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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

Clarice — É verdade! Andem, andem! (As três empurram-nos para junto das meias pipas. Henriqueta levanta a tampa de madeira que as cobre.)

Henriqueta — Entrem!

John — Oh, estão com água!

Bolingbrok — É tinta, John!

Virgínia — E o que tem isso? Entrem!

Clarice — Por quem sois, entrai, senão morreremos!

Bolingbrok — Entra, John.

John — Entrar? Mas a tinta?

Virgínia — É assim que nos amais?

Henriqueta — Peior é a demora.

Virgínia — Meu John, compadece-te de mim!

Clarice — Meu Bolingbrok, só assim te perdoaremos, e tornarei a amar-te.

Henriqueta — Entrem, entrem!

Bolingbrok — John, entra; elas torna ama a nós. (Bolingbrok e John entram nas pipas; as moças cobrem-nas com as tampas e, trepando sobre ela, dançam e riemse.)

Henriqueta — Ah, ah, ah, que belo ensino!

Virgínia — Agora sim, estamos vingadas!

Clarice — Quantas casadas conheço eu que invejam agora a nossa posição...

(Dança.)

Henriqueta — Está bom; não se demorem muito, que eles podem morrer.

Virgínia (saltando) — Morrer? Isso não! Morto não me serve de nada.

Clarice (saltando) — Para ensino, basta.

Henriqueta — Sinto passos...

Virgínia — Quem será?

Narciso (dentro) — Diga que o espero.

Clarice – É meu pai.

Virgínia — Oh, com esta não contava eu! Que faremos?

Henriqueta — Ora, eis aí está! Vocês foram meter medo aos pobres ingleses com a vinda de seu pai, e ele chega sem ser esperado...

CENA XI

Narciso e as ditas.

Narciso (entrando) — Ai, que estou estafado! Muito tenho andado (sentando-se), e muito conseguido...

Clarice — Meu pai resolveu-se a jantar em casa?

Narciso — Sim, estou com muitas dores de cabeça, e o jantar fora incomodar-meia... Mas quê? Esta mesa...

Henriqueta (à parte ) — Mau...

Narciso — Tantos talheres?

Virgínia — Henriqueta e seu marido jantavam conosco.

Narciso — Ah, está bom. Acrescentem mais dois talheres.

Clarice — Para quem?

Narciso — Para os amigos Serapião e Pantaleão.

Virgínia — Pois vêm jantar conosco?

Serapião (dentro) — Dá licença?

Narciso — Ei-los. (Levantando-se:) Podem entrar. (Indo ao fundo.) Clarice (para Virgínia e Henriqueta) — E então?

Virgínia — Não sei no que isto dará...

CENA XII

Serapião, Pantaleão e os ditos. Serapião e Pantaleão virão vestidos como dois velhos que são, e muito estúrdios.

Narciso — Sejam muito bem-vindos, meus caros amigos.

Clarice (à parte) — Oh, que figuras!

Serapião — Deus esteja nesta casa.

Pantaleão — Humilde criado...

Narciso — Entrem, entrem, meus caros amigos; aqui estão elas. Hem? Que vos parecem?

Serapião — Encantados!

Pantaleão — Belas como os amores!

Narciso — Bravo, amigo Pantaleão, como estais expressivo! Meninas, então? Cheguem-se para cá; é dos senhores que eu há pouco vos falava. (Aqui Bolingbrok e John levantam as tampas das pipas e observam.)

Virgínia — Muita satisfação tenho em conhecer ao Sr....

Serapião — Serapião.

Virgínia — Serapião.

Clarice — E eu, o Sr....

Pantaleão — Pantaleão.

Clarice — Pantaleão.

Henriqueta — Jibóia!...

Narciso — Virgínia, Clarice, minhas caras filhas, dar-me-eis hoje a maior satisfação com a vossa obediência. A estas horas, sem dúvida, estará lançada a sentença que anula o vosso primeiro casamento, e dentro de oito a quinze dias espero que estejais unidas aos meus dignos amigos.

Serapião — Grande será a nossa felicidade...

Pantaleão — E contentamento.

Narciso — E já me tarda ver este negócio concluído, porque, na verdade, ainda temo os tais inglesinhos.

Serapião — Que apareçam, e verão para quanto prestamos!

Pantaleão — Sim, sim, que apareçam! (Enquanto Serapião e Pantaleão falam,

Bolingbrok e John levantam das pipas e saltam fora. Suas roupas, caras, mãos estarão o mais completamente tintas que for possível, isto é, Bolingbrok todo de azul e John de vermelho. Atiram-se sobre Serapião e Pantaleão, que dão gritos, espavoridos.)

Bolingbrok — Goddam! Goddam!

John — Aqui estamos!

Narciso (assustadíssimo, corre para a porta do fundo, gritando) — Ai, ai, é o diabo, é o diabo! (Jeremias, que entra nesse instante, esbarra-se com ele e rolam ambos pelo chão. As três moças recuam para junto da porta da direita. Serapião e Pantaleão caem de joelhos, a tremerem. Bolingbrok e John gritam, enfurecidos.) Bolingbrok — Ah, tu quer casa, quer mulher a mim? Goddam!

John — Pensas que assim há de ser, velho do diabo?

Jeremias (caindo) — Que diabo é isso?

Narciso (gritando ) — Ai, ai! (Levanta-se, quer fugir; Jeremias o retém.)

Jeremias — Espere! Aonde vai?

Narciso — Deixe-me, deixe-me! (Bolinbrok e John a este tempo têm deixado

Serapião e Pantaleão caídos no chão; dirigem-se para Virgínia e Clarice.)

John (abraçando Virgínia ) — Não te deixarei mais!

Bolingbrok (ao mesmo tempo, abraçando Clarice) — Mim não deixa mais vós.

Virgínia — Ai!

Clarice (ao mesmo tempo) — Ai!

Henriqueta (indo para Narciso) — Senhor Narciso, Não se assuste!

Jeremias (puxando para frente) — Venha cá.

John (abraçado com Virgínia) — Matar-me-ão junto de ti, mas eu não te deixarei...

Não, não, Virgínia.

Virgínia — Não me suje de tinta!

Bolingbrok (abraçado com Clarice) — Esfola a mim, mas eu não larga a vós! No, no!

(continua...)

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