Por Franklin Távora (1876)
Aos sete anos de idade o pequeno já sabia matar passarinhos com seu bodoque, presente que lhe fizera o pai com expressa recomendação de amestrar-se em seu uso para que viesse a ser mais tarde um escopeteiro consumado.
— Ó José, ouve bem o que te vou dizer. Quando o sanhaçu ou bem-te-vi não cair morto da bala do bodoque, mas só com uma perna ou uma asa quebrada, não lhe apertes o pescoço para que não esteja penando. Faze um espetinho de cabuatã, e crava-o na titela do passarinho. Tu não sabes que os passarinhos são diabinhos que nos perseguem, furando as laranjas e destruindo as bananas do quintal ?
— Tenho pena, papai, e não farei isso aos pobrezinhos — respondeu o menino.
— Tens pena, tu, José ? Pois sabe que é preciso que percas esta pena e que te vás acostumando a ser homem. Se hoje cravas o espeto na titela do bem-te-vi, amanhã terás necessidade de cravar a faca no peito de um homem; e se no momento da execução tiveres a mesma pena, ai de ti ! que a mão te fraqueará, e o homem te matará.
Uma manhã José entrou saltando de contente, e trazendo um preá que o fojo tinha apanhado.
— Ó papai, como é que hei de matar este preá ?
Joana chamou o menino para junto de si, tomou-lhe a presa que ele trazia, e pôs-se a mirá-la com ternura.
— Olha, meu filho, olha bem para ele. Não achas vivos e bonitos os olhos do preazinho ? Que lindo pescoço ! Que mãos bem-feitas ! Que dizes, José ?
— É, mamãe. Acho tudo bonitinho.
— E se o achas bonitinho, para que o queres matar, meu filho ?
— Para aprender a matar gente quando eu for grande.
— Matar gente! José, José ! Quem te ensinou esta barbaridade ? Virgem da Conceição !
— Foi papai, mamãe.
— Não, eu não consentirei, nem o céu permitirá que levantes em tempo algum a tua mão para ofender a alguém. Que desgraça, Mãe Santíssima! Como é que Joaquim ensina semelhantes coisas ao filho ?
— Dê-me o meu preá, mamãe. Quero espetá-lo vivo como fiz ontem com o papa-capim.
— Ainda me vens falar nisso ? — exclamou Joana consternada.
E levada de uma inspiração ou de um repente irresistível, chegou à porta que dava para o pequeno cercado onde o capinzal crescia, e aí soltou o inocente prisioneiro.
José chorou, gritou, esperneou, rolou pelo chão com raiva. Irritada por este procedimento, para o qual ela foi buscar explicação antes na inconveniente direção que a José ia dando Joaquim que no impulso de reprovadas paixões de que julgava isento o filho naturalmente dócil e terno, puxou-lhe de leve pelas orelhas, dizendo-lhe que se outra vez judiasse com os passarinhos lhe daria uma surra que ele havia de agradecer.
Quando Joaquim voltou à casa, o menino correu a relatar-lhe o que tinha acontecido. O mau marido, o péssimo pai ralhou com Joana em quem por um triz não bateu; e para completar a lição e o exemplo pernicioso, prometeu a José que o primeiro preá que c fojo pegasse havia de ser sujeito a um gênero de morte que ele ainda não conhecia.
O menino mal pode dormir aquela noite. Nunca desejou tanto que a armadilha lhe desse caça. A curiosidade de conhecer a nova forma de matar os animais, prometida ao primeiro que tivesse a sorte de se deixar apanhar, o teve por muito tempo na maior excitação e vigília.
Pela manhã correu José ao fojo, onde encontrou, em lugar de preá, um coelho.
Era uma lindeza o animal. Gordo, coberto de macio pelo em que se divisavam ligeiras malhas tão alvas como o algodão que pendia dos capulhos estalados acima de sua masmorra, o filho do campo despertava, pela beleza das formas, e pela harmonia dos contornos, todos os sentimentos benévolos de que é capaz o humano coração. Os olhos reluziam como dois coquinhos polidos. O coração batia-lhe precipite qual se quisesse sair-lhe pela boca. E essa criatura tão cândida e inofensiva ia morrer! Oh, meu Deus, por que extravagante e bárbara interpretação das leis naturais há de o homem julgar-se com direito à vida de semelhantes entes que mais merecem a sua proteção do que desafiam a sua cobardia ?
Quando José, irresistivelmente cativo da formosura da inocente criaturinha, estava ainda admirando os seus encantos, um movimento violento arrancou-lhe das mãos.
— Meu coelho ! — gritou o menino sentido de lhe terem arrebatado a graciosa presa.
— Ah, supunhas que havias de por-me terra nos olhos, José ? Não, este lindo animal não morrerá.
— Sim, sim, mamãe; eu não o levarei a papai para o matar como ele disse; não quero que o meu coelho morra. Ele é tão bonitinho, que faz gosto. Quero criá-lo para mim, para mim só, já ouviu, mamãe ? Meu coelhinho tão bonitinho!
José estava fortemente comovido, e Joana, fixando nele olhos perscrutadores, leu em seu rosto a pureza e a sinceridade da sua comoção, indício irrecusável, senão prova convincente, da excelência das inclinações do filho. Todas as hesitações que traziam seu espírito em contínua inquietação dissiparam-se diante do enternecimento do menino de cuja brandura e natural bondade já não lhe foi lícito duvidar.
— Dê-me o meu bichinho, mamãe — Ó pediu José quase chorando.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.