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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Quem é você? quem é você? – perguntou ela, sem fazer o menor gesto aos cães para que se acomodassem. - Sei lá quem eu sou?! Respondeu com maus modos, Lourenço agitado e colérico da estranha e inesperada recepção. Vi este caminho na beira da estrada e sem ter o que fazer, enfiei por ele, para saber onde vinha dar.

- É mentira sua – retorquiu a negra. Você veio atrás das minhas galinhas, e está agora dizendo estas coisas. E eu que pensava que era a raposa que me estava dando no poleiro.

- Negra do diabo! Gritou Lourenço, cada vez mais zangado e irritado. Eu algum dia trepei no teu poleiro? O que eu sinto é não trazer na mão uma vara para te enfiar pela boca a dentro.

- Acuda cá, Moçambique, acuda cá. Estou ás voltas com o ladrão das minhas galinhas – gritou a preta como possessa, e movendo o jagunço contra Lourenço.

Os cães, entretanto, açulados por ela, e autorizados por este novo gesto hostil e agressivo, já mordiam o rapaz pelas pernas como implacáveis inimigos, que de propósito se criam sem cortesia nem benevolência para maior segurança dos lares confiados á sua guarda.

Quando Lourenço sentiu as primeiras dentadas dos terríveis animais, atirou-se desesperado á preta, na intenção de lhe arrancar a arma, de que ele precisava, assim para se defender, como para castigar as ofensas que tanto dela como dos seus companheiros tinha recebido; e teria realizado o seu pensamento, se a esse tempo não se achasse junto com eles, trazendo um longo quiri, descascado ao fogo, o preto por quem a negra chamara em seu socorro.

O conflito tornou-se então sério. O menino, o molecote, a negra, o negro e os cães, tomando parte nele com o empenho de ter cada um por se a vitoria, formaram pelo bracejar e revolver vertiginoso um novelo, uma onda rotatória, um medonho redemoinho, do qual se levantava surdo rumor, produzido pelo respirar confuso, e abafado dos lutadores, e pelo rosnar da rábida matilha.

Lourenço era forte, segundo sabemos. Mais de uma vez atirou para longe um cão, para uma banda o moleque, para outra a negra. Mas os que ele assim afastava de ao pé de si, tornavam logo mais exacerbados ao ponto donde tinham sido atirados, e prolongavam o conflito com fúria e esforço novos. Além disso, Lourenço achava-se desarmado, o que diminuía consideravelmente a sua grande força física, incapaz para resistir ás dos inimigos, que eram gigantes em comparação da sua, visto serem eles numerosos e terem, além das forças, instrumentos que contundiam, feriam e até despedaçavam. Com pouco mais sentiu-se enfraquecer. O sangue escorria-lhe de diferentes pontos das pernas; os cães, ensinados desde pequenos a dilacerar os timbus, as raposas e os maracajás – hospedes importunos do sitio, tinham-lhe rasgado importantes vasos, e cortado com seus poderosos colmilho as carnes moídas das cacetadas. Lourenço estava quase desfalecido, e só lhe faltava cair para ser de todo vitima e não se poder levantar mais.

Achava-se neste extremo apuro, e seus pés já iam resvelando na areia poida do terreiro da casa, aonde as evoluções desordenadas do conflito tinham arrastado os que nele eram parte, quando, repentinamente, vencendo o burburinho, voz forte e vibrante fez ouvir estas palavras:

- Negro! Negro! Moçambique! Tem mão. Queres matar meu filho?

VI

Os negros sobrestiveram espantados.

- É seu filho, seu Francisco? Perguntou Moçambique ao recém-chegado, que não era outrem que Francisco mesmo.

- É meu filho, negro do diabo.

- Então, perdoa, seu moço. Ninguém sabia. Perdoa a Moçambique.

Francisco, sentindo falta de Lourenço, e atraído pelos primeiros latidos da canzoada, viera dar consigo no lugar onde a sua benéfica intervenção não podia chegar mais oportunamente.

Lourenço estava muito maltratado. Chegando á casa, caiu de cama para não se levantar senão depois de um mês. Nos primeiros dias não deram nada pela vida dele.

Este acontecimento, lastimável por um lado, foi pelo outro providencial, e, para assim escrevermos, acentuou a obra de regeneração em que se empenharam aquelas duas almas que porfiavam para pôr no bom caminho o menino perdido e infeliz.

Preso pelas mordeduras e contusões á cama, Lourenço a quem nunca em Pasmado acontecera desastre que com este se parecesse, teve ocasião de fazer irresistível e fatalmente o juízo do seu procedimento desde o dia em que caiu na laxidão das ruas, tabernas e ranchos. O senso intimo, até aquele momento obscurecido pela inexperiência e verdor dos anos, começou a reagir contra as camadas que o impediam de lhe mostrar as trilhas do dever e da sã doutrina.

Marcelina, hábil e natural educadora, aproveitara-se do ensejo para aconselhar o menino, tomando lições do acontecimento, a não se encaminhar senão para o trabalho e o bem.

- Que ias tu fazer, Lourenço, quando os cachorros e os negros caíram sobre ti? Ias perder-te. Deixavas aqui pai e mãe, que olham por ti com amor e doçura; metias-te por esse mato a dentro, com risco de morreres de fome, de doença ou de mordedura de cobra.

(continua...)

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