Por Franklin Távora (1879)
— Apanhei muito na cabeça, senhor, apanhei muito mesmo. Fui negociante, fazendeiro, advogado, jornalista. Tudo o que era meu se foi pela água abaixo; mas o meu primeiro tesouro, a minha única fortuna, que eu julgava para sempre perdido, a Deus aprouve que tivessem em V.S. um defensor, um protetor, um depositário venerável. Obrigado, senhor, brigado. Vendido e revendido eu não poderia pagar-lhe este serviço, esta honra, esta esmola, esta felicidade.
— Sr. Bezerra, atalhou Albuquerque, o senhor está laborando em verdadeira equivocação informando-me do estado da sua vida. Não foi meu intento chamá-lo a Pernambuco para restituir-lhe a família que o senhor deixou sair pela porta afora em pranto e desespero. Não tinha e não tenho autoridade para isso. Informei-me por mera curiosidade. Eu queria saber se a mulher que eu recebera no seio de minha família tinha razão de estar separada do marido, até certo ponto pareceu-me até dever meu ter disso conhecimento para minha direção. Se, pelas minhas informações, eu chegasse a convencer-me de que a Sra. D. Maurícia não era digna de viver à minha sombra, retirar-lhe-ia imediatamente toda a confiança, e sobre as suas costas fecharia para sempre as portas de minha casa. Felizmente, senhor, parece-me que não foi ela quem mais concorreu para a separação que lastimo.
— Toda a responsabilidade deste deplorável acontecimento me pertence. Minha mulher foi mártir das minhas loucuras. Quero pedir-lhe que me perdoe, e que venha d’ora em diante proporcionar-me a felicidade, a que eu não soube dar o devido valor.
— Neste particular, senhor, tudo correrá por sua conta.
— Mas V.S. há de auxiliar-me na extinção do escândalo e da desgraça que há três anos trazem apartados de mim dois entes que hoje constituem a minha única riqueza.
— Tenho os melhores desejos de que cessem este escândalo e desgraça; e prometo-lhe que tudo farei para que o senhor e ela voltem a viver em harmonia, respeitados e estimados dos homens de bem. Antes, porém, de chegarmos a qualquer resultado, exijo do senhor um serviço, a que me considero com direito.
— Tenha V.S. a bondade de declara que serviço é.
— Exijo que o Sr. Bezerra faça ver a sua mulher, em termos que metam fé, que a sua vinda a Pernambuco é o resultado de deliberação sua na qual não tive a menor parte. Há três anos que D. Maurícia vive em minha casa, em tão estreita cordialidade que só nos tem proporcionado horas de contentamento. Todos a têm aqui na maior conta. Eu voto-lhe particular estima, porque não vejo nela somente uma mulher de qualidades distintas, vejo principalmente a educadora carinhosa, a quem minha filha deve prendas de grande preço que constituem o melhor do seu dote. O senhor compreende que em condições tais muito desagradável me seria que, sem fundamento, aliás, tivesse sua mulher motivo para de qualquer modo atribuir-me neste negócio solução que não fosse de seu agrado.
— A minha defesa e a minha glória estão principalmente na espontaneidade com que resolvi procurá-la. Sem essa espontaneidade, nenhuma segurança daria eu de ser no futuro o reverso do que fui no passado.
Quando Bezerra soube que a mulher a e filha não estavam no engenho, grande foi a sua contrariedade. Compreende-se que ele tivesse pressa em ver decidida tão importante questão.
Bezerra dissera, não a verdade inteira, mas só meia verdade a Albuquerque relativamente às diferentes fases de sua vida. Ele, no Pará, fora quase tudo o que pode ser um homem que se deixa resvalar no plano escorregadio do desmando, principiando o escorrego pelo lar doméstico. Vendera tudo o que lhe restava dos poucos bens que a mulher lhe levara em dote, para consumir seu valor na dissipação, no jogo, na malandragem. Tivera várias aventuras, e por uma delas chegara a ir à prisão pública. Quando ficou livre, meteu-se a rábula. Ele não era inteiramente inábil, e porque as necessidades urgiam, chegou, pelo esforço, fazer aquisição dos conhecimentos que no foro se exigem. Por algum tempo se manteve nesta carreira; mas tendo-se sumido dos autos de uma questão importante o documento em que a parte contrária fundava o seu direito, jurou ela vingar-se extrajudicialmente. De feito, uma noite em que Bezerra, ao lado de uma das últimas companheiras lia uma novela, quatro sujeitos mascarados tomaram-lhe as portas da entrada e saída, e dentro de sua própria casa deram-lhe tamanha surra que por morto o deixaram. A companheira desamparou-o nesta hora de suprema agonia, e se não fosse um caridoso vizinho, que dele se condoeu, não sairia da cama senão para a sepultura. Estava ele neste estado, quando a carta de Albuquerque chegou ao Pará. A pessoa mostra-lha; ele cria alma nova. Lembra-se da mulher e da filha, e em voltar à vida conjugal, por tanto tempo desamparada, julga estar a sua salvação; considera-se arrependido; pede a Deus que lhe conserve a vida para que ele tenha, ao menos, ensejo de dar até aos fins dela prova pública de sua emenda. Seus desejos foram cumpridos.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.