Por José de Alencar (1864)
—Perdão, D. Leocádia! disse eu muito contrariado. A senhora compreende que não vim lembrar o que se passou há tanto tempo para provocar elogios, que não mereço, e que, desculpe, me desagradam sempre.
—É tal e qual: sobre isto não é capaz de ceder. Não o contrarie, mana.
—Está bem, doutor, não se zangue; já me calo; respondeu a senhora com bondade.
—Repito, continuei, não fiz mais do que a minha obrigação: e quando recusei a recompensa generosa que o Sr. Duarte me ofereceu, tive para isso uma razão. Não sei se lhe disse? —Creio que sim; mas não me recordo bem.
—Recusei por interesse...
—Ora, doutor!... murmurou timidamente a tia de Emília.
—É verdade, D. Leocádia, por interesse e ambição! Também tenho as minhas superstições! Acreditava, e ainda acredito, que a minha primeira cura me devia dar felicidade, se eu a votasse como pia oferenda à ciência e à humanidade. E não me enganei!... Foi sua amizade, Sr. Duarte, e a maneira por. que recomendou o meu nome aos seus amigos, que me fizeram conhecido e chamado.
—Diga o seu talento; isso sim é que o fez conhecido e há de torná-lo um dos primeiros médicos do Rio de Janeiro.
—Não tenho tais pretensões. Já vê pois, D. Leoeádia, que meu desinteresse não passou de uma pequena especulação feita sobre a amizade e gratidão de sua família! Durante esta conversa eu não deixara de observar Emília. Ela estava ainda na janela; a principio fez um movimento para voltar-se, que logo reprimiu; depois pendera a fronte na mão e conservara-se imóvel.
As minhas últimas palavras a arrancaram bruscamente a essa atitude pensativa; atravessou a sala e veio sentar-se no sofá, defronte de mim. Toda ela era desdém e altivez. Nós cruzamos um olhar, como dois adversários cruzam o ferro, começando o combate.
—O doutor está gracejando! disse-me D. Leocádia.
—Demais, eu não fui tão desinteressado como parecia, porque...
Deve recordar-se, Sr. Duarte... Recusando naquela ocasião prometi-lhe contudo que se alguma vez me achasse em embaraços, não recorreria a nenhuma outra pessoa...
—É exato! O senhor deu-me a sua palavra... Mas infelizmente ainda não chegou essa ocasião, e receio que nunca chegue.
—Pois chegou! disse eu corando malgrado meu.
Não obstante a punição que eu ia infligir a essa moça, e a zombaria de minha simulada cupidez, não me pude eximir ao vexame de parecer um instante dominado por mesquinho interesse pecuniário em face de pessoas que me estimavam. Mas o prazer da vingança me arrastava.
—Seriamente, doutor? exclamou Duarte. Não sabe quanto isso me alegra. Disponha francamente de mim. Quanto precisa? —Fale, acudiu D. Leocádia; não se acanhe. Mano José deseja sinceramente mostrar-lhe sua amizade.
Emília me fizera justiça; depois do que havia passado entre nós, ela sentia que eu era homem a morrer na miséria antes de estender a mão ao dinheiro do pai. Seu olhar fito em mim parecia querer arrancar-me do fundo da consciência a minha intenção oculta.
—Interesso-me, dizia eu, por uma criança desvalida que perdeu os pais... Espero obter a sua entrada no recolhimento das órfãs, e desejava nessa mesma ocasião fazer-lhe um pequeno dote...
—Muito bem, doutor! exclamou D. Leocádia. Não pode haver dinheiro mais bem empregado! —E eu tenho o maior prazer em concorrer para tão bela ação! De quanto será o dote que nós lhe devemos fazer? —Com licença, Sr. Duarte! Eu protesto contra esse nós: o dote há de ser dado por mim só; quero ter o egoísmo dessa boa ação, a primeira e talvez a única de minha vida.
—Que teimoso que ele é! observou D. Leocádia rindo-se.
—Meu egoismo porém não deve prejudicar a minha protegida, privando-a da caridade de uma família que tantos benefícios lhe pode fazer. Por isso desejo que também a conheçam...
Tirei da carteira a lembrança dada a Geraldo pela irmã.
Emília, que mudara de cores desde que eu falei na menina, fez um gesto, como se ao primeiro impulso se quisesse precipitar para me arrebatar das mãos o papel que eu lia. Mas em vez desse movimento o talhe descaiu, como um corpo a que desmaia a vida; a sua altivez sucumbia vencida.
—Deste modo, Sr. Duarte, eu persisto ainda na minha primeira idéia... na minha superstição. Especulo ainda! A minha primeira cura será sempre o melhor momento da minha vida; com o preqo dela poderei remir da desgraça a uma pobre criatura! Ao mesmo tempo livro-o da violência que fiz à sua generosidade, recusando outrora o pagamento dos meus serviços.
Destas palavras, aquelas que tinham uma significação pecuniária, minha voz as pronunciava com tal aspereza, que parecia querer dar-lhes o tinido metálico de moedas.
—Aqui tem a minha conta; conclui.
Emília estremeceu.
—Que é isso, doutor? exclamou o negociante ressentido. Cem mil-réis ?...
—Pelo tratamento de Emília? acudiu D. Leocádia.
—Acha que é muito? —Ora, o senhor está zombando conosco! Pois havemos de lhe dar somente essa ridícula quantia pelo trabalho imenso que teve...
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.