Por Bernardo Guimarães (1872)
Uma ausência porém de quatro anos já era excessiva para um coração de mãe, e a de Eugênio, principalmente depois que seu filho andava mofino e adoentado, não pôde mais por modo nenhum conformar-se com a vontade dos padres. Estes portanto, muito de seu mau grado, não tiveram remédio senão deixálo partir.
A viagem, o movimento, as distrações, o ar livre restituíram em breve tempo à feliz organização do mancebo o viço e o vigor natural, que a longa enclausuração e a vida ascética lhe iam apagando tanto no físico como no moral. À medida que viajava e ia-se avizinhando do lar paterno, ia-se de novo acendendo o brilho dos seus olhos, voltavam-lhe as cores ao rosto pálido, e com elas voltavam também a enxamear no espírito as fagueiras recordações dos brincos da infância em companhia de sua bem querida companheira, como um bando de passarinhos, que depois de uma longa invernada saem das moitas a esvoaçar, espanejar-se e cantar pelos ramos floridos do vergel aos raios de uma formosa manhã de agosto.
Eugênio ardia de impaciência por tornar a ver a casa paterna, os sítios amados onde passara a infância com Margarida. Em sua inexperiente confiança já não receava perigo algum em rever em carne e osso aquela encantadora menina da qual somente a lembrança outrora o assustava, pois julgava-se bastante premunido pelos conselhos e exortações do padre contra qualquer sedução do mundo, e abandonava-se sem reserva às suaves emoções e ao alegre alvoroço que lhe ofegava no coração o dia da chegada de Eugênio foi um dia de festa em casa do capitão Antunes. Pai e mãe se extasiavam diante do filho, e não se fartavam de contemplá-lo, admirando-lhe o porte e o crescimento, as maneiras e o rosto já tão graves e sisudos, e enfim aquele todo verdadeiramente sacerdotal.
Como Eugênio chegara à casa quase à noite, somente na manhã do dia seguinte Umbelina e sua filha puderam ir cumprimentar e visitar o recém-chegado, o pequeno padre, como já chamavam a Eugênio. Apenas este deu com os olhos em Margarida, sentiu um abalo estranho, uma perturbação extraordinária; corou e empalideceu no mesmo instante, ficou trêmulo, confuso e tolhido, como se tivesse diante de seus olhos um espectro ameaçador, e apenas pôde balbuciar um cumprimento embaraçado.
Quanto a Umbelina, essa saltou logo com sofreguidão ao colo do rapaz, apertou-o nos braços, beijou-o na testa dirigindo-lhe os mais bizarros cumprimentos.
— Santo Deus como está grande e bem parecido!... está um homem feito... e já está com o caráter de padre santo!...
Enquanto Umbelina se desabafava nestes e outros cumprimentos, Eugênio confuso e embaraçado olhava de esguelha para Margarida não ousando fitá-la, pasmo com a mudança que quatro anos puderam operar no desenvolvimento da menina, e cuidava vir ainda encontrar pouco mais ou menos a mesma inocente e linda criança que deixara pequena como ele. Eugênio, com ser mais velho dois anos, não havia feito mudança notável, e ainda se considerava menino. Não sabia que o desenvolvimento nas mulheres se opera com muito maior rapidez, e ficou assombrado quando em vez de uma menina, que esperava pôr sobre os joelhos, viu apresentar-se diante dos seus olhos uma linda mocetona, alta, garbosa, bem feita e em toda a plenitude de seu desenvolvimento.
De fato, a interessante menina em quatro anos tinha-se transformado na mais encantadora moça.
A tez era de um moreno delicado e polido, como resvalando uns reflexos de matiz de ouro. Os olhos grandes e escuros tinham essa luz suave e aveludada, que não se irradia, mas parece querer recolher dentro da alma todos os seus fulgores à sombra das negras e compridas pestanas, como tímidas rolas, que se encolhem escondendo a cabeça debaixo da asa acetinada; as sobrancelhas pretas e compactas davam ainda mais realce ao mavioso da luz que os inundava, como lâmpadas misteriosas de um santuário. Os cabelos, uma porção dos quais trazia soltos por trás da cabeça, lhe rolavam negros e luzidios sobre os ombros como as catadupas enoveladas de uma cachoeira. Ao mais leve sorriso, que lhe entreabria os lábios, cavavam-se-lhe nas duas mimosas faces com uma graça indefinível essas feiticeiras covinhas, que o vulgo chama com tanta propriedade — grutas de Vênus. A boca, onde o lábio inferior cheio e voluptuoso dobrava-se graciosamente sobre um queixo redondo e divinamente esculturado, a boca era vermelha, fresca e úmida como uma rosa orvalhada. O colo, os ombros, os braços, eram de uma morbidez e lavor admiráveis.
Sua fala era uma vibração de amor, que alvoroçava os corações, o olhar como luz de lâmpada encantada, que fascina e desvaira; o sorriso era um lampejo de volúpia, que fazia sonhar com as delícias do Éden.
Era, enfim, o tipo o mais esmerado da beleza sensual, mas habitado por uma alma virgem, cândida e sensível. Era uma estátua de Vênus animada por um espírito angélico.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.