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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Mas, ao romper de uma aurora, o mancebo lançou por acaso os olhos através da fresta de uma janela, e viu uma moça que, ao muito, poderia ser sua irmã; e para logo ele compreendeu, que, além de uma mãe, há no mundo uma outra mulher, a quem se pode amar muito.

E desde esse dia, em todos os outros, e à mesma hora, Cândido ia esperar que a “Bela Órfã” descesse ao seu jardim, e em êxtase a adorava, ou descuidadosa passeando por entre as flores, ou negligente repousando no banco de relva do caramanchão, envolvida na nuvem de suas madeixas.

Amava ele aquela mulher?... Cândido juraria que não. Em seu entender Celina não era uma mulher para se amar; era sim uma bela visão para se admirar extasiado.

No entanto, ele que pensava não amá-la, despertava, ao amanhecer, para contemplá-la; de dia por ela suspirava; dormia e a via em sonhos.

A mãe de Cândido tinha já uma rival no coração de seu filho.

Acompanhando Irias ao templo de S. Francisco de Paula, Cândido pagava também o seu tributo de gratidão aos restos do homem beneficente; e além disso, rezava pelo pai de Celina.

Mas, quando a órfã soltou seu grito de dor, e caiu de joelhos junto do túmulo de seu pai, Cândido, preciso é dizer, esqueceu o lugar onde estava, a multidão que o cercava, e o fim para que ali viera; e de novo ajoelhando-se ele o fez, instintivamente, não para deprecar por um finado, porém só em adoração àquela mulher formosa.

Mal chegou o instante da reflexão, ergueu-se e fugindo do jazigo e encontrando sua mãe adotiva à porta do templo, travou-lhe do braço e levou-a apressadamente pelas ruas.

O coração e a cabeça daquele mancebo estavam em guerra. A pesar dele, a despeito de seus esforços para enganar-se a si próprio, ele amava. E seu coração lhe pedia com ardor a posse dessa mulher encantadora... a primeira que tinha amado.

E sua cabeça lhe mostrava a sociedade despótica e tirânica empurrando-o para longe de Celina, erguendo entre ela e ele um muro de bronze, em cujo cimo estava escrito – impossível – impossível; porque o século pertence ao ouro, e o homem pobre deve abafar suas afeições...

Mas o coração que ama, não crê nessa palavra – impossível –; o coração não sabe que no mundo há ouro; não raciocina para depois amar: o coração ama, porque ama.

E todavia se Cândido fosse cair aos pés da “Bela Órfã”, se lhe pedisse seu amor e sua mão, a sociedade teria de perguntar-lhe:

– Quem és tu?...

– Um pobre rico de honra.

E a sociedade havia de rir-se, e de responder-lhe: – não basta.

E viria depois dele um outro de quem se pudesse dizer – Um rico pobre de mérito.

E a esse responderia a sociedade: – é de sobra.

Atormentado por essas reflexões, que até certo ponto exprimiam nuamente a verdade, o caráter da época atual, Cândido caminhava a passos largos sem ver, sem ouvir, sem atentar coisa alguma.

Irias acompanhava a custo, e como que espantada, ao ardente moço. Tendo-lhe, como foi dito, caído a mantilha ao pé do túmulo de Paulo Ângelo, quando de novo nela se envolveu, colocou-a mal, e uma porção de seus longos cabelos brancos ficou flutuando sobre ela. E Cândido, levando-a estouvadamente, e caminhando sem reflexão, ora com Irias se esbarrava contra os que vinham, ora deixava que a pobre velha se salpicasse de lama.

Indiferente a tudo isso, surdo à voz de Irias, todo entregue a seu pensamento único, foi somente ao aproximar-se de sua pobre casa que Cândido se sentiu despertar por um grito de escárnio.

– Bruxa!... bruxa!... bradavam de todos os lados.

Entretanto também Celina se retirara da igreja de S. Francisco de Paula em companhia de seu avô e sua tia. A carruagem, em que vinha o velho e as duas senhoras, parou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e quando os três acabavam de apear-se, foram atraídos pelos gritos, que de todas as partes soavam.

Cândido e Irias viam-se cercados por uma chusma de garotos, que tomavam a velha para alvo de suas zombarias.

Como os cães que, em nossa terra, investem de preferência contra os negros, porque sentem o desprezo que se vota a essa classe desgraçada, a escória da sociedade, imitando os grandes, escarnecia da pobreza daquela mulher.

Jacó e Helena riam-se daquela cena de escândalo, como se ela fora uma cena de prazer público; e ambos eles excitavam, em voz baixa, os garotos que passavam perto de suas janelas, a continuar em seus insultos e redobrar os gritos que soltavam.

– Bruxa!... fora a bruxa!... bradavam uns.

– Lá vai a velha bruxa!... clamavam outros.

Alguns já tinham ousado chegar-se a suas vítimas, e a mantilha da velha estava

feita pedaços.

Irias agarrava com suas duas mãos emagrecidas e nervosas o braço do mancebo que, tremendo de raiva e de vergonha, esquecia-se do que era, e queria lançar-se contra a canalha; e ao mesmo tempo que a velha, que o sustinha à força, apenas demonstrava o seu furor em um sorrir de desprezo, que deixava ver duas ordens de dentes iguais, alvos e brilhantes, e nas vistas de fogo de seus olhos verdes que simulavam do gato observado em noite escura.

– Minha tia! exclamou Celina, aquela é a velha Irias, e o moço, que a acompanha, o mesmo que orou junto do túmulo de meus pais.

– Sim... creio que sim, respondeu-lhe Mariana.

(continua...)

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