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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Mas, para conseguir esse fim, nós trilhamos caminhos absolutamente opostos; começarei por ti, Honorina. Tu tinhas um avô, que te idolatrava com excesso, homem do século passado, que chegara até ao nosso com todas as velhas idéias firmes e inabaláveis. Ele combateu a vontade de teu pai, opôs-se ao gênero da educação que se te queria dar, e, para que este conseguisse ver-te instruída, foi preciso conceder que toda a instrução te fosse dada debaixo dos olhos de teu avô. Esse bom velho via o mundo cheio de mentiras e traição, de perigos e de enganos; e, tremendo pelo seu querido anjo, temendo que o bafo do vício manchasse a flor do seu coração, ele te escondeu dos homens; tu eras a sua bela violeta... modesta, oculta entre as suas folhas; providente, ele fugia contigo em sua alma, quando sonhava um perigo; escolhia a casa em que devias passar uma só hora em uma noite; cobria-te o rosto com um véu para te levar à igreja; tinha os olhos fitos sobre os teus mestres; ensinou-te a amar a virtude no seio da solidão; tu cresceste; aos quinze anos eras bela, sem saber que o eras; alegre, sem conhecer o mundo, pura e inocente como a florzinha; porque enfim nunca se tinha queimado a teus pés o turíbulo lisonjeiro dessas reuniões perigosas, onde reina uma febre de vaidade tão fatal como contagiosa; porque enfim nunca falara a teus ouvidos o galante mancebo que jura quando mente; que festeja quando atraiçoa; que diz que ama, e vai rir-se!

— Oh! foi assim! exclamou Honorina abraçando sua amiga.

Raquel cotinuou:

— Há um ano que tu perdeste teu avô e teu tio. Foram dois golpes duma vez; teu pai teve de sair da corte para tomar conta de fazendas e bens, que seus dois parentes que lhe tinham deixado; dez meses passaste no campo, e agora voltas mais bela, e mais interessante que nunca; teu pai, que não desposa os costumes dos velhos tempos, vai atirar-se contigo ao meio do tumulto dessa corte; e as sociedades te vão abrir as portas, tu entrarás por elas com o receio no coração, e um novo mundo se apresentará a teus olhos. Hás de corar no mais simples cumprimento, tremerás ao mais leve gracejo, e não compreenderás tão cedo esse viver de ilusões e de mentiras, que se vive nas sociedades elevadas, essa arte preciosa e naturalmente cortesã de encobrir a frieza do coração com o fogo dos olhos, e ocultar a indiferença ou a maldade dos sentimentos com o sorriso dos lábios; poderás tu passar pela noite de um sarau, como um raio de luz através de um corpo diáfano?... não levarás nenhuma lembrança dele?... dormirás sem sonhar, acordarás sem suspirar?... não te chegará à alma algum olhar, e não irão em alguma vez até ela as palavras ardentes do homem que te requestar uma noite inteira?... oh! Honorina, tu não compreendes o que é um homem que nos tenta enganar!... no seio da paz e da solidão, onde cresceste, tu sonhaste com o mundo... e o sonhaste nobre, puro e sincero como tu mesma; julgaste todos os homens por teus pais e teus mestres; acostumada com a verdade, não sabes desconfiar da mentira, e até há pouco criada e associada só com a virtude, tu a vês... tu pensas encontrá-la por toda a parte; e não sabes pensar que neste mundo se apresentam semblantes que se parecem com o dela, mas que não o são; que são máscaras traidoras, que escondem o horrível aspecto do crime! e, portanto, Honorina, sendo bela como o dia, tu és ainda inocente como a pomba do vale, pura como o favônio da madrugada; sim, graças à tua educação, tu és a própria virtude, não conheces o vício; mas ah! por isso mesmo dificilmente escaparás de suas redes!...

Honorina ocultou o rosto no seio de sua amiga, e só passados alguns instantes disse:

— E tu, Raquel?...

— Comigo, Honorina, passou-se o contrário de tudo isso. Meu pai viu também o mundo cheio de mentiras e de traições, de perigos e enganos; tremeu por mim, que me ama também, como o seu anjo; mas, em lugar de esconder-me dos homens, levou-me para o meio deles; em vez de fugir comigo dos perigos, conduziu-me à borda dos abismos, e fez-me medir com os olhos o seu fundo até recuar horrorizada! amante, carinhoso, pai e amigo ao mesmo tempo, ele procurou e soube ganhar a minha confiança inteira; oh! Honorina, ele lê no meu coração, como no seu livro; meu pai é uma segunda consciência que eu tenho.

— Oh! fala mais, Raquel!

— Com efeito, Honorina, desde a mais tenra idade, eu comecei a não ter segredos para com meu pai, a ser aos seus olhos tão transparente, que ele lia quanto se passava na minha alma; era em tal que baseava todo o edifício da minha educação moral. Aos doze anos eu pisei no grande mundo, meu pai me fazia freqüentar as sociedades, os saraus e as festas. Honorina, eram lições que ele me dava. Quando voltávamos a casa, interrogava o meu coração, a verdade falava por meus lábios, e meu pai me mostrava a ação em que havia um erro, as doces palavras que eu tinha ouvido, que eram uma vil lisonja, uma perigosa mentira, ou que vestiam uma traição! diante do espelho ele me convencia de que eu não era encantadora, como me tinham dito; à força de um raciocínio simples e veemente, ele fazia vir à flor da água a verdade, que fora submergida no mar de loucos e falsos protestos, de exagerados obséquios, e dessas primeiras e temerosas súplicas que nos fazem, e que são sempre a chave que abre a porta a mil atrevidas pretensões. Honorina, meu pai nunca voltou as costas ao perigo, nem os olhos ao vício; era para ao pé de ambos que ele gostava de me conduzir: eu dancei, passei cem vezes ao lado do homem depravado, do homem de quem toda a mulher devia recear; e depois, quando me achava a sós com meu pai, ele me dizia: “Raquel, dançaste e passeaste com um miserável; os sedutores falam e praticam como ele.”

(continua...)

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