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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

VIOLANTE – Pois não tornes a imaginar: vou casar-me.

MÁRIO – Casar-se? na sua idade?... e a quem... perdão, eu ia dizendo uma asneira; mas a titia está doida?

VIOLANTE – Sinto que minha felicidade seja um infortúnio para meus parentes.

MÁRIO – Eu também sinto um pouco... é força dizê-lo; em todo caso rogo a Deus que seja feliz; mas... tornemos ao que mais importa...

BRAZ – Há então coisa que te importe mais agora?...

MÁRIO – Que pergunta! e o procedimento de dª. Irene?

IRENE (A Violante.) – Não sei porque supôs que a nova do seu casamento já me tivesse chegado; eu a ignorava; v. ex., porém, é incapaz de enganar-nos; com certeza vai casar-se?

VIOLANTE – Dentro de oito dias estarei casada.

IRENE – E a sua fortuna? e os seus parentes?...

VIOLANTE – A minha fortuna será para meu marido a compensação da minha velhice; os meus parentes... hão de ter paciência...

IRENE (A Mário) – Quer valsar comigo?

MÁRIO – Case-se, titia! case-se! juro que seu marido não será mais rico do que eu. (Vai-se com Irene.)

CENA XII

VIOLANTE, BRAZ e logo CLEMÊNCIA

BRAZ – Ah! quem me dera ser Mário et coetera!

VIOLANTE – Acho que é fora do natural e até uma espécie de desacato haver quem ostente não dar importância à minha riqueza!

BRAZ – Madrinha... receio que a sua cabeça hoje... esteja... et coetera...

CLEMÊNCIA – Duas horas menos cinco minutos: estou presente.

VIOLANTE – Vem muito cheia de si... por fim de contas.

BRAZ – Foi pena que não contemplasse na oposta o apaixonado que vale mais

que os três multiplicados por trezentos mil.

CLEMÊNCIA – Estava injustamente condenado nas reflexões loucas do toucador.

BRAZ – Explique-se.

CLEMÊNCIA – Por meu castigo explico-me: eu tinha medo de amá-lo, porque para marido faltava-lhe com que comprar-me brilhantes.

BRAZ – E agora?

CLEMÊNCIA – Cada um tem os seus segredos, não é, titia?

CENA XIII

VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA e AUGUSTO

AUGUSTO – Prazo dado de amor que é tarde sempre. (Vendo Clemência.) Ah!

CLEMÊNCIA – Não se incomode, sr. doutor.

AUGUSTO – No mais sério e estremecido empenho só me pode alvoroçar a dúvida do conseguimento da glória.

CLEMÊNCIA (A Braz.) – Este doutor é do direito ou do torto?...

BRAZ (A Clemência.) – Há casos em que o direito está na tortura: este é um deles.

CENA XIV

VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO e POLIDORO

POLIDORO – Dois minutos antes da hora: o relógio do verdadeiro amor anda sempre adiantado. (A Braz.) Que faz aqui o dr. Augusto?

BRAZ (A Polidoro.) – Também estou desconfiado: temo que a madrinha o queira tomar por advogado et coetera...

VIOLANTE (A Clemência) – Este nem caso fez da tua presença: reparaste? CLEMÊNCIA (A Violante) – Eu tenho a dilação, madrinha: lembra-se?

CENA XV

VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO, POLIDORO e LEOPOLDO

LEOPOLDO – Duas horas: pontualidade inglesa; às ordens de vossa excelência!... (A Polidoro) Que significa a presença do dr. Augusto?

POLIDORO (A Leopoldo) – Baldo ao naipe! estou in albis.

VIOLANTE – Senhores, agradeço tanta bondade; infringindo as conveniências e os costumes da sociedade, eu os emprazei para a mesma hora e o mesmo lugar a todos três.

POLIDORO – Três!

LEOPOLDO (A Augusto) – O sr. doutor também?

AUGUSTO (A Leopoldo) – Admira-se?...

VIOLANTE – Eu procedi assim, não para ofendê-los, mas porque tive para mim que os senhores pensavam somente em zombar de uma velha...

AUGUSTO – Perdão... eu protesto...

LEOPOLDO – Minha senhora... reitero a minha proposição...

POLIDORO – E eu também com o coração nos lábios...

VIOLANTE – Era o que desejava muito ouvir diante do meu afilhado e de minta sobrinha: obrigada! agora, e isto é irrevogável, mais três dias para que os senhores reflitam, e para que eu também assente na minha escolha; daqui a três dias pois, no domingo, os senhores terão a complacência de vir jantar conosco, e no fim do jantar dirigirei o último brinde ao preferido. (Confusão e desapontamento dos três.) BRAZ – Talvez fosse melhor fazer o brinde da preferência antes do jantar.

CLEMÊNCIA – Não, titia: os dois infelizes perderiam o apetite.

VIOLANTE – Será como disse; e até domingo reservo-me o direito de absoluto recolhimento para mais tranqüila resolver sobre a escolha.

CLEMÊNCIA – Ao menos porém até o fim do sarau... BRAZ – Ei-lo que termina a galope.

CENA XVI

VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA, AUGUSTO, POLIDORO, LEOPOLDO,

galopada geral; os pares invadem a varanda por todos os lados; LAURIANO arrebata

Clemência; MÁRIO e IRENE galopam; CASIMIRO passa e volta galopando com uma jovem; ardor na dança. Augusto, Polidoro e Leopoldo cercam Violante. BRAZ – Eu defendo a madrinha! não consinto que ela galope!...

FIM DO TERCEIRO ATO

ATO IV

Salão elegante, que abre ao fundo portas para a varanda, que se vê em parte; janelas ao lado esquerdo, abrindo para o jardim; portas ao lado direito.

CENA I

CASIMIRO e PORFÍRIO

PORFÍRIO – Isso não tem senso comum.

CASIMIRO – Digo-te que é um dever de honra, e um recurso para a felicidade da minha vida; seguindo teus conselhos, ofendi Irene, embora não ousasse deixar perceber a extrema e indigna proposição...

(continua...)

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