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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O criminoso volta as costas, corre pela porta afora. Mas o desembargador Petra, em mangas de camisa e sem chapéu, como estava, deita igualmente a correr pela rua atrás do fugitivo, gritando: “Pega ladrão! Pega ladrão!”

O povo acudiu à voz da justiça. O criminoso foi cercado, preso e recolhido à cadeia. E o desembargador Petra, muito satisfeito do resultado da diligência, voltou para casa, tomou a beca e foi para o paço.

Quero ainda contar-vos uma outra anedota relativa ao mesmo magistrado. Será a última. Antes, porém, de o fazer, desejo, assim a modo de prólogo ou introdução de uma história, oferecer-vos breves considerações.

O mal que se está experimentando sempre nos parece mais grave ou doloroso do que o mal que já se experimentou. Esta nuança do nosso egoísmo faz-nos geralmente muito injusto para com o nosso tempo.

Andamos agora incessantemente maldizendo do patronato e queixando-nos dos repetidos e vergonhosos milagres que ele operava. Causa-nos espanto a cara horrível do patronato de hoje. Ah! Façam idéia da face medonha do patronato daqueles tempos em que o arbítrio era a lei, a vontade de um ministro valia mais do que todos os interesses do país e todas as conveniências públicas.

Ao menos, agora, cada um de nós tem nas “publicações a pedido” dos jornais diários e em cada tipografia uma elevada tribuna em que solta a voz e fala como um deputado. E dantes? Dantes, quem falava ou escrevia fora do compasso marcado pela batuta do governo fazia uma viagem à África, ou, pelo menos, deixava o seu nome escrito no livro do carcereiro.

Morto por um raio seja eu, se troco o meu tempo pelo tempo do mando e quero, se troco o direito que tenho hoje de pensar em voz alta, de discutir e de censurar, pelo antigo dever de uma cega obediência e de um silêncio de catacumbas.

Patronato sempre houve, e patronato há ainda. Mas o patronato de outrora difere muito do patronato de hoje.

Eis algumas das diferenças que se podem notar entre o velho e o novo.

O patronato do outro tempo usava de calções, e o da atualidade de calças.

O patronato do outro tempo andava de dia e se mostrava ufano no meio da praça: o da atualidade anda de noite, e, de ordinário, se esconde pelos becos. No entanto, o novo sai de carruagem, como acontecia ao velho.

O patronato do outro tempo dizia sempre: ordeno isto! O patronato da atualidade, diz: arranjemos isto!

Ao patronato do outro tempo tirava-se o chapéu com todo o respeito e consideração; ao patronato da atualidade manda-se ao diabo sem a menor cerimônia.

O patronato do outro tempo ostentava-se, apoiando-se na coluna do arbítrio; o patronato da atualidade esconde-se atrás do sofisma.

O patronato do outro tempo aparecia aos olhos do povo nas janelas do palácio, trajando brilhante fardão. O patronato da atualidade vive embrulhado em um grande capote e agachado embaixo da mesa de cada um dos ministros.

Em uma palavra, o patronato do outro tempo era franco e patentemente ousado, e o patronato da atualidade é manhoso e só tenebrosamente ousado.

Notai, porém, que a franqueza do patronato velho não era uma virtude, era, pelo contrário, um defeito profundo do sistema. Essa franqueza era a ostentação do arbítrio.

Dir-me-eis que o patronato novo, por isso mesmo que é manhoso, sofístico e disfarçado, torna-se muito perigoso. Convenho. Ao menos, porém, quando o percebemos e descobrimos, temos o direito de pôr-lhe a calva à mostra e de maçá-lo sem dó nem piedade.

Concordo ainda em que, não poucas vezes, no nosso tempo ousa o patronato erguer-se com a audácia antiga, porque a vaidade e a filáucia de alguns figurões os faz crer que eles nasceram predestinados para serem tutores e curadores obrigados do povo, e que, portanto, devem todos curvar-se ao império de sua vontade e ainda em cima render graças a Deus pelo favor e benefício imenso que da sua irresistível influência resulta para o país. Mas, em que lhes pese, cada cidadão tem na constituição do Império um baluarte inexpugnável contra as intoleráveis pretensões desses reizinhos improvisados, e no direito de censurar uma arma sempre poderosa e temida para atacar os abusos e os patronatos dos tais senhores.

Concluo: sempre houve, ainda há, e muito, e nunca deixará de haver mais ou menos patronato. Dantes, porém, as vítimas sofriam as injustiças dos potentados sem queixar-se nem murmurar, e agora quem sofre pode levantar a voz, fazer-se ouvir, achar um eco na opinião pública, e muitas vezes consegue ver triunfante o seu direito, e fugirem desapontados e pagãos os altivos afilhados dos mais orgulhosos padrinhos.

Última conseqüência: viva a constituição do Império!

Está concluída a introdução ou terminado o prólogo da anedota que agora passo a referir.

Na época em que viveu o desembargador Petra, a Câmara Municipal marcava o maximum dos preços dos gêneros de primeira necessidade e fiscalizava o mercado, impedindo que se vendessem ao povo gêneros alimentícios deteriorados.

(continua...)

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