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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Teve ela sombra do horrível mistério, que reclinou a fronte merencória? Não; se a menor suspeita passasse em seu espírito, a houvera espavorido.

Sua tristeza foi sem dúvida por não ver satisfeito seu desejo. As crianças são assim, tiranas e absolutas em seus caprichos.


27 DE ABRIL

Não mais voltarei àquele sítio! Não mais profanarei com a minha presença o olhar puro e santo do anjo que se comiserou de mim!

O mau espírito apoderou-se deste abjeto esqueleto, e fez dele um inferno. Revolvem-se em meu seio pensamentos que me enchem de pavor.

Quando há duas horas cheguei à praia, não vi Úrsula no lugar do costume, o que deu-me ânimo para aproximar-me bem perto do terraço, na impaciência de entrevê-la através da folhagem.

Ela que se tinha escondido para surpreender-me, logo se debruçou no gradil, e estendeu para mim uma rosa que tinha na mão.

Pus-me de joelhos para recebê-la como uma graça celeste. Mas Deus poupou-me a essa infâmia, abatendo sobre mim a sua cólera. Caí, prostrado ao chão, escondendo o rosto na poeira da terra.

E fugi como um louco!...

Como pôde esta miserável carcaça que me deu o Criador para repasto dos gusanos, como pôde conceber o vil desejo de tocar com a sua hediondez a mão pura e imaculada da formosa donzela?

Deus fez o homem do limo da terra; da sânie, só tirou as vespas. Mas o virulento inseto apenas destila veneno; e o meu contágio é mais do que a peste; porque não só mata o corpo, como também a alma. É o contágio da abjeção.

Ah! os felizes que morrem à vida levando a estima do mundo, não sabem o que é esse frio assassínio duma alma, que o mundo lapida, como se ela fora um perro danado, e cujo despojo lança-se ao monturo, e queima-se para não contaminar os ares!


28 DE ABRIL

Tinha jurado não voltar ao eirado; e voltei arrastado por uma força a que não posso resistir.

Parecia-me que estava atado ao leito da dor, onde todo o dia me revolvi em uma angústia cruel, e todavia, ao toque de trindades, sem que desse tento de mim, caminhava como um espetro para aquele sítio, onde me disputam o céu e o inferno; porque ali está a fonte de meus júbilos e o antro de meus sofrimentos.

Assomava a lua no horizonte, como uma sultana a recostar-se nos estofados coxins de brocado azul, recamado de branco. Nas folhas dos coqueiros passava a brisa sutil, ramalhando as verdes palmas.

Da terra, bordada de quintais e granjearias, se exalava, como de uma caçoula, a suave fragrância do campo. O mar dormia em bonança; e o colo da onda arfava mansamente, como o seio da criança engolfada em sonhos ridentes.

Derramava-se no espaço uma doçura inefável, que parecia manar do céu em um jorro de luz alva e macia. Parecia-me às vezes que eu sugava no teu peito, mãe, um sorvo de leite vigoroso, que me infundia saúde e contentamento.

Nunca em minha vida, tive eu tamanha sede de ventura; também nunca a fortuna escarninha aproximara tão perto de meus lábios a taça falaz.

Ávido precipitei-me sobre ela, e pior que Tântalo, a quem o destino apenas retraía o pábulo, a mim trocou-o no mais negro fel.

Traguei a minha própria peçonha; e não morri, não, porque a morte seria uma redenção, e eu não expiei ainda toda a minha culpa de haver nascido, para ser um arremedo de homem...


29 DE ABRIL

Não pude acabar ontem. Embruteceu-me o desespero, se não é que empederniu-me; pois nem gemer eu podia como a besta quando sofre...

Que medonho transe!

Tinha-me eu embuçado na sombra das árvores, que serviam de manto escuro, e não deixavam que ela entrevisse mais do que um vulto. Meu semblante, se o descobrisse à claridade da lua, não resistiria à hedionda catadura do maldito!

Do seio da terra, que é o meu só regaço, mãe, depois que perdi o teu, onde me conchegava no delírio da dor; dás entranhas da noite, onde se gerou o aborto de peste que eu sou, estava alheio de mim na contemplação de Úrsula.

Eis rasga-se a escuridão e vomita sobre mim uma chama do inferno. Alaga o rúbido clarão todo o arvoredo, e cinge-me de uma labareda sinistra.

Corro; mas além está o luar alvacento, que amortalha-me em fantasma. Volvo esvairado sobre os passos, e entro de novo na flama vermelha que me persegue como a língua de Satanás.

Nisto surge o corpo alquebrado de um velho e afasta-se horrorizado.

- É o lázaro!... É o lázaro!...

Ainda ouvi o grito de angústia que despedaçou a alma de Úrsula, mas vindo doutro mundo diverso daquele onde eu estava. Do mais não soube, até as alvoradas que me acharam estremunhando na vasa onde eu jazera o resto da noite; da noite dos outros, que não desta contínua e perpétua que se estende sobre minha vida.

Mas até o sono do jazigo me rouba a sorte ímpia.


30 DE ABRIL

(continua...)

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