que não queriam deixar-nos; e deviam ser numerosos, tanto quanto nos permitia avaliar a poeira que sua marcha ocasionava.
Foi o recinto ocupado: o tenente-coronel Enéias, ali, deu imediatamente nova formatura ao seu batalhão e o manteve numa série de posições que lhe valeu, posteriormente, não só a aprovação do Coronel como gerais parabéns. Foram os nossos os primeiros recebidos. Aplaudiram todos o espírito de disciplina dos seus subordinados e o afã com que, logo á primeira voz, começaram a desentulhar o terreiro de objetos que o atravancavam, sem coisa alguma subtrair, assim como de quanto estava no interior das casas.
Neste ínterim apareceu o próprio comandante. Não vendo voltar nenhum daqueles que á vanguarda mandara, ás pressas partira para constatar o que havia. O entusiástico acolhimento que neste momento lhe fizeram, e as aclamações dos soldados lhe causaram uma satisfação cuja expressão, malgrado a reserva habitual, a todos se patenteou.
Os auxiliares índios, Guaicurus e Terias, não foram os últimos a se apresentar para o saque. Tão pequena disposição para o combate haviam mostrado que, na nossa carreira, ao lhe tomarmos a frente, lhes bradáramos: Vamos! Avante! Valentes camaradas! Agora se lhes transmutara a indolência num ardor sem limites para o saque. Já se haviam disseminado pelas roças de mandioca e de cana, de lá trazendo, imediatamente, cargas sob as quais vergavam, sem, contudo, encurtar o passo.
Vislumbrava-se um resto de crepúsculo, ainda quando o grosso da coluna chegou. Foi este o momento do atropelo e da balbúrdia: tantos objetos se avistavam sem dono, misturados e fadados à destruição. Cada qual tomou o seu quinhão, sendo exatamente os menos beneficiados aqueles que à presa tinham mais direito, pois o haviam conquistado sob o fogo inimigo e guardado, como propriedade pública, até o momento da depredação geral. Era este saque, aliás, legitimo, e não se teria podido, sem manifesta injustiça, recusar tal prazer aos soldados, que o haviam comprado e adiantado por uma série de meses de privações e fome.
Das oito ou dez casas da Machorra, duas estavam reduzidas a cinzas pelo fogo que os próprios paraguaios lhes haviam posto. Foram as outras preservadas pelos nossos soldados. Alguns pedaços do madeiramento, alguns mourões abrasados serviam para cozinhar as batatas, a mandioca e as aves do inimigo. A Machorra, denominada fazenda do marechal Lopez, não passava realmente de terra usurpada, cultivada por ordem sua, além da fronteira.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.