Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CINCINATO (Entrando.) – Perdão, minha senhora... ah! não está presente?...
(Aos dois.) Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha.
ADRIANO (Triste.) – Adeus, Cincinato...
CINCINATO – Cara de lua nova em noite de chuva... não gosto: sr.
Clarimundo... salvo o respeito devido, cara de eclipse visível.
CLARIMUNDO – Compensação: Adriano vai devorar o almoço que nos estava preparado no hotel, enquanto Cincinato almoçará aqui comigo e Helena. Vai, Adriano, deixa-nos.
ADRIANO – Empurram-me para fora de minha casa?...
CINCINATO – Ocasião de ir fazer impunemente travessuras nas casas dos outros. (Olhando para dentro.) Perdão, minha senhora; ele é incapaz disso... mas vai...
hotel Provenceaux, segundo andar... vai, demônio!
ADRIANO – O sr. Clarimundo quer conversar com Cincinato... eu os deixo...
até logo... (Vai-se.)
CINCINATO (Seguindo-o.) – Isso e o que tu querias era a mesma coisa. (Volta.) Pobre Adriano!...
CENA V
CLARIMUNDO e CINCINATO
CINCINATO – Como passou a noite?
CLARIMUNDO – Mal:levei a refletir até o amanhecer.
CINCINATO – Eu lho predisse, mas o senhor teimou em aproveitar a noite que a interrupção do espetáculo nos deixara livre... eis como a aproveitou.
CLARIMUNDO – Não perdi de todo o meu tempo: creio que tenho meios de saldar as dívidas de Adriano, se o teu cálculo é exato...
CINCINATO – Certamente; mas se veio com essa intenção para que chegou, chorando pobreza?
CLARIMUNDO – Porque o jogo é um sorvedouro sem fundo, e eu não darei um real, se ele persistir em jogar; mas ainda tenho confiança no seu coração... Adriano se corrigirá...
CINCINATO – E Dionísia?...
CLARIMUNDO – Esse é o perigo que me assusta: uma mulher dissoluta, quando chega a inspirar paixão, é o demônio a fascinar: o homem se corrompe no foco da corrupção... há veneno e embriaguez na taça do vício infrene; refleti toda a noite.
CINCINATO – E então?
CLARIMUNDO – Essas mulheres não amam. Supões que Dionísia ame
Adriano?...
CINCINATO – É natural que goste de um rapaz bonito; há de porém dizer-lhe adeus, logo que farejar bolsa vazia.
CLARIMUNDO – E elas têm faro! ainda bem: Dionísia terá sentido a ruína de Adriano. Mudemos de assunto: este me aflige. Ainda não me informei de ti. Como vais de fortuna?
CINCINATO – Idem, sempre idem: quatro moradas de boas casas e cinqüenta apólices; setecentos e oitenta mil réis de renda mensal; podia ser mais, se dois amigos não me ajudassem a comer o aluguel das casas.
CLARIMUNDO – Quem são!
CINCINATO – O seguro, e o tesouro público: quanto ao meu sistema financeiro, dez por cento em fundo de reserva, e o mais para a folgança.
CLARIMUNDO – E vida em folia constante...
CINCINATO – Quebra louça imutável sem ir além da receita faço caretas à morte, desfrutando a vida.
CLARIMUNDO – E ainda como dantes fazes estraladas divertidas, tendo em pouco o reparo público?...
CINCINATO – Não está em mim: achando ocasião, quebro-louça.
CLARIMUNDO – Cincinato, podes salvar Adriano, quebrando louça.
CINCINATO – Dois proveitos em um saco? está salvo. Como é a história?...
CLARIMUNDO – É ao teu zelo e às tuas cartas, que devo achar-me hoje aqui...
CINCINATO – Detesto os prefácios, vamos ao essencial.
CLARIMUNDO – Se empalmasses Dionísia... se a roubasses a Adriano?
CINCINATO – Esta só lembra ao diabo; mas tem seu lugar... era de fazer rir às pedras!... mas qual! Ela não cai.
CLARIMUNDO – E o encanto do dinheiro?... de muito dinheiro?...
CINCINATO – Estou pronto a queimar os meus navios: quanto às casas não posso por causa do seguro.
CLARIMUNDO – Não te ofendas... carta branca... despende o que for preciso.
CINCINATO – Mas... o recurso é de inspiração, palavra de honra! o sr. Clarimundo aproveitou a noite! o caso é de quebrar louça... a Dionísia não é feia... deixo o Adriano de boca aberta, e bato a linda plumagem com a rapariga.
CLARIMUNDO – Salvas teu irmão...
CINCINATO – E no fim de quinze dias faço-me viúvo! é de arrebatar e de encher a cidade com a minha fama; sr. Clarimundo, ganhei ultimamente ao lasquenet três contos de réis, que tenho de reserva; se precisar mais, bater-lhe-ei à porta. Vou praticar uma boa ação executada em andamento de maroteira. Esta noite Dionísia fugirá comigo: fica resolvido. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha.
CLARIMUNDO – Serás a nossa providência (Batem palmas.) pior!
CINCINATO – Pior sem dúvida; porque urge entrar em campanha, e sem almoço não dou contas de mim.
CENA VI
CLARIMUNDO, CINCINATO e JOSÉ, que vai à porta.
CLARIMUNDO – É sem dúvida alguém que procura Adriano, e como ele não está em casa...
CINCINATO – Que seja assim ou protesto: estou rebentando de fome.
CLARIMUNDO (A José que volta.) – Quem é?...
JOSÉ – O sr. Fábio que, não encontrando meu senhor em casa, insta por falar já à minha senhora.
CLARIMUNDO – Fábio?... insta...
JOSÉ – Diz que é negócio grave...
CLARIMUNDO – Fábio! (A José.) dize à senhora que eu e Cincinato saímos, e que voltaremos daqui a uma hora para almoçar. (Vai-se José.)
CINCINATO – Daqui a uma hora? pela minha parte almoço no caminho.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.