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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Mas era tamanho o empenho em ver Maurícia, que não se resignou a esperar que ela voltasse a Caxangá. Tendo ficado de voltar no dia seguinte, depois de jantar no Engenho, regressa a Recife e encaminha-se para a casa de Martins.

Entretanto, Albuquerque dava-se os parabéns do desfecho feliz que o triste drama parecia ter.

Ficara toda a tarde no aterrado do engenho com sua mulher. Alice tinha ido passar o domingo em casa de uma parenta; e como se a sorte julgasse necessário todo o tempo a Albuquerque para refletir sobre a nova situação que se desenhava a seus olhos, nesse dia não apareceu nenhum dos habituais freqüentadores da casa.

— Eles ficarão aqui ao pé de nós - dizia Albuquerque a D. Carolina, referindose a Bezerra e Maurícia. A casa onde faleceu minha irmã será para eles. É uma boa casa, em que poderão morar o tempo que lhes parecer. Como não tem esse homem nenhum meio de vida por ora, verei o que se há de fazer para que fique arranjado. Se proceder bem, como espero, Paulo casar-se-á, e restar-me-á o prazer de ter chamado ao bom caminho um casal que andava desnorteado, e de ter realizado a felicidade do meu filho.

D. Carolina, depois de algumas reflexões, ou objeções, que Albuquerque destruiu, achou tudo o mais muito bom, e já desejava que todo esse castelo fosse levado a efeito quando uma carruagem do engenho, que voltava, trouxe Maurícia e Virgínia.

Albuquerque e D. Carolina foram ao encontro das duas senhoras.

Pegando da mão de Maurícia, o senhor do engenho, com o sorriso nos lábios, disse-lhe:

— Tenho uma feliz nova que lhe comunicar, D. Maurícia.

— Uma feliz nova! Eu também tenho uma novidade que lhe referir. Mas esta, Sr. Albuquerque, é triste: É a minha desgraça.

Então Maurícia deu alguns passos para D. Carolina.

— Ah! minha boa amiga. A minha tranqüilidade, o meu sossego, acabaram. Foram-se os dia felizes. Ai de mim!

Assim falando, Maurícia lançou-se nos braços da senhora do engenho, e umedeceu-lhe o seio com lágrimas.

CAPÍTULO VII

Não se pode descrever o assombro de Maurícia ao dar com as vistas em Bezerra na sala do sítio. A medonha visão, que lhe aparecera no boqueirão e se desvanecera quase inteiramente no trajeto para a casa de Martins, surgia agora novamente, envenenando-lhe o espírito e repassando-lhe de fel a malfadada existência. Terríveis ameaças vinham com esta visão merencória e truculenta. O passado de que Maurícia desenterrara a página, que lera a Ângelo, ressurgiu a seus olhos com todos os episódios, dando-lhe a feição de uma tragédia.

— Eu logo vi que não havia de enganar-me - disse ela tristemente.

E acrescentou no mesmo instante:

— Que será de mim, se esse homem me jungir outra vez ao carro de sua tirania?

E porque a esse tempo tinha passado a primeira impressão do assombro, Maurícia volveu imediatamente sobre seus passos. Ângelo, que tinha ainda preso ao seu braço o dela, deixou-se arrastar irresistivelmente. O acaso os unira, e a fatalidade parecia não querer soltá-los. O abismo, em que um esteve perto de cair, ameaçou o outro. O pensamento de escapar a esse abismo era comum a ambos.

— Fujamos daqui, Sr. Dr. Ângelo. Deus me livre de ser vista por meu carrasco. Parece-me que para afugentar-se espavorida a minha liberdade, bastaria que ele me cobrisse com seu olhar sinistro.

Foi profundamente abalada que Maurícia disse estas palavras, arrancos de seu ânimo quase exausto. Sentia-se presa da febre e do frio ao mesmo tempo. Em sua alma, havia fogo e gelo - o fogo do desespero; o gelo do terror.

Deram a andar em demanda do portão, protegidos pelas sombras das árvores a que as da noite aumentavam o vulto e a densidão.

— Há talvez excesso nos seus receios, D. Maurícia - disse Ângelo, depois de um momento de silêncio. Quem a poderá obrigar a viver com este homem? A senhora não pertence ao acaso! Não é dona das suas ações?

— Pertenço-me e sou senhora das minhas ações - respondeu ela. Mas a verdade é que ele me aterra como se fora um duende. Não está em mim deixar de temê-lo. Contra esse homem só fui forte em um momento da vida - o da minha separação.

— Recobre os ânimos — prosseguiu o bacharel. Voltar à companhia dele, ou ficar livre como até hoje, são coisas que dependem exclusivamente da sua vontade. Não tem vivido longe dele durante três anos? Por que o teme? Demais, a senhora não está só. Ao seu lado pulsa um coração virgem e amigo, onde predominam dois sentimentos intensos — o amor e a dedicação. Exija qualquer prova destes sentimentos que ela não será recusada, nem retardada.

Ângelo tinha na voz estranhas vibrações. Seu corpo estremecia nervosamente. Fulgiam-lhe no espírito clarões sinistros. Era a terceira vez que o seu amor se revelava. Maurícia, que se considerava de fato ameaçada no que tinha mais caro de seu, não pode fazer-se desentendida como das outras vezes. Os perigos que se levantaram contra a sua tranqüilidade eram maiores do que os que ameaçavam a sua honra.

(continua...)

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