Por José de Alencar (1873)
— Querem ver como eu tiro já as velhas do estrado para a mesa? Esperem vocês, disse Ivo aos companheiros.
O diabrete do rapaz ouvira cantar um grilo ali perto, e foi-lhe à cata. No lugar onde o apanhou havia um pé de perpétuas, das quais escolheu a mais aveludada. Acercando-se então da porta que ficava próximo ao estrado, atirou certeiro a flor no regaço de Marta, que pensou morrer de susto.
— O que é? disseram as outras.
— Caiu uma cousa!
— Não sei! respondeu Marta sacudindo o vestido.
Não apareceu a perpétua que estava bem fechada na mão direita donde passou disfarçadamente para o seio. O Ivo se escondera logo depois de atirar a flor, mas a menina o vira de relance.
A infatigável curiosidade feminina procurava ainda o objeto caído no colo de Marta, quando ouviu-se novo estrépido, e alguma cousa bateu na cabeça de uma devota. Mas em vez de ficar-se como a outra, descansada e quieta, começou a dar pulos tontos.
Foi uma debandada. Dispersou-se o mulherio como por encanto, no meio de guinchos e faniquitos. Esta desgrenhava o cabelo cuidando que o trasgo, pois era um com certeza, lhe ficara preso ao toucado. Aquela sacudia as saias, examinando-as por dentro e por fora. Essa outra embiocava-se, para examinar no seio, se por acaso não se enamorara a larva dos dois jenipapos.
Ao grande espalhafato acudiu o tabelião, apunhando a enorme boceta de tabaco, à guisa de pelouro, na carência de outra arma ofensiva. Os outros velhuscos da roda, qual mais destemido, o acompanhavam, este com um pedaço de tijolo, aquele com um tamanco velho.
Dos primeiros a acudir, se não o primeiro, foi o Ivo, e em tão boa hora que amparou sem querer o corpinho trêmulo de Marta, quando ela ia cair; mas apenas a apertou nos seus braços, que a desmaiada logo ficou de todo restabelecida, e fugiu-lhe como uma sombra.
A causa de toda a balbúrdia fora o grilo, que tão a ponto lançara o Ivo na roda das mulheres, e quando contava-se a história de uma borboleta preta, que chupava sangue à gente, e não era outra senão uma velha bruxa.
Como previra Ivo, deu o susto em resultado apressar a ceia, visto que se tinham desmanchado as rodas, e não havia que fazer àquela hora para entreter o resto do tempo.
Depois da ceia, e antes de recolher-se com a família, escapuliu Marta de perto da mãe, e foi ao quintal colher uma perpétua para deixá-la sobre o trumó, aos pés do Menino Jesus.
Nesse entretanto o tabelião, sempre grave, compassado e sacramental, como um instrumento em devida forma, chamava de parte a dona de casa.
— Sr.ª Romana, minha respeitável sogra, poderá dizer-me quem é este rapaz que vi hoje aqui pela primeira vez?
— É o sobrinho da Rosalina.
— A do alferes? perguntou o tabelião vincando a testa.
— Fale mais baixo, Sr. Sebastião, que ela pode ouvir!
— Vistos os autos, a referida está aqui?
— Que tem isso agora? Por que andaram a fazer enredos da pobre? E não passa da Pôncia, aquela linguazinha de...
— Pois, Sr.ª Romana, minha respeitável sogra, urge que ponha cobro a isso porquanto, se a supradita e mais o bonifrate do filho, que a espertalhona alapardou em sobrinho, se meterem aqui, nem sua filha e minha mulher, nem a sua neta, filha minha e da sua também supradita filha, tornarão a pôr os pés em casa onde se agasalha gente descomedida, que...
— Ora, Sr. Sebastião, guarde seu palavreado lá para a rabulice. A Rosalina há de vir como o filho e o senhor também com a Miquelina e a Marta!
— A senhora teima? perguntou o tabelião em tom sacramental.
— Teima é a sua de engrimar-se com a coitada da mulher, que não lhe fez mal nenhum.
— Escandaliza os bons costumes; e bem vê que sendo eu um oficial do público, judicial e notas, não posso tolerar...
— E que remédio tem o senhor?
— Não me afronte, Sr.ª Romana, senão... senão...
Fez o Sebastião uma reticência tabelioa, prenhe de solenes ameaças.
A velha, porém, fincara as mãos nos quadris; e surdindo por baixo do nariz do tabelião, perguntou-lhe em ar de desafio:
— Senão, o quê?
— Senão eu me recolho ao silêncio! respondeu o tabelião com dignidade.
— É o senhor que pode fazer.
XI
NO FIM DE CONTAS EI-LO O RATO DENTRO DO QUEIJO
Não eram passados oito dias depois da novena, quando pela volta das sete horas da manhã, apareceu a Sr.ª Romana Mência em casa em casa do genro.
Acabava precisamente o Sebastião Ferreira a sua refeição matinal, e esgravatava metodicamente a dentuça com uma pena de galo, esperando que pingassem as sete para encaminhar-se ao cartório.
D. Miquelina e a filha, sentadas ao lado direito da mesa, não tinham concluído a reza, em que o tabelião, como de costume, se despachava mais depressa que elas.
— Deus esteja nesta casa! disse a velha entrando.
— E os anjos a acompanhem, senhora mãe!
— Amém! disse Marta.
— Muito bem aparecida, Sr.ª Romana!
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.