Por Bernardo Guimarães (1872)
Como remédio prático para combater a tentação, recomendou-lhe que se desse a trabalhos incessantes do corpo e do espírito; exercício ativo e violento mesmo nas horas de recreio, lição dobrada a estudar na ocasião do repouso, e sobretudo orações, penitências e mortificações durante a noite.
O estudante ouvia com a maior atenção, e recolhia no fundo da alma todos os conselhos e exortações do padre, dispondo a pô-los em prática imediatamente. De todas as coisas, porém, que disse o padre, a que mais profunda mossa deixou em seu espírito foi a alusão da serpente no paraíso. Lembrou-se da cobra que se tinha enleado ao corpo de Margarida, quando era pequenina, das palavras que então sua mãe proferiu com respeito à serpente que tentou Eva no paraíso, e estremeceu.
Havia ali uma terrível analogia de situações, que ele sentia confusamente; as sinistras apreensões da mãe pareciam tender a realizar-se; um terror vago se apoderou da alma de Eugênio.
O estudante seguiu à risca todas as exortações e conselhos do padre. Na ocasião do recreio corria, saltava, lutava, jogava a bola e a peteca, sem dar um instante de repouso ao corpo.
Nas horas de repouso estudava a morrer, e quando já não tinha lição a estudar pegava em qualquer livro pio, e lia, lia incessantemente. Quando vinha a noite, achava-se fatigadíssimo, mas em vez de entregar-se ao descanso que a natureza reclamava, conservava acesa a sua lâmpada até horas mortas da noite, rezando ou estudando, e quando a apagava ficava ainda ajoelhado e de braços abertos sobre o leito, até que um sono irresistível o viesse prostrar.
No fim de algum tempo, Eugênio estava magro, pálido, alquebrado, que mais parecia uma múmia ambulante. Tinha-se de todo amortecido o brilho de seus grandes olhos azuis, e profunda palidez cobria-lhe o rosto magro. O adolescente de dezesseis anos parecia um ancião às bordas da sepultura.
Estes estragos físicos não deixavam também de repercutir de um modo deplorável no moral e na inteligência. O espírito de Eugênio, a princípio exaltado pela forte tensão em que o mantinha aquela luta travada consigo mesmo, por fim extenuado de cansaço, acabou por tornar-se moroso e pesado. Sua terna e delicada sensibilidade embotou-se, ou antes apagou-se no gelo de um beatismo frio, austero e sem arroubos. Essa imaginação tão viva e risonha, que como travessa borboleta esvoaçava entre o céu e a terra, entre as flores da colina, e as nuvens matizadas dos brilhantes horizontes, queimou as asas de ouro na luz da candeia fumacenta do estudo e da oração.
Seu caráter mesmo modificou-se profundamente, esse menino outrora tão benigno, tão complacente e comunicativo, posto que algum tanto retraído e melancólico, foi-se tornando de mais em mais seco e frio, desconfiado e sorumbático. Andava como um fantasma, de cabeça baixa e movimentos compassados e vagarosos. O olhar frouxo e estatelado tinha perdido essa travessa mobilidade, esse fulgor transparente próprios dos verdes anos.
Fatal e deplorável poderio do fanatismo sobre um espírito novel e exaltado, acessível a todas as alucinações!
Para esquecer Margarida era preciso quebrantar o corpo a ponto de o reduzir quase a cadáver, embrutecer o espírito e mirrar o coração e Eugênio não trepidou diante de tão horrível alternativa. À força de trabalhos e insônias, de orações, jejuns e mortificações continuadas, caiu em tal estado de prostração, de atonia física e moral, que embotando-se-lhe de todo a sensibilidade e quase extinto o lume da inteligência, o rapaz ficou como que reduzido a um autômato.
Naquele descalabro geral de todas as impressões vivas, de todas as emoções afetuosas, de toda a crença no amor e na felicidade neste inundo, naturalmente também a imagem de Margarida, arrebatada no comum naufrágio, devia ter-se apagado naquele coração, que lançava a perturbação em sua alma. Era verdade: o anjo luminoso desaparecera de seu espírito, como de um santuário deserto onde a lâmpada se havia apagado, ficando reduzido a uma espelunca tristonha, gélida e sombria, e apenas de longe em longe pairava sobre ele, e lançava-lhe no seio um reflexo pálido como luz de uma estrela afogada entre nuvens.
Eis como uma educação fanática e falseada, abusando de certas predisposições do espírito, lança naquela alma o germe de uma luta íntima e cruel, que fará o tormento de toda, a sua vida e o arrastará talvez à última desgraça, se a misericórdia divina dele não se amercear.
CAPÍTULO VIII
Havia já quatro anos, que Eugênio se achava no Seminário sem visitar sua família. Seu pai já por vezes tinha escrito aos padres pedindo-lhes que permitissem que o menino viesse passar as férias em casa. Estes porém já de posse dos segredos da consciência de Eugênio, receando que as seduções do mundo o arredassem do santo propósito em que ia tão bem encaminhado, opuseram-se formalmente, e responderam-lhe, fazendo ver que aquela interrupção na idade em que se achava o menino, era extremamente perigosa, e podia ter péssimas conseqüências, desviando-o para sempre de sua natural vocação.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.