Por José de Alencar (1872)
Só não sabe o que isto é, quem não admirou a espécie de cútis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manhã.
Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois coavam-se através dos inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que lhe aveludava a graça e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha.
Não se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação esplêndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade do amor.
Afonso era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso cordial e folgazão.
Era tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrouse de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos.
Foi depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça, e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irmã, apresentou a sua cabeça de rapaz, desordenada da basta madeixa, que ondulava pelas espáduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manhã.
Descobrindo o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz, da peça que lhe pregara ele; mas desde aí, não beijou mais a Linda sem primeiro olharlhe no rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e não o brejeiro Afonso.
Depois tornou-se impossível a confusão, porque não só o talhe do moço hasteouse com a têmpera viril, como o fino buço começou a assombrear-lhe o lábio superior e as faces.
XI
No tanquinho
Depois da pequena pausa que tinham feito, apressaram os dois irmãos o passo, a fim de ressarcir a perda do tempo, que pouco tinham para o passeio até a hora habitual do almoço.
Assim atravessaram os canaviais, divididos em alqueires por largas alamedas e carreadores mais estreitos.
Nessa ocasião, não repararam como de costume no verde-gaio e risonho daquelas ondas de folhas que flutuavam graciosamente ao sopro da brisa; nem ouviram os brandos cicios, tão doces ao ouvido, como é ao paladar a polpa deliciosa dos gomos. Entraram em seguida na roça, onde o feijão estava em flor e o milho espigava, agitando os seus louros pendões. Logo adiante ficavam os vastos cafezais, recentemente carpados e já frondosos para mais tarde se cobrirem de bagas escarlates, como fios de corais, entrelaçados pela folhagem de brilhante esmeralda.
Aí à sombra dos renques de cafezeiros, descansavam os pretos recebendo a ração do almoço, que as rancheiras de cada turma dividiam pelas gamelas e palanganas que lhes apresentavam.
Passaram os dois irmãos apressadamente e sem dar-lhes mostra de atenção, para não perturbar-lhes o descanso e a refeição.
Além, na assomada de uma colina frondava um vistoso ramalhete de palmeiras de diversas espécies, entre as quais avultava o jeribá com seus lindos penachos.
Chamavam a este lugar o Palmar e dele proviera o nome à fazenda.
Pela encosta da colina estendia-se o pasto; e na base estava uma capuava onde já se começara o trabalho da derrubada, e se afolhavam as terras destinadas à lavoura de mantimentos, dividindo-a em quartéis, como os partidos de canas.
Fronteiro ao Palmar, ficava um grande feital que prolongava-se até a orla da mata. Essa terra descansada desde muitos anos já estava convertida em capoeira, que invadindo os carreadores deixava a descoberto apenas o trilho batido pela constante passagem.
Por essa vereda meteram-se os dois irmãos, Afonso adiante, malhando com o bastão os tufos de capim e relva para espantar as cobras; Linda no encalço, rocegando a fímbria da saia de musselina para guardá-la dos orvalhos. Foram sair em pequeno gramado, de um pitoresco encantador.
Parecia esmero de arte o sítio aprazível; não que possa o gênio do homem jamais atingir os primores da criação; ordenara, porém, muitas vezes e resume em breve quadro cenas que a natureza só desdobra em larga tela; e colige em uma só paisagem cópia de belezas que andam esparsas por vários sítios.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.