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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Vencendo pequenos planaltos interpostos às depressões paralelas que sulcam aquela campina, avançamos até a base de uma colina que domina toda a vizinhança. Achara a nossa vanguarda esta posição ocupada por um piquete de cavaleiros; estacou então, e todas as nossas unidades, isoladas, assim fizeram também, uma após outra. Examinaram-nos, então, os paraguaios: nada entre nós e eles se interpunha; podiam contar-nos à vontade. Foi para nós grande desvantagem. Até então julgavam, dando crédito aos nossos refugiados, que a coluna brasileira contava nada menos de seis mil homens, e nosso comandante, como regra de guerra, esforçara-se por lhes alimentar a abusão. Desfizera-se-lhes a ilusão, desvanecida ao primeiro olhar lançado sobre nós.

Mais uma razão para que logo e logo os atacássemos, mas o comandante manteve-nos imóveis.

Só mais tarde soubemos por quê: provinha de intimo motivo: estávamos em sexta-feira Santa e a iniciativa de urna ação de guerra, no próprio dia da morte do Salvador, repugnava a um coração religioso como o do nosso chefe, escravo de todos os nobres sentimentos, a ponto de os exagerar até á contradição, inquieto e como perturbado pelo pressentimento do fim próximo.

Durou-lhe a hesitação bastante para que o destacamento paraguaio não mais receando ser atacado e, cheio de desprezo, talvez, pela nossa pequena força atirada, sem cavalaria alguma, em vastas planícies encharcadas, onde todo o homem a pé é assunto de escárnio, se lembrasse pela atitude, de nos dar insolentes mostras de desdém que lhe inspirava a inferioridade de nossos recursos militares e, por meio de demonstrações ruidosas, nos fazer ver quanto considerava inúteis quaisquer precauções contra nós. Descavalgaram todos os homens, assentando-se uns á sombra das macaúbas, ao passo que outros faziam tranqüilamente pastar os cavalos. Fazia-nos ferver o sangue aquele afetado descuido. Felizmente, afinal, até ao nosso chefe atingiu esta indignação. Decidiu-se a agir. Só havia um meio de rápido emprego e deste lançamos mão. Fez Marques da Cruz avançar a sua peça e uma granada silvou ao meio das aclamações dos nossos soldados. Atingiu a base de alta palmeira, que abrigava bom número de cavaleiros e depois de ricochetear explodiu no ar.

Foi, pelo menos, para nós, um prazer vermos o efeito produzido, a surpresa, o alarma, a confusão. Correram uns ap6s os animais que a detonação dispersara; cavalgaram outros, precipitadamente; e sem mais detença dispararam pelo campo, a todo o galope. Passados poucos minutos desaparecera o destacamento inteiro. Lançou-se-lhe segundo projetil, e logo em seguida terceiro, que alcançou mais de meia légua e deu a conhecer ao inimigo a força de nossa artilharia. Toda esta tropa fugidia só haveria de reaparecer diante da fazenda da Machorra, na fronteira.

Chegados esta tarde, à margem de um ribeirão, que os espanhóis chamam Sombrero, fomos acampar no triângulo que ele ali forma, confluindo com o Apa. Admiramos este belo rio, fronteira dos dois países e cujo aspecto, com sua mata cerrada, tanto nos impressionara quando de longe o avistáramos. Grande futuro lhe está reservado após a guerra.

Desce o Apa por três galhos, logo confluentes, da serra dos Dourados, um pouco abaixo da colônia militar deste nome, a doze léguas, este-sudeste da de Miranda. Corre a principio para Oeste, 10° N. até o forte de Bela Vista, que se acha no paralelo 22, e dai, descambando para Oeste 10° S., vai com um curso levemente sinuoso banhar Santa Margarida, Rinconada e outros pontos fortificados até o Paraguai, em cujo leito se despeja.

Ao chegar pediu o Coronel que lhe dessem água do Apa, e, ou porque lhe viessem á mente vagas reminiscências históricas, a propósito de caudais célebres, ou porque, após tanto abalo de espírito, experimentasse como que uma agitação febril, disse sorrindo: "Notemos a que hora provamos a água deste rio". Puxou o relógio, bebeu e acrescentou a gracejar: "Desejo que este incidente seja consignado na história desta expedição, se algum dia a escreverem". Pareceu empenhado que se lhe fizesse uma promessa em tal sentido. Foi o autor desta narrativa quem, em nome de todos, a tanto se comprometeu, e hoje o cumpre com religiosa exação porque a morte, de que estava o nosso chefe tão próximo, sabe, pela própria natureza enigmática, tudo enobrecer, tudo absolver e consagrar.

É neste ponto o Apa correntoso; mas as grandes lajes que lhe calçam o leito como que convidam a entrar em suas belas águas. Foi o que fizeram muitos soldados; passaram vários para a outra margem a dizer que iam conquistar o Paraguai.

À noite chegaram dois oficiais que à hora do perigo vinham procurar-nos para conosco dele compartirem. A marchas forçadas acudiam de Camapuã. Adiantandose à escolta haviam atravessado, não sem correr o risco de algum acidente, as nossas linhas de vanguarda. Só no dia seguinte apareceram os seus soldados ao acampamento, com um viajante por nome Joaquim Augusto, homem corajoso, mas que ao nosso contato só incitava o interesse pessoal.

(continua...)

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