Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Adriano (Sem prestar atenção) – Cada milhão... quatrocentos contos... são cinco milhões... cinco vezes quatro, vinte... são vinte cem contos!... que são dois mil contos... dois mil contos são cinco milhões... cinco milhões são dois mil contos!...

Isto faz andar a cabeça da gente à roda!... dois mil contos!...

Pantaleão – E se preferir a política, Vossa Senhoria será eleitor... juiz de paz... comandante da guarda nacional... deputado... e até barão!... isto é muito agradável ao amor próprio!

Adriano (Levantando-se) – Muito obrigado. (À parte) Am!... tudo agora se desembrulha! As delicadezas, as amizades, as senhorias, os oferecimentos... oh! Dinheiro!!! (A PANTALEÃO) Senhor Pantaleão, eu sou um rapaz muito bem criado para que me atreva a declarar que o senhor e este jornal faltam à verdade; mas...

Pantaleão – Eu não quero saber disso, vim aqui para perguntar a Vossa Senhoria se quer comprar esta casa.

Adriano – Eu ia dizendo que...

Pantaleão – Perdoe-me Vossa Senhoria: minha casa lhe convém?

Adriano – Certamente que sim. (À parte) Quanto à filha, nem pelo diabo! É uma maitaca que fala até pelas pontas dos dedos.

Pantaleão (Tirando um papel do bolso) – oh! Eu o adivinhava: acabemos portanto já com este negócio...

Adriano – Mas se eu não tenho real de meu, senhor.

Pantaleão – Oh! Não falemos em dinheiro... Vossa Senhoria tem crédito na praça: acabo de redigir este contrato, pelo qual Vossa Senhoria me compra esta casa, e se obriga a dar-me por ela doze contos de réis, pagos no fim de seis meses, e com o direito de desfazer o contrato no fim de um mês; e eu, pela minha parte, no caso de arrendamento, me obrigo a pagar-lhe para reaver o imóvel, dois contos de réis. Serve assim?... (ADRIANO lê o contrato) Este mundéu não vale oito contos... e se ele aceita...

Adriano – Pois vá; assinarei este papel, que finalmente a nada me obriga: mas veja que é a pesar meu. (Assinam ambos dois papéis, cada um guarda o seu)

Pantaleão – Quanto a isto, estamos arranjados; a respeito da rapariga, brevemente falaremos: o meu amigo não se arrependerá destes dois negócios: uma mulher excelente... uma propriedade que não o é menos... ainda jovem e formosa... Vossa Senhoria a fará rebocar... a propriedade é deliciosa... cheia de talentos e de graças: e que nariz, senhor!!! A rapariga então é um portento! É toda feita de pedras de talha... ótimas madeiras... e finalmente... sim, amigo do coração, adeus! Eu sou um mortal imensamente afortunado! Oh! Sim!... Vossa Excelência aperta a mão de um mortal imensamente afortunado... (À parte) Oh! Ifigênia, tu serás milionária e eu entrarei no monopólio com o dinheiro do genro!... (A ADRIANO) adeus, amigo do peito, adeus!

Adriano – Oh! Dinheiro! (Cantam)

Pantaleão (À parte) – Eu também sou como os outros,

Não é por ser marralheiro; Mas me derreto em ternurasAo pé de quem tem dinheiro. Adriano (À parte) – Este é como alguns que eu seiAdulador, marralheiro; Os favores, que me oferece, São foscas ao meu dinheiro.

CENA IX

Adriano (Só) – Agora sim, entremos em nós... conversemos um pouco com a consciência... estou em um perfeito juízo... estou, não há dúvida! Não me acho bêbado, nem doido! Tenho... ou tive um primo... na Califórnia... Paulo Cláudio Jenipapo... na minha árvore genealógica, nos anais de minha família, eu encontro um tio, que enquanto vivo foi patrão de uma sumaca... chamava-se ele mestre Leonardo Jenipapo... ora, quando se tem tido um tio, não é nenhum impossível, que depois a gente venha a ter não só um, como até cinqüenta primos... todos querem que eu seja o único herdeiro de um primo, que deixou milhões... a imprensa proclama isso por suas mil bocas... não é por conseqüência admissível, que todos se enganem... (Depois de um instante de silêncio) tolo, e muito tolo sou eu em não dançar, em não saltar por esta sala: é verdade! Sou rico! Tenho dinheiro! Sou milionário!... oh!... (Canta e dança)

Enfim, o senhor destino

Ser justo quis uma vez;

De suspirados milhões

Feliz herdeiro me fez.

Sou rico! Sou rico!

Já tenho outro rosto!

Sou rico! Sou rico!

Não caibo de gosto!

Vejam já quantos amigos

Mal me deixam respirar!

“que cambada de marrecos

pega neles p’ra capar.”

Sou rico! Sou rico!

Já tenho outro rosto!

Sou rico! Sou rico!

Não caibo de gosto!

CENA X

Celestina e Adriano

Adriano – Ah! és tu, Celestina?... vem ajudar-me a gozar esta alegria desordenada! Eu sou rico, Celestina, eu sou milionário!...

Celestina – Já o sei.

Adriano – Leste algum jornal?...

Celestina – Não; foi a senhora Beatriz.

Adriano – É o mesmo; ela é a verdadeira gazeta do quarteirão; mas desta vez a senhora Beatriz falou a verdade, o que certamente é um pouco extraordinário. Sim, eis aqui o jornal, o bem-aventurado jornal!... Celestina, tu vais ser feliz.

Celestina – Eu feliz!... pois vê, como sou criança; tua inesperada riqueza quase que me tem causado aflição.

Adriano – Oh! Não sejas tu a primeira que maldigas a minha fortuna: tu vais deixar o teu pequeno quarto para morar num sobrado cheio de espelhos de doze pés de altura!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1213141516...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →