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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

— Ele é teu, José, e ninguém, ainda que seja teu pai, te privará dele. Mas, antes que o tenhas contigo, quero saber por curiosidade o que vais fazer do coelhinho.

— Ora ! Vou levá-lo para casa. Levo logo daqui capim bem verde para ele comer, e faço lá uma caminha no canto do meu quarto para ele dormir junto de mim.

— E se teu pai o quiser matar ?

— Pedirei a papai que o não mate, não. Olhe, mamãe: o melhor é eu ir esconder o coelhinho no mato sempre que meu pai estiver para chegar. Deus me livre de ver meu coelho morrer.

— Deus te livre, atrevido ! — Ó gritou ao pé da mulher e do filho o mau marido, o pai desnaturado, carrasco da família antes de sê-lo da sociedade e de si próprio.

E arrebatando com rudeza bruta das mãos de Joana o pobre animal, fez gesto de lhe quebrar a cabeça contra uma pedra que lhe ficava fronteira.

— Que queres fazer, Joaquim ? — Ó interrogou Joana, não obstante achar-se aterrada pela presença do marido.

— Ainda mo perguntas, mãe cobarde que só sabes dar a teu filho lições de mofineza ? Eu não quero meu filho para chorão.

— Mas eu também não o quero para assassino.

— Hei de ensiná-lo a ser valente. Há de aprender comigo jogar a faca, a não desmaiar diante de sangue como desmaias tu, mulher sem espírito que não tens animo para matar um bacorinho. Não sabes que o assassino é respeitado e temido ?

Queres que não haja quem faça caso de teu filho ?

— Mas eu não quero que meu coelhinho morra, papai. — Que estás tu a dizer, mal-ensinado ?

O menino quis chorar, com o que se mostrou escandalizado por extremo o tirano da família, que, para o fazer chorar com gosto, segundo disse, lhe deu três ou quatro cipoadas fortes, depois das quais José mal se pôde ter em pé. Joana, não podendo ver o filho apanhar sem razão, partiu para Joaquim, a fim de lhe tirar das mãos o pequeno, mas Joaquim repeliu-a com tanta força, que a fez cair por terra; e voltando-se imediatamente para José, perguntou-lhe com gesto e voz de aterrar:

— Então, mata-se ou não se mata o coelho, José ?

— Mata-se, papai — respondeu o pequeno com as faces banhadas de lágrimas ainda.

— Não quero que chores. Quem é homem não chora; quem é homem faz chorar.

E dando o andar para a casa, com o filho pela mão:

— Vais ver agora de que modo morre o coelho — disse com expressão que se não pode descrever.

— Meus Deus, meu Deus ! Que desgraça esta, que desgraça a minha! — exclamou Joana quando os viu desaparecer na volta do caminho.

Os corações maternais tem inspirações angélicas e grandes. Joana, que não se havia levantado ainda, pôs-se de joelhos no meio da natureza verde e esplêndida que a tinha recebido em sua queda, e, elevando os olhos úmidos e tristes ao céu profundo e belo que se estendia a perder de vista acima de sua cabeça, enviou a Deus esta súplica cheia de amor e filosofia:

— Senhor, Senhor, protegei meu filho. Inspirai-lhe sentimentos brandos por quem sois, meu Deus. Que ele seja bom, e que vos conheça e tema.

Não pode ir adiante a desventurada mãe cuja voz fora embargada por lágrimas violentas que lhe saltaram dos olhos contra o seu querer. Mas de repente, como se tornasse em si de um sonho penoso e achasse de novo todas as suas idéias um instante obliteradas pela intensa dor, Joana fez em pedaços a tábua, e entupiu com pedras e maravalhas o buraco que com aquela armava ciladas aos inofensivos filhos do deserto. Tendo destruído a armadilha, tomou o caminho de casa na qual se lhe deparou um espetáculo em que ela nunca imaginara e que por um triz não abateu de todo o seu cansado espírito. Uma forca havia sido levantada com ramos verdes no terreiro em sua ausência, e dela pendia por uma embira o coelho, minutos atrás cheio de vida, agora morto, o pescoço distendido, os belos olhos empanados. José não só não chorava mas até se mostrava indiferente ao espetáculo repugnante, como se já não fosse o mesmo que poucos instantes antes havia manifestado os mais generosos sentimentos a favor da vítima. O reverso deste recente passado representava-se agora aos olhos de Joana: o pequeno prorrompia em aplausos a cada balanço que dava o corpo inanimado do animal que Joaquim, por entre chutas grosseiras e de mau gosto, impelia de quando em quando com a mão ensangüentada e torpe.

Joana não pôde conter, diante da cena final daquela tragédia infame, a sua justa e bela indignação.

— Homem cruel, onde aprendestes esta lição indigna que acabas de ensinar a teu filho ?

A esta angélica exprobração Joaquim respondeu com uma gargalhada de desprezo que retumbou por toda a vizinhança.

— Quem matou o coelho, José ? — perguntou Joana ao menino, para o qual tinha a autoridade que não podia exercitar sobre o principal responsável do estranho delito.

— Fui eu, mamãe. Papai mandou que eu matasse, e por isso matei o coelho.

Joana volveu novamente os olhos entristecidos a Joaquim, o qual não se demorou a retorquir com a imprudência que o caracterizava:

— Fui eu mesmo que o mandei. Que tens com isso ? Quererás tomar-me contas, Joana ?

— Eu não, Deus sim; Deus há de tomar-tas um dia, homem sem coração.

— Deus ! Quem é Deus, toleirona ? Quem já o viu? Quem já ouviu a sua voz? Estás caducando, mulher.

(continua...)

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