Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Não, Honorina, a Sr.ª Lúcia parece querer contar-te alguma coisa de interesse.
— Pois então...
— Querem ouvir-me?
— Certamente.
— Bem, senhoras; mas há de ser contado em voz baixa, em segredo, e só para as senhoras.
As duas moças fizeram com que Lúcia se chegasse para bem perto delas, e prestaram curiosa atenção ao que lhes ia ser referido.
A ama de Honorina começou:
— Lembra-se, Sr.ª D. Honorina, que, tratando-se da volta do Sr. Hugo de Mendonça e das senhoras para a corte, eu as preveni, aqui, e vim chegar três dias antes para preparar a casa, que as devia receber?...
— Lembro-me, sim.
— Pois no dia que seguiu ao da minha chegada, quando eu já fazia aprontar a bela casa de campo que tivemos em Niterói, eram oito para nove horas da noite, e um pajem me veio dizer que alguém esperava-me no jardim para falar-me em negócio de interesse; fui, e achei-me diante de um interessante moço de olhos ardentes e cabelos loiros...
— Era ele!... balbuciou Honorina sem poder suster-se.
— Era ele!... respondeu dentro do coração, Raquel.
— Perguntei-lhe quem era, continuou Lúcia rindo-se, e me não quis dizer seu nome; contou-me tão fielmente a história de meu querido Lauro de Mendonça, e disse-me com tal acento de verdade que vinha por ele enviado para provar sua inocência e descobrir o verdadeiro autor do furto da cruz de brilhantes, que eu não pude deixar de crê-lo, nem de prometer ajudá-lo no generoso empenho em que ia achar-se. Pediu-me depois que lhe dissesse que pessoas compunham a família do Sr. Hugo de Mendonça, e devendo eu responder-lhe, e chegando ao nome da Sr.ª D. Honorina, fiz com toda a verdade o elogio de suas virtudes, talento e beleza; e, posto que não dissesse tudo quanto podia, conheci que o pouco que havia dito tinha bastado para produzir curiosa impressão naquele jovem.
— Adiante, mãe Lúcia.
— O moço pediu-me uma nova conferência, e eu lhe marquei uma noite, à meia-noite em ponto, no jardim. A Sr.ª D. Raquel para visitá-la veio da corte no dia que precedeu a essa noite; à hora do nosso encontro, as senhoras estavam conversando na janela do seu quarto, e a nossa entrevista deveria ser debaixo dessa janela; se tive receio de ir, porém o moço lá esteve, e ouviu toda a conversação das senhoras; ao fazer um movimento... a janela de seu quarto se fechou, e então ele tirou um pedaço de papel de sua carteira, escreveu nele algumas palavras, mercê do clarão da lua, e, tendo dobrado o papel, trepou-se pela parede, e o deitou debaixo da vidraça da janela do seu quarto.
Quando o moço saltou no chão, eu estava junto dele, e lhe disse em tom sério:
— Que foi o senhor fazer?...
O moço respondeu-me com sua voz doce, e, rindo-se, maliciosamente:
— Fui pôr uma declaração de amor debaixo daquela vidraça.
— Como, senhor?...
— Senhora Lúcia, eu amo a D. Honorina.
— Mas o senhor atreve-se?... exclamei eu.
— Atrevo-me, respondeu-me sem hesitar; olhe: primeiro atrevi-me a olhá-la muito, e a admirá-la ainda mais, quando ela na tarde do dia 6 de agosto atravessou certo largo da cidade do Rio de Janeiro, montada em seu lindo cavalo branco, que ardido e insofrido se deixava, todavia, domar pela mão formosa da encantadora cavaleira; atrevi-me também ainda há pouco a ouvir suas doces palavras, seus generosos sentimentos; atrevo-me, enfim, a dizer que a amo; atrevo-me a jurar que o farei em toda a minha vida.
Finalmente, senhoras, esse moço é um pouco feiticeiro; teve a habilidade de convencerme de que eu mesma devia ajudá-lo no seu amor; lembrei-me que era o defensor de meu pobre Lauro; confesso que deixei-me enfeitiçar por suas palavras, e sabe o que fiz?... prometi o que ele queria.
— Mãe Lúcia!...
— Portanto, eu sabia quem tinha posto o papel debaixo da vidraça; e fiz mais ainda: em todas as noites nós nos encontrávamos no jardim, e eu lhe dava parte de todos os passos da senhora.
— Oh! que traição!... disse Honorina querendo debalde mostrar-se enfadada.
— E assim, ele soube que a senhora ia receber um cabeleireiro na tarde que precedeu ao sarau; soube que a senhora voltava no fim dele; soube que a sempre-viva havia sido guardada; soube de seu belo pensamento, que exprimiu dizendo: foi um sopro de Deus; soube que se daria um passeio no mar; soube tudo.
— E pela minha parte eu sabia, que um falso cabeleireiro teria de roubar-lhe um anel de madeixas; que a senhora teria de encontrar um jovem desconhecido no sarau; que um falso bateleiro a traria a Niterói; e que um mentiroso velho pescador iria escutar o seu canto na noite do passeio do mar.
— E que mais?
— Sabendo, também por mim, do infortúnio de seu pai, ele, que, segundo há muito dizia, desejava fazer experiências sobre o seu coração, aproveitou o ensejo: mandou-lhe um célebre livro da alma, em cuja composição se entretinha desde alguns dias, já de plano, e no qual chorava, lastimava-se, e... perdoe-me a expressão, e mentia.
— Pois ele mente? perguntou com ingenuidade Honorina.
— Mente muito às moças.
— Meu Deus! isso é tão feio!...
— Por exemplo, diz ele no seu livro que a amou só por tê-la ouvido.
— E então?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.