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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

A minha história é imoral; portanto não admite reticências; mas tenho um desvanecimento, pouco modesto, confesso. Caso a senhora cometesse a indiscrição de ler estas páginas a alguma menina inocente, talvez chegassem ao fim sem uma única pergunta. A borboleta esvoaça sem pousar entre as flores venenosas, por mais brilhantes que sejam; e procura o pólen no cálice da violeta e de outras plantas humildes e rasteiras. O espírito da moça é a borboleta; o seu instinto a castidade. 

 

Entretanto, se este manuscrito tivesse de sair à luz pública algum dia, e um editor escrupuloso quisesse dar ao pequeno livro passaporte para viajar das estantes empoeiradas aos toucadores perfumados e às elegantes banquinhas de costura, bastaria substituir certos trechos mais ousados por duas ordens de pontinhos. 

 

A que se reduz por fim de contas a moral literária! Ao mesmo que a decência pública: a alguns pontos de mais ou de menos. 

 

Lúcia fizera uma pausa na sua estrepitosa alegria, e caíra no costumado abatimento e distração. Eu a contemplava admirado do letargo que a tornava inteiramente estranha ao que ali se passava, quando ela voltou-se para mim com o seu sorriso de anjo decaído: 

 

— Não lhe disse que nos havíamos de divertir muito? 

 

— Contudo preferia estar só contigo. Todo o prazer de tão amável companhia, todo o brilho de teu espírito, que como o diamante faísca mais vivo quanto mais vivos são os raios da luz que o fere, nada disto faz esquecer a manhã de ontem! 

 

— Ora! Há tanta mulher bonita! Qualquer destas vale mais do que eu, acredite! Demais, quando tiver bebido alguns copos de clicot e sentir-se eletrizado, saberá o senhor de quem são os lábios que toca? Qual? É uma mulher! Uma presa em que ceva o apetite! Que importa o nome? Sabe porventura o nome das aves e dos animais que lhe preparam esta ceia? Conhece-os?... Nem por isso as iguarias lhe parecem menos saborosas. 

 

Estas palavras, assim lidas friamente, nada são comparadas com a voz amarga e sibilante que as pronunciava. Soltavam-se de seus lábios, e caíam no meu espírito, tão impregnadas de ondas de sarcasmo, que deixavam passando uma impressão cáustica e dolorosa. 

— Não fales assim, Lúcia. Podia responder-te com a tua mesma comparação. Estas gelatinas e massas delicadas sabem que paladar as tem de gozar? Nem por isso deixam de exalar os mesmos aromas e guardar igual sabor para o dono da casa, como para qualquer dos convidados. 

 

— Ou para os criados a quem se atiram os sobejos da ceia?... Não cuide que me ofendo! Se o senhor não diz porque é delicado, pensa-o talvez! 

 

— Mudemos de conversa. Este tom de ironia me incomoda. Deste-me uma hora de prazer, que não esquecerei nunca. Não apagues o perfume desta lembrança. 

 

— Que mal faz? Comprará outras horas de igual prazer: custam-lhe tão pouco! 

 

— Oh! não seria o mesmo, não! 

 

— Já não teria o encanto da novidade? 

 

— Não teria a doce ilusão que arrancarias do meu espírito. 

 

— Mas o senhor não sabe então?... perguntou erguendo os grandes olhos límpidos e fulgurantes. 

 

— Sei tudo, mas não o quero saber; e menos de tua boca! Não sou para ti mais do que os outros; não te mereço nada; porém deixa-me a venda sobre os olhos, eu te peço! Sinto-me feliz com ela. 

 

— O que não o impediria de ver-me com indiferença passar dos seus braços aos de qualquer destes homens, daquele velho por exemplo. 

 

— Serias capaz de fazer isso, Lúcia? 

 

— O que tenho eu feito toda a minha vida? Logo ou alguns dias depois... Questão de tempo! 

 

— Não falas seriamente! É impossível! 

 

— Aborreço o fingimento: não gosto de passar pelo que não sou. É tão ridícula essa comédia do amor, que representam os velhos e os meninos! 

 

O escárnio da repetição de palavras, que eu lhe dissera na véspera, esmagou-me. 

 

— Estás tão calada agora, Lúcia! exclamou o Couto. 

 

— Paulo está naturalmente fazendo-lhe a corte! replicou Sá rindo. 

 

— E por isso Lúcifer desapareceu do horizonte! 

 

— Lúcifer espera o reino das trevas! O Sr. Paulo fazendo-me a corte!... Seria soberanamente ridículo para nós ambos! 

 

— É a segunda vez que repetes uma palavra dita por mim num momento de despeito! Se te ofendi, perdoa-me, murmurei à meia voz. 

— Gostei da frase! 

 

Estourava o champanha, fumegando nos cálices de cristal. Foi o sinal de um concerto infernal de saúdes, hurras e cantigas descabeladas, com o acompanhamento de uma orquestra de copos e pratos; no meio do rumor distinguia-se a voz de falsete do Couto, e a risada estridente de Lúcia, cujas volatas tinham o timbre metálico do canto da araponga entre os murmúrios da floresta. Apenas começaram as primeiras explosões produzidas pelos vapores do vinho aristocrático, os criados saíram batendo a porta do serviço, que fechou-se interiormente. 

 

Estávamos sós; a pêndula marcava uma hora e quarenta minutos; pouco tardaria o momento solene que o dono da casa, novo Erasmo, destinara para a inauguração da loucura. 

 

— Meus senhores, confesso que a minha vaidade de anfitrião, amador das artes, está um tanto humilhada! Ainda não disseram uma palavra a respeito dos meus quadros! 

 

— De quem é a culpa? A magnificência da ceia e a amabilidade do hóspede não consentiram que levantássemos os olhos. 

 

(continua...)

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