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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Estes ditos mais ou menos chistosos, entremeados de risos, eram proferidos com intenção de divertir a gentil amazona. Mas esta, inteiramente distraída, estivera olhando com atenção o “Galgo” que se aproximara da cerca do pasto, apenas percebera a chegada dos outros animais; depois examinara a casa com uma expressão de surpresa desagradável. O cavalo, sentindo as rédeas frouxas, andara alguns passos, o que o aproximara do canto da casa. Os olhos da moça caíram sobre a janela, junto à qual Ricardo estivera trabalhando. O álbum aberto ficara encostado à ombreira onde o desenhista o pusera para secar as tintas, antes de dar-lhe os últimos toques. Não aparecia o busto do moço; ao rumor das vozes na porta tinha-se ele voltado, e procurava distinguir a fala das pessoas. 

O primeiro movimento da menina foi recuar o cavalo; porém seu olhar tinha descoberto na página aberta do álbum a paisagem recentemente pintada. Ela teve um pressentimento; e correu a vista rápida por seu talhe, verificando a semelhança que do primeiro relance se lhe afigurava. 

Era o mesmo roupão verde-escuro, o gracioso chapéu de castor cor de pérola, e as luvas de camurça amarela. A estampa de “Edgard” completava a sua figura de amazona. 

Nesse momento Ricardo, erguendo-se, descobriu o vulto da moça; ela corou reconhecendo a sua indiscrição; mas não obstante, um olhar afouto interrogou o semblante do advogado, fitando-se alternadamente nele ou na paisagem Ricardo cortejara polidamente a moça, mas com esse movimento chegou-se quanto pôde à janela, e disfarçadamente ocultou o álbum. 

- Estamos esperando a água que foram buscar! disse a voz maviosa de Guida, como uma desculpa, ou um pretexto para sair da situação em que o acaso a colocara. 

- Ah! com muito prazer. 

Voltando o álbum com o movimento que lhe imprimira furtivamente o braço, Ricardo colocou-o fechado sobre a mesa e recolheu-se ao interior para mandar trazer a água. Tudo isto foi executado de modo que se observaram as delicadezas devidas a uma senhora. 

Guida, apesar da curiosidade imensa que tinha de ver a aquarela, se afastara modestamente. 

Molhou os lábios no copo d’água que lhe apresentou um dos cavaleiros; e lançando um último olhar à velha casa e às velhas árvores que a rodeavam, partiu a todo galope. Debalde os companheiros de passeio se esforçaram por alcançála. 

No domingo seguinte, voltando Ricardo da “Vista Chinesa”, soltara as rédeas ao “Galgo” que esticava os músculos em um galope ligeiro. 

De repente o animal retraiu as orelhas finas e vivas; tinha ouvido o tropel de outro animal, que vinha atrás a alguma distância, e também de galope. Pouco depois a estampa elegante de “Edgard” alongou-se pelo lado direito, e a Guida passou rapidamente voltando-se para ver se o cavaleiro a seguia. 

O “Galgo” aceitando o desafio que “Edgard” lhe tinha lançado na passagem, juntara para arrojar-se avante como uma flecha; mas a mão firme do cavaleiro o sofreara, privando-o do prazer de dar uma lição ao fidalgo. 

Era a quinta vez que Ricardo inesperadamente, por uma singular combinação do acaso, encontrava aquela moça. A Tijuca não é muito extensa em verdade; mas oferece vários passeios e tem caminhos desencontrados. Entretanto, em direções opostas, em horas diferentes, com intervalos desiguais, uma coincidência estranha aproximava os dois desconhecidos. 

- Se eu fosse algum dos muitos apaixonados que há de ter esta moça, dizia Ricardo consigo e continuando o seu passeio, havia de empregar os maiores esforços para preparar estes encontros casuais; andaria de relógio na mão, espiando a hora em que ela costuma sair de casa, estudando o programa habitual de suas excursões, a direção que toma freqüentemente. E apesar de tudo isto, e das boas corridas que daria a cavalo, muitas vezes havia de perder o meu tempo e a minha paciência. Entretanto eu, que já não possuo relógio, que tenho apenas uma metade de cavalo, que saio de casa sem me lembrar de semelhante moça, não venho mais à Tijuca um só dia, que não a encontre uma e duas vezes. Caprichos da fortuna! 

O moço conjeturou que a mestra e o criado, comitiva habitual da filha do milionário, tinham ficado atrás, e talvez a grande distância. A Guida naturalmente seria obrigada a esperá-los; e portanto teria ele um segundo encontro.

- Nada! pensou ele; e parou à sombra de uma árvore. 

Mas a inglesa e o seu companheiro não apareciam; os minutos corriam; e Ricardo, surpreso, não sabia o que pensar, repugnando-lhe admitir a possibilidade de andar a moça sozinha por aqueles sítios desertos. Teria decorrido um quarto de hora quando ressoou do lado oposto o galope do cavalo.

- Querem ver que é ela que volta? Não há dúvida! 

(continua...)

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