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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Antes de ouvi-la já a tinha visto uma vez a cavalo na tarde de 6 de agosto, e no dia seguinte também de tarde, à borda do mar. Também chora muito a pobreza...

— Pois não é pobre?...

— Ao contrário, é rico.

— Mas para que assim zombar de mim?

— Já não disse que ele queria fazer experiências sobre o seu coração? e era eu encarregada de observá-la; felizmente as conseqüências da leitura do livro da alma do moço loiro provaram cada vez mais a reconhecida nobreza de seu caráter.

— E depois, mãe Lúcia?...

— Depois ele descobriu a cruz da família; e, ao mesmo tempo que trabalhava por fora a favor de Lauro e da senhora, eu velava em prol das mesmas pessoas cá dentro: ambos nós desconfiávamos da amizade que lhe mostrava a Sr.ª D. Lucrécia.

— É possível, mãe Lúcia?... pois não era eu só?...

— Quando esta manhã ela veio e com a senhora conversou muito tempo no seu quarto, eu a escutava cuidadosa; ouvi a traidora proposição de fuga para um convento... era uma cilada, senhora, ou pelo menos um conselho indigno!...

— Oh!... mas eu o rejeitei!

— Sim; e o moço loiro soube tudo.

— Meu Deus!... obrigada, mãe Lúcia.

— A Sr.ª D. Lucrécia recebeu às duas horas da tarde um bilhete, no qual estava escrita esta simples palavra — sim.

— Mas... esse foi o sinal dado por ela...

— Eu o sabia, senhora.

— E portanto...

— O moço loiro quis vingar-se dela no seu próprio crime, porque era um crime, era uma traição, o que a D. Lucrécia tentava!... a estas horas a senhora deveria estar perdida... longe da casa de seus pais, e desacreditada na opinião pública.

— Oh!

— Na tarde de hoje uma carta da Sr.ª D. Lucrécia lhe avisara de que tudo estava pronto, e que às dez horas da noite fosse, como ficara convencionado, embarcar-se na sege, aconselhandolhe, enfim, que tratasse de prevenir-se de uma máscara.

— E o que sucedeu?...

— Às dez horas da noite, senhora, a sege se achava parada no lugar determinado; uma mulher entrou para ela...

— E depois?

— Um homem vestido de mulher foi sentar-se a seu lado: a sege partiu; e essa mulher, que ia junto de um homem, pensava que tinha em suas redes a filha do Sr. Hugo de Mendonça.

— Meu Deus!

Nesse momento bateram na escada, e pouco depois um pajem entrou e disse:

— A Sr.ª D. Lucrécia manda pedir notícias da Sr.ª D. Honorina, e informar-se de sua saúde.

— E então, senhora?... perguntou Lúcia.

Honorina tornou-se rubra de despeito:

— Segue-se, disse ela, que D. Lucrécia mandou espiar-me por um de seus escravos!

Depois voltou-se para o escravo, que trouxera o recado, e disse:

— Faz entrar o pajem da Sr.ª D. Lucrécia.

O pajem entrou.

— Diz à tua senhora que me viste, pronunciou com voz animada Honorina; e que eu lhe mando dizer que passo bem... perfeitamente bem, principalmente desde as dez horas da noite.

O pajem retirou-se, e Honorina, dirigindo-se de novo a Lúcia, disse:

— Agora, mãe Lúcia, continua.

— Nada tenho a acrescentar, senhora: disse tudo o que sabia, respondeu Lúcia dobrandose sobre a grade, a que se recostara, e olhando curiosa para a rua.

— Não, mãe Lúcia, falta dizer-nos o melhor; e depois, eu notarei uma grande contradição no teu procedimento.

— Eu estou pronta, senhora, para responder.

— Pois bem: como se chama o moço loiro?...

— Oh!... a isso nada posso dizer.

— Ignoras o seu nome?...

— Ao contrário.

— Então por que o não dizes?...

— Porque ele me proibiu fazê-lo.

— Mãe Lúcia!...

— Outra coisa, senhora.

— Está bom, paciência, tornou a moça; vamos à contradição: como é, mãe Lúcia, que tão enfeitiçada estando por esse moço que tantas traições me andas fazendo por causa dele, tanto te empenhas agora por me ver casada com meu primo?...

— É uma outra coisa que eu não posso explicar.

— Então não explicas nada...

— Um outro explicará por mim...

Ouviu-se, então, passos de alguém que vinha subindo a escada; e pouco depois soaram palmas.

— Uma visita a estas horas! disse Ema.

— Quem será?... perguntou Honorina.

— Talvez D. Lucrécia, disse Raquel.

— Ora... não!... respondeu rindo-se Lúcia.

Um pajem entrou e, dirigindo-se ao gabinete, onde estavam Hugo e Jorge, parou na porta, e disse:

— Um moço, que se diz novo administrador da casa de meu senhor, pede para vir entregar as letras, que teve ordem de ir pagar ao Sr. Otávio.

— Isso é um sonho ou uma zombaria!... exclamou Hugo levantando-se.

— Seja quem for, manda-o entrar, disse Jorge.

— Eu não tenho novo administrador, tornou Hugo.

— Embora... vejamos quem é.

— Que entre pois.

Todos na sala ficaram suspensos e curiosos com os olhos fitos na porta de entrada; Hugo e Jorge em pé na porta do gabinete; Ema sentada no sofá; Honorina, Raquel e Lúcia na janela; todos estáticos nos mesmos lugares em que antes estavam.

E ele entrou... era um elegante mancebo vestido todo de preto, com uma bela gravata branca primorosamente atada... com um rico alfinete de esmeralda ao peito; era um jovem interessante, de olhos ardentes e cabelos loiros... era ele.

Tinha tremendo avançado... chegou ao meio da sala, quando da boca de Honorina e de Raquel saíram as mesmas palavras, posto que em tom baixo:

— O moço loiro!...

E Hugo de Mendonça e Ema surpreendidos bradaram:

— Lauro!...

(continua...)

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