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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Anastácio — E os resultados desses erros, que são verdadeiros crimes, ei-los aí no quadro que apresentou a mísera família. Chega um dia em que os credores e a justiça entram na casa da dissipação; os credores apoderam-se dos restos de uma fortuna esbanjada; a justiça arrasta para uma cadeia o homem que perpetrara um delito infamante; a mulher vendo-se sem pão, sem riqueza, sem fasto, cai fulminada pelo raio da vaidade e enlouquece; e a filha, a única vítima inocente, acha-se no mundo só, em abandono, ardendo em desejo de brilhar como dantes, invejando as jóias, os vestidos, e esplendor das outras mulheres, e aí vem um pérfido sedutor, que lhe oferece bailes, teatros, sedas e carruagens, e em troco lhe pede a honra!...oh!...a filha do luxo e da vaidade acaba por abrir os braços! A serpente da libertinagem morde-lhe o seio...o anjo da pureza a desampara, e a desgraçada escreve o seu nome na lista das mulheres perdidas. Pai, que me escutas comovido; mãe, que me olhas espantada, respondei: quem precipitou essa infeliz na vergonha da corrupção?...Dizei!...

Hortênsia — Ah!!! senhor...

Maurício — Meu irmão...basta!...

Anastácio — Não, ouvi-me até o fim; ninguém deplora essa família; ninguém dela tem piedade. O Estado diz ao empregado público: “Empregado malversador! Mereceste a punição do teu crime” Os credores bradam-lhe ressentidos: “Miserável, tu nos arrancaste o nosso dinheiro!”. A pátria volta-se contra a mulher e clama: “Insensata! Em tua filha tu me roubaste uma mãe de família!”. E a sociedade repele a moça infamada, a essa triste filha, a quem não ensinaram a trabalhar, e que preferiu a desonra com o fausto, à honestidade com o trabalho: e a bela corrompida envelhece; seus encantos murcharam depressa nas orgias da devassidão, e um dia, anos depois, o pai sai da prisão, a mãe sai do hospital, e encontram na rua uma mendiga esfarrapada, com o letreiro da prostituição escrito na face, e que lhes estende a mão, pedindo esmola...oh! não volteis o rosto, pai e mãe dissipadores! Pai e mãe escravos do luxo e da vaidade! Socorrei a mendiga! Socorrei-a, porque é vossa filha!...

Maurício — Basta!...basta!...

Hortênsia — É horrível!...

Anastácio (Outro tom) — E que têm vocês com isto?...estarão porventura no mesmo caso?...

Hortênsia — Oh!!! não...não...mas temos uma filha, e o quadro foi medonho.

Anastácio — Pois corrijam-se dos seus erros, se ainda é tempo. Maurício, a ostentação e o luxo com que tua família se apresenta, desabonam o teu crédito; toda essa gente que freqüenta hoje a tua casa; todos esses figurões que te festejam, hão de desaparecer e abandonar-te na hora da adversidade. Mana Hortênsia, é simples o segredo da felicidade: quando por acaso nos sentirmos entristecer por não poder gozar os prazeres que gozam os que são mais ricos do que nós, basta que olhando para baixo, contemplemos aqueles que ainda podem menos do que nós.

Maurício — Tem razão...nós nos corrigiremos...

Hortênsia — O mano deu-nos uma lição proveitosa; falou-nos com o coração e há de ver o seu triunfo.

Anastácio — Ainda bem; e principiem a ter juízo desde hoje...

Maurício — Sim...nada mais de ridículas pretensões...

Hortênsia — Nada mais de falsas amizades; nada mais de vaidades...


CENA III

Maurício, Hortênsia, Anastácio e Petit.

Petit — Excelentíssimas baron e baronesa do Rio Mirim! Hortênsia — A baronesa!...ah! eu vou imediatamente... (Vai-se)

Anastácio — Maldita baronesa! Oh! mana...ouça primeiro...

Maurício — O senhor barão! Depressa a receber Sua Excelência. (Vai-se)

CENA IV

Anastácio — Maurício! Qual! Deixaram-me por amor dos barões Mirins! Perdi a minha retórica, e está decidido que meu irmão precisa receber uma lição amarga e rude. Desgraçados! Debatendo-se já no fundo do abismo, e tão cegos e tão vaidosos ainda! Oh! é esta sociedade envenenada e corrupta que estraga todos os corações! É esta sociedade que deixando-se escravizar pela paixão do luxo, sacrifica todos os sentimentos e todas as considerações ao ouro; devorada por esta paixão funesta, prefere o ouro à sabedoria, o ouro à honra, o ouro à virtude! É ela que despreza o vestidinho branco da senhora pobre, mas honesta, pelas sedas e pelos veludos das grandes libertinas! É ela que ensina a abafar o pudor, e a menosprezar a própria reputação para satisfazer a paixão do luxo...sim! é uma sociedade depravada, que zomba e ri da consciência, da lealdade, da justiça, da pátria, de Deus, e que violenta se arroja pela estrada da desmoralização, tendo na mente uma única idéia — ouro! ouro! ouro! — (Vendo Petit) Que fazes tu aqui?...estavas ouvindo o que eu dizia, não?...

Petit — Oh! non pode ser; eu non entende português.

Anastácio — Que temos então?...

Petit — Um cavaleire comme il faut quer fala com monsieur Anastace palavra particular.

Anastácio — Conduze-o para esta sala. (Vai-se Petit) Quem será?...uma palavra particular?...não tenho negócios na corte, e mesmo já perdi as minhas antigas relações. Sou inimigo de segredos e de mistérios; gosto da franqueza, que é a arma do justo, e me acho de muito mau humor para sofrer segredinhos de homem. Diabo!...deixem o cochichar para as senhoras que gostam de falar com a boca fechada.

CENA V Anastácio e Henrique.

Anastácio — Henrique!...tu aqui?...

Henrique — É verdade, mas meu tio; desde ontem que vossa mercê não aparece, e eu precisava absolutamente falar-lhe. Foi necessário que se desse uma circunstância bem grave para que eu ousasse entrar nesta casa.

Anastácio — Pois então senta-te. (Senta-se)

(continua...)

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