Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Estava uma linda tarde, vaporenta e melancólica, como só as há naquelas descampadas e formosas regiões uberabenses. Como era tempo da queima dos campos, a fumaça das queimadas embaciando os horizontes dava-lhes formas e coloridos vagos e fantásticos. O ar estava morno, imóvel e embalsamado. Em frente da casa se desenrolava mágico e sublime o panorama das solidões sem-fim numa sucessão interminável de plainos, florestas, colinas e espigões, cujas formas iam morrer indecisas ao longe engolfadas nas ondas de um vapor dourado. O arpejo tão lânguido, tão cadenciado do sabiá harmonizava-se docemente com aquele místico e voluptuoso remanso, que envolvia toda a natureza. Também cantava ao longe o boiadeiro que vinha tocando as manadas para os currais, e o chiado monótono dos carros, que cortavam os chapadões carregados de fartas colheitas.

Em um ângulo do vasto curral que ficava na frente da casa, havia uma dessas gameleiras colossais, como as há em quase todos os currais das fazendas daquele sertão, e que podem abrigar debaixo de sua gigantesca cúpula uma numerosa manada de gado, de tronco nodoso e cheio de fendas e cavidades, em qualquer das quais um homem se abrigaria comodamente do mais violento temporal. Servem ao mesmo tempo de aprisco para o gado, e de coberta, onde se guardam carros, cangas e mais arreios de carreação.

Recostado sobre a mesa de um carro, que se achava à sombra da gameleira, achava-se Eduardo tomando o fresco, e espairecendo as vistas pela elevadora perspectiva que tinha diante dos olhos; sem dúvida cismava saudades de sua terra, de sua mãe, e da sua querida Lucinda. O velho fazendeiro achava-se também encostado ao peitoril da varanda, armado de um bom par de óculos, lendo um grosso e velho alfarrábio. Não havia muito tempo que Eduardo se achava ali entregue a seus pensamentos, quando Paulina descendo ligeiramente a pequena escada de pedra que vinha dar ao curral, trouxe-lhe uma cesta de laranjas, e lhas ofereceu com um encantador sorriso e expressões cheias de amabilidade. Como seu pai se achava ali à vista entendeu que nenhum mal ia à sua honestidade e recato em conversar a sós com Eduardo alguns momentos. Há muito que suspirava por uma ocasião de entreter-se com ele sem testemunhas, e procurar devassar-lhe, se possível fosse, os segredos do coração, e por isso aproveitou-se com sofreguidão daquela primeira oportunidade que se lhe oferecia, e vencendo a custo o natural pudor e acanhamento, encetou timidamente uma conversação cuja direção já tinha ideado.

O primo Roberto, porém, que sempre desconfiado e ardendo em zelos não perdia um só passo de Paulina e Eduardo, já de uma janela os estava observando, e não podia suportar com paciência aquele espetáculo, que o torturava. Interromper e perturbar a todo transe e de qualquer modo que fosse, aquilo que a seus olhos era uma entrevista despejada e escandalosa, foi logo o seu pensamento. Intrometer-se bruscamente de permeio na conversação seria uma grosseria, que iria magoar sua prima, a quem ao lado do muito amor tinha ele muito respeito ou antes muito medo.

– Com mil diabos! exclamava Roberto trincando os dentes e arrancando os cabelos. – Lá estão a conversar sozinhos! o que estarão cochichando aquelas duas almas! eu dera a vida por ouvir tudo!... aquela prima jurou de me estraçalhar o coração. Doidinha!... às barbas de seu pai, e à minha vista, estar a cochichar com um estranho!... e continuam!... não sei onde estou que... e como se estão derretendo um com outro! oh! não! isto é demais... não consinto.

Entretanto aquele silêncio e serenidade, que ainda há pouco reinava em torno daquela pacífica habitação, tinha-se convertido em tumulto e algazarra infernal. O gado que chegava do campo e entrava de tropel pela porteira do curral, atordoava o ar com seus mugidos; não menos atordoadora era a gritaria dos campeiros, que o tocavam. Os negros que vinham do trabalho e se recolhiam às senzalas ou conversando ou cantando em voz baixa ao toque da marimba faziam um zumbido semelhante ao das abelhas, quando se recolhem ao colmeal. Não menos gritava o patrão lá de sua varanda interrompendo a espaços sua leitura para ralhar e dar ordens a seus campeiros e escravos. Enfim o chiado dos carros, que se avizinhavam carregados de cana para o engenho, acabava de azoinar todos os ouvidos com aquele zunido agudo, incessante, desesperador, que nos martiriza e quase arromba os tímpanos, som de uma intensidade e aspereza tal, que não há no dicionário palavra assaz expressiva para significá-lo.

Enquanto se dava toda aquela barafunda e vozeria, Roberto desceu aos pinotes para o curral boleando em torno da cabeça um comprido laço. Aquela tropelada tinha-lhe sugerido um expediente, que de pronto tratou de pôr em execução para atrapalhar a conversa dos dois jovens.

– Olá, prima! – bradou ele de longe para Paulina com voz atordoadora e sempre boleando o seu laço. – Olhe cá; quer ver como se laça e se dá um tombo de rachar em qualquer destes boizinhos? – Matias! – gritou ele para um dos campeiros, toca para cá aquele boi laranjo, espanta-o bem, de modo que venha bem disparado.

O rapaz espantou o boi, que correndo à disparada passou a algumas braças de distância por diante de Roberto; este atirou-lhe o laço, que caiulhe direito sobre os chifres. O moço segurou a extremidade do laço sobre o quadril, estacou, fez finca-pé, e de um safanão fez tombar de costas o mísero animal.

Conhece, boizinho! – bradou Roberto, e correndo para o boi sem darlhe tempo de levantar-se agarrou-lhe nas pontas, cravou-as no chão, e sentou-se sobre o boi, que ficou subjugado e sem poder mexer-se do lugar.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1213141516...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →