Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
A ironia o feriu. A interessante Moreninha lançou sobre Augusto um olhar de aprovação e sorriu-se brandamente; gostou de o ver manejar sua arma favorita. Sem se explicar o porquê, também o nosso estudante teve em muita conta aquele sorriso da menina travessa. Fabrício continuou:
— Venha embora o ridículo, que nem por isso poder-se-á negar que para o nosso Augusto não houve, não há, nem pode haver amor que dure mais de três dias.
— Venha embora o ridículo, que nem por isso poder-se-á negar que para o nosso Augusto não houve, não há, nem pode haver amor que dure mais de três dias.
Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime de lesaformosura. Augusto respondeu:
— E o que há aí de mais engraçado, é que Fabrício tem culpa disso, porque, enfim, manda o meu destino que eu sempre tenha andado, ande, e haja de andar em companhia dele, que com a maior crueldade do mundo, tira-me todos os lances, antes de três dias de amor.
Novo olhar, novo sorriso de aprovação de d. Carolina: novo prazer de Augusto por merecê-los.
Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu:
— Nada de fugir da questão. Poder-se-ia julgar fraqueza querer de algum modo ocultar que, tanto em prática como em teoria, o meu colega é e se preza de ser o protótipo da inconstância.
Eis o que ele não pode negar, acudiram Leopoldo e Filipe, rindo-se.
— E para que negar, se já o nosso colega afirmou que eu me prezava de ter essa qualidade?
— Misericórdia! exclamou uma das moças.
— É possível?! ... perguntou a avó de Filipe, com seriedade.
— É absolutamente verdade, respondeu o estudante. Lançou depois um olhar ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram o rosto. D. Quinquina tinha nos lábios um triste sorriso. A Moreninha olhou-o com espanto, durante um certo momento, mas logo depois soltou uma sofrível risada e pareceu ocupar-se exclusivamente de uma fatia de pudim.
Reinou silêncio por alguns instantes; Fabrício parecia vitorioso; Augusto estava como em isolamento, as senhoras olhavam para ele com receio, e mostravam temer encontrar seus olhos; dir-se-ia que receavam que de uma troca de olhar nascesse para logo o sentimento que as devesse tornar desgraçadas. Desde as fatais palavras de Fabrício, Augusto era naquela mesa o que costumava ser um leproso na Idade Média: o homem perigoso, cujo contato podia fazer a desgraça de outro.
Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu adversário e inexperiente, se havia de deixá-lo debatendo-se em sua má posição, quis ainda mais piorá-la, e foi talvez arrancá-lo dela. Fabrício, pois, fala; as senhoras embebem nele os olhos e o aplaudem, enquanto Augusto, servindo-se de um prato de grosso melado, afeta prestar pouca atenção ao seu acusador.
— Sim, minhas senhoras, é um jovem inconstante, acessível a todas as belezas, repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra, que será logo deixada pela vista de uma nova, como se ele fosse a inércia da matéria, que conserva impressão, mas que não a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la!
Muito bem! Muito bem! disseram algumas vozes.
— Seu coração é pétrea abóboda de teatro que não entende o dizer de Auber, quando soluça a flauta ternos sons de musical discurso, pois aquela muda superfície reflete a todos, e a todos esquece com estúpida indiferença!
— Bravo!... Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo, apontando maliciosamente para a garrafa que se achava defronte do orador, e quase de todo esgotada.
Apoiadíssimo! ... murmurou Augusto, apontando também para a garrafa.
— Mas ele deverá viver de lágrimas, suspiros e ânsias de condenado...
concluiu Fabrício.
— Bravo!... Muito bem!... Bravo!...
— Peço a palavra para responder! exclamou Augusto.
— Tem a palavra, mas nada de maçada!
— Duas palavras, minhas senhoras, só duas palavras. Sim, defenda-se, defenda-se.
— Defender-me?... Certo que não o farei; poderia, ao contrário, acusar, mas também não quero; julgo apenas dar algumas explicações. Minhas senhoras, debaixo de certo ponto de vista o meu colega Fabrício disse a verdade, porque eu sou, com efeito, o mais inconstante dos homens em negócio de amor.
— Ainda repete?!
— Mas também quem me conhece bastante conclui que, por fim de contas, não há amante algum mais firme do que eu.
— O senhor está compondo enigmas.
— Não o interrompam, deixem-no apresentar o seu programa amoroso.
— Sim, minhas senhoras, continuou Augusto; vamos ao desenvolvimento da primeira proposição.
— Ouçam! Ouçam!
— A minha inconstância é natural, justa e, sem dúvida, estimável. Eu vejo uma senhora bela: amo-a, não porque ela é senhora… mas porque é bela; logo, eu amo a beleza. Ora, esse atributo não foi exclusivamente dado a uma senhora, e quando o encontro em outra, fora injustiça que eu desprezasse nesta aquilo mesmo que eu tanto amei na primeira.
— Bravo! ... Viva o raciocínio!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.