Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Parecerá impossível achar-se na Bahia aparelho de estopa para se calafetarem as naus, galeões e galés que se podem fazer nela, para o que tem facilíssimo remédio; porque há nos matos desta província infinidade de árvores que dão embira, como temos dito, quando falamos da propriedade delas, a qual embira lhe sai da casca que é tão grossa como um dedo; como está pisada é muito branda, e desta embira se calafetam as naus que se fazem no Brasil, e todas as embarcações; de que há tanta quantidade como já dissemos atrás, a qual para debaixo da água é muito melhor que estopa, porque não apodrece tanto, e incha muito na água, e as costuras que se calafetam com a embira ficam muito mais fixas do que as que se calafetam com estôpa, do que há muita quantidade na terra. E se cuidar quem ler estes apontamentos que não haverá oficiais que calafetem estas embarcações, afirmo-lhe que há estantes na Bahia mais de duas dúzias, e achar-se-ão nos navios, que sempre estão no porto, dez ou doze, que são calafates das mesmas naus, e há muitos escravos, também, na terra, que são calafates por si sós, e à sombra de quem, o sabem bem fazer.Breu para se brearem estas embarcações não temos na terra, mas é por falta de se não dar remédio a isto; porque ao longo do mar, em terras baixas de areia, é tudo povoado de umas árvores que se chamam camaçari, que entre a casca e o âmago lançam infinidade de resina branca, grossa como terebentina de Beta, a qual é tão pegajosa que se não tira das mãos senão com azeite quente, a qual, se houver quem lhe saiba fazer algum cozimento, será muito boa para se brearem com ela os navios, e far-se-á tanta quantidade que poderão carregar naus desta resina; e porque se não podem brear as naus sem se misturar com a resina graxa, na Bahia se faz muita de tubarões, lixa e outros peixes, com que se alumiam os engenhos e se breiam os barcos que há na terra, e que é bastante para se adubar o breu para muitas naus, quando mais que se à Bahia forem biscainhos ou outros homens que saibam armar às baleias, em nenhuma parte entram tantas como nela, onde residem seis meses do ano e mais, de que se fará tanta graxa que não haja embarcações que a possam trazer à Espanha.
C A P Í T U L O CXCI
Em que se apontam os mais aparelhos que faltam para as embarcações.
Pois que temos aparelhos para lançar as embarcações que se podem fazer na Bahia ao mar, convém que lhe demos os aparelhos com que estas embarcações possam navegar; e demos-lhe primeiro as bombas, que se fazem na terra muito boas, de duas peças porque têm extremadas madeiras para elas; e para navios pequenos há umas árvores que a natureza furou por dentro, que servem de bombas nos navios da costa, as quais são muito boas.Pois os poleames se fazem de uma árvore que chamam jenipapo, que é muito bom de lavrar, e nunca fende como está seco, de que se farão de toda a sorte. Enxárcia para as embarcações tem a Bahia em muita abastança, porque se faz da mesma embira com que calafetam, antes de se amassar, aberta em febras a mão, a qual se fia tão bem como o linho, e é mais durável e mais rija que a de esparto, e tão boa como a do Cairo; e desta mesma embira se fazem amarras muito fortes e grossas e de muita dura; e há na terra embira em abastança para se poder fazer muita quantidade de enxárcia e amarras; e para amarras tem a terra outro remédio das barbas de umas palmeiras bravas que lhes nascem ao pé, de comprimento de quinze e vinte palmos, de que se fazem amarras muito fortes e que nunca apodrecem, de que há muita quantidade pelos matos para se fazerem muitas quando cumprir. Pelo que não falta mais agora para estas armadas que as velas, para o que há facilíssimo remédio, quando as não houver de lonas e pano de breu, pois em todos os anos se fazem grandes carregações de algodão, de que se dá muito na terra; do qual podem fazer grandes teais de pano grosso, que é muito bom para velas, de muita dura e muito leves, de que andam velejados os navios e barcos da costa; e dentro da Bahia trazem muitos barcos as velas de pano de algodão que se fia na terra, para o que há muitas tecedeiras, que se ocupam em tecer teais de algodão, que se gastam em vestidos dos índios, escravos de Guiné, e outra muita gente branca de trabalho.
C A P Í T U L O CXCII
Em que se aponta o aparelho que na Bahia tem para se fazer pólvora, e muita picaria e armas de algodão.
Pois temos dito o aparelho que a Bahia tem para se fortificar e defender dos corsários, se a forem cometer, saibamos se tem alguns aparelhos naturais da terra com que se possam ofender seus inimigos, não falando nos arcos e flechas do gentio, com o que os escravos da Guiné, mamelucos, e outros muitos homens bravos naturais de terra sabem pelejar, do que há tanta quantidade nesta província; mas digamos das maravilhosas armas de algodão que se fazem na Bahia, geralmente por todas as casas dos moradores, as quais não passa besta, nem flecha nenhuma; do que se os portugueses querem antes armar que de cossoletes, nem couraças; porque a flechada que dá nestas armas resvala por elas e faz dano aos companheiros; e deste estofado de algodão armam os portugueses os corpos e fazem do mesmo estofado celados para a cabeça, e muito boas adargas. Fazem também na Bahia paveses e rodelas de copaíba, de que fizemos menção quando falamos da natureza desta árvore, as quais rodelas são tão boas como as do adargueiro, e davantagem por serem mais leves e estopentas, do que se farão infinidade delas muito grandes e boas.Dão-se na Bahia muitas hastes de lanças do comprimento que quiserem, as quais são mais pesadas que as de faia, mas são muito mais fortes e formosas; e das árvores de que estas hastes tiram, há muitas de que se pode fazer muita picaria, e infinidade de dardos de arremesso, que os tupinambás sabem muito bem fazer.E chegando ao principal, que é a pólvora, em todo o mundo se não sabe que haja tão bom aparelho para ela como na Bahia, porque tem muitas serras que não têm outra coisa senão salitre, o qual está em pedra alvíssima sôbre a terra, tão fino que assim pega o fogo dele como de pólvora mui refinada; pelo que se pode fazer na Bahia tanta quantidade dela que se possa dela trazer tanta para a Espanha, com que se forneçam todos os Estados de que Sua Majestade é rei e senhor, sem esperar que lhe venha da Alemanha, nem de outras partes, de onde trazem este salitre com tanta despesa e trabalho, do que se deve de fazer muita conta.
C A P Í T U L O CXCIII
Em que se declara o ferro, aço e cobre que tem a Bahia.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.