Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CLARIMUNDO – Conversemos um pouco. Eu te conheci menino em casa dos pais de Cincinato, a cuja porta foras enjeitado; achaste ali amor e educação, e cresceste bom, honesto e laborioso; apreciando o teu caráter, dei-te há três anos por esposa uma bela jovem, de quem era tutor, Helena, minha filha adotiva, a filha do melhor amigo que tive.
ADRIANO – Entendo... e agora...
CLARIMUNDO – Não vim ralhar; mas é natural que eu te peça contas da fortuna e da felicidade de Helena. Quero poupar-te a confissões penosas. Cheguei ontem, e hoje sei já tudo. Tens perdido em uma casa de jogo quanto possuías; e tudo quanto possuías, Adriano, era o dote ou a fortuna de tua mulher.
ADRIANO – Tem razão, sr. Clarimundo; é verdade o que diz.
CLARIMUNDO – Não te confundas: somos dois amigos a conversar com expansão. Eu também fui moço: quebrei a cabeça algumas vezes; mas tu eras um moço velho: como, de repente, enlouqueceste a ponto de te tornares jogador?...
ADRIANO – Ah! foi uma hora de infernal felicidade que me perdeu! eu estava no baile e entrei por curiosidade na sala do jogo... Fábio jogava, e me provocou a imitálo.
CLARIMUNDO – Ah! Fábio...
ADRIANO – Sim: desde algumas semanas ele se relacionara comigo...
CLARIMUNDO – E freqüentava a tua casa?
ADRIANO – A princípio; mas Helena, aliás já amiga de dª. Úrsula, não o recebia com agrado, e o afugentou.
CLARIMUNDO – Por que? Helena é tão afável...
ADRIANO – Capricho de senhora; antipatiza com ele.
CLARIMUNDO – Ah! então Fábio te provocou a jogar.
ADRIANO – E outros com ele... zombaram da minha resistência...e enfim eu tive como vexame de parecer mesquinho: joguei... tomei as cartas... ganhei... oh!... senti as emoções do jogo... ganhei muito, e levantei-me inebriado... febricitante.
CLARIMUNDO – E depois? ...
ADRIANO – Ouvi Fábio e alguns outros emprazarem-se para a noite seguinte em uma casa de jogo... pedi explicações, e exaltei-me ouvindo a descrição desse abismo... oh!... sr. Clarimundo... eu estava envenenado pelo favor da fortuna... fui jogar e ganhei ainda na primeira noite... depois... depois... eu reduzi minha mulher à miséria e minha reputação de probidade à... à.... desgraçado!...
CLARIMUNDO – Pelo trabalho o homem regenera a riqueza perdida: se és
capaz de não tornar a jogar... se ainda tens honra no coração, eia! reanima-te. Eu estou pobre: mas tenho amigos... pedirei para mim... e faremos maravilhas; mas... Adriano! és capaz de não jogar?...
ADRIANO – Oh!... sim! eu não jogarei mais; porém, salvar-me... é impossível! caí no fundo do precipício!
CLARIMUNDO – Tem coragem, e tornemos à Helena: tu a olvidaste muito, quando em noite de frenesi queimaste ao jogo a fortuna que ela herdara de seus pais; estou certo, porém, que a amas em dobro, empobrecida por ti.
ADRIANO – Helena... criatura angélica... uma santa...
CLARIMUNDO – Eu estava seguro dos teus sentimentos; o contrário seria horrível... imagina: um mancebo tomar por esposa uma donzela rica, formosa, tesouro de virtudes e de amor, não ter dela a mais leve queixa, a menor dúvida de sua dedicação, e do seu recato... – tens de Helena?
ADRIANO – Meu Deus! não... não... é um anjo...
CLARIMUNDO – E depois de levá-la até perto da fome pelo completo desbarato da sua riqueza na paixão vergonhosa do jogo, amesquinhar suas virtudes, ultrajar sua beleza, assassinar o seu amor, atraiçoando-a pelo adultério, aviltando-a pela preferência ou pela competência de uma rival qualquer... talvez mulher indigna... ah! não... não... eu sabia que desse atentado... desse crime tu eras incapaz.
ADRIANO – Basta! basta! (Correndo à porta e, observando, volta. ) eu sinto que me castiga... não me defendo... sou infame algoz... e nos remorsos de uma paixão que me desonra não preciso de juiz que me condene, porque já tenho o meu patíbulo na consciência.
CLARIMUNDO – Desgraçado! e a razão, de que te serve?...
ADRIANO – Os loucos não a têm. Eu não lhe encubro nenhum dos meus ignóbeis erros... insulte-me, despreze-me... está no seu direito: sou um infeliz pervertido...
CLARIMUNDO – Miséria humana! a paixão desvaira o homem: Adriano, eu te desculpo, mas a loucura há de passar e Helena te perdoará. Aproveita a lição da experiência para também seres fácil em perdoar aos outros, desatinos iguais.
ADRIANO – Sim... eu não posso mais ser severo... não há vontade que domine a violência da paixão.
CLARIMUNDO – Bem, meu amigo, o ensejo é o mais oportuno para te confiar o verdadeiro motivo da minha vinda a esta capital. Vamos deixá-la quanto antes: estás enganado sobre a causa da tristeza de Helena.
ADRIANO – Que quer dizer?
CLARIMUNDO – Ânimo e prudência: um amor irresistível... fatal...
ADRIANO – Minha mulher!...
CLARIMUNDO – A infeliz esqueceu o dever... e desassisada... perdão!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.