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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Conheceu-se então que o menino não era feio. Tinha a fronte espaçosa, os olhos rasgados e negros mas de desvairado brilho, efeito das insônias que curtia; aquilino o nariz; bem proporcionada a boca; fendido o queixo. Lia-selhe porém no semblante móvel e no olhar sorrateiro, sem deixar de ser observador, a desconfiança, que é uma das manifestações naturais de quem se afez a obrar ações reprovadas, a cuja pratica se não animaria, se lhe não fossem propícios os esconderijos, as trevas, os ermos, que prometem a impunidade e quase a asseguram.

Mas Lourenço, posto que de todo solto desde os primeiros anos, não tinha certos vícios que rebaixam nas cidades populosas a infância entregue a seu próprio e único alvedrio e direção. Ele era de índole mau, e cedendo ás impreteríveis e fatais leis do instinto, fora arrastado inumeráveis vezes a cometer atos reprovados. Ignorante, porém, das vilezas que os meninos aprendem nos colégios mal administrados, e que das mais puras e inocentes almas fazem pacientes e propagadores do enredo, da mentira e de vergonhosos prazeres que desnaturam as mais fortes e viris organizações, ele guardava ainda no coração intactos e como adormecidos os estímulos próprios do homem, que ainda metido no charco das paixões, não lhes bebe a lama como a dos charcos bebem os animais.

As paixões de Lourenço davam para a briga, o roubo, e até para o assassínio, posto que nunca tivesse tirado diretamente a vida de ninguém. Causava-lhe prazer destruir as animadas e as inanimadas criaturas, que não eram bastantemente fortes para fugir ás suas arremetidas, ou resistir a seu gênio demolidor. Mutilava as arvores, por despojalas de uma parte de sua forma e faze-las defeituosas. Dava pancadas nos cães por ouvi-los soltar gritos de dor. Com o padecimento mudo da arvore, e com o ruidoso do animal, ele se alegrava, porque era mau de coração; mas não usava habitualmente a mentira, a traição, nem tinha outros vícios feios e sentimentos vis que revelam da parte de quem os cultiva, animo fraco e no todo desprezível. Era o perverso da selva, duro, difícil, mas não impossível de vencer-se, e não o das côrtes, nojento, infame e tão fácil de prostrar-se quão impossível de corrigir-se. Era o malvado ignorante, arrebatado, e não o corruptor manhoso, cortês, polido, muito mais danoso do que o malvado, para o qual há prisões e castigos; o corruptor entre em toda a parte impunemente, e com todos e com tudo comunica a sua perversão: suas palavras adocicadas, os gestos insinuantes, os olhares, os sorrisos, os gracejos, os agrados, os serviços gratuitos, os presentes abrem-lhe o espirito infantil, o seio da família crédula e até o coração do amigo confiante. Dentro em pouco, de ordinário quando já não é tempo de atalhar o mal, sentem-se estes dominados da peçonha mortífera, e perdido no conceito dos que tiveram bastante habilidade ou felicidade para evitar o contato com o envenenador.

O sitio de Francisco, pelo lado do sul, confinava com as terras onde o senho do engenho Bujari tinha umas carvoeiras, que ficavam muito dentro. Não havia ai casa decente, mas uma palhoça ligeiramente feita, onde se abrigava ele, quando vinha dar-lhes uma vista d’olhos. Para evitar que estranhos, aproveitando-se dos cajueirais, fossem fazer carvão em sua ausência, tinha ali o senhor de engenho um casal de negros idosos, cuja ocupação não era outra que pôr sentido nas terras, guarda-las de intrusos, tratar dos cajueiros existentes e plantar novos, afim de que se não extinguissem os cajueirais.

Para se ir á palhoça, distante ainda menos de metade de um quarto de légua da estrada, tomava-se por um estreito trilho que desta partia, dentre duas touceiras de capimassú, e se metia para dentro, ocultando-se pouco adiante por traz das primeiras arvores da capoeira.

Um dia, já ao anoitecer, por ocasião de Marcelina entrar para acender a candeia, Lourenço, que passará a tarde amuado sobre um tronco de macaibeira que jazia estendido ao pé da casa, largou-se pela estrada afora. Pouco adiante, no ponto mesmo em que na estrada se encontrava a vereda, lobrigou ele ao longe Francisco, que tomava a casa. Deliberado a fugir da companhia dos seus benfeitores, única intenção que o fizera apartar-se de casa, o menino, para evitar o encontro com o matuto, enfiou pela vereda. Não sabia ele em que ponto ia ela morrer; mas parecendo-lhe que levava á lagoa, donde tinha visto de tarde chegar Marcelina com um braçado de juncos, e donde se podia ir ao caminho geral por um caminho particular que ela sabia, apressou os passos, e só parou quando, pressentindo gente perto da palhoça, três formidáveis cães, açulados por Benedicto, molecote filho do casal de negros, lhe saíram ao encontro, não para o receberem atenciosamente, como fazem com os de fora os moradores hospitaleiros, mas para o despedaçarem com desabrido furor. Cercado de todos os lados, Lourenço mal se podia livrar dos temíveis defensores de escuso lar, quando de dentro da palhoça correu ao lugar do conflito uma negra apercebida com um jagunço, em atitude de quem o queria desancar.

(continua...)

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