Por Bernardo Guimarães (1869)
Notaram depois os cavaleiros que pelo campo seguia uma batida, a qual ia salpicada de um rastilho de sangue e que ia perder-se na estrada; daí depreenderam que Gonçalo, gravemente ferido na luta, por aí se retirara, naturalmente para sua casa. Dois dos companheiros seguiram aquele trilho ensangüentado, a ver se encontravam Gonçalo vivo ou morto; seguiram pela estrada até a fazenda do mesmo, mas não o encontraram lá. A gente da casa não soube dizer o que era feito dele, posto que percorressem toda aquela vizinhança em inúteis pesquisas e indagações. Os outros se encarregaram de procurar meios de transportar para a vila o cadáver de Reinaldo, e o corpo também quase sem alma da infeliz Maroca.
Quanto a Gonçalo, nunca mais se pôde saber o destino que tomara, nem se era vivo ou morto. A justiça e mesmo os particulares fizeram por muito tempo grandes esforços para descobrir-lhe a pista. Mas tudo foi baldado. Seus amigos também fizeram por largo tempo ativas e perseverantes pesquisas por toda a capitania sem poder obter dele nem a mais leve notícia. Desanimados enfim de encontrá-lo descansaram na suposição, aliás muito plausível, de que Gonçalo, gravemente ferido na luta em que sacrificara o seu amigo, tinha morrido em alguma gruta oculta e profunda, ou pelos matos em algum recanto, onde era impossível descobri-lo, e que suas carnes tinham sido devoradas pelos corvos, e seus ossos arrebatados pelas enxurradas.
Esse deplorável acontecimento, que causou geral assombro e consternação, foi por largo tempo em Goiás objeto de conversação em todos os círculos.
— Eis aí o que faz uma mulher má! dizia a tia Josefa, velha companheira de mestre Mateus, anos depois daquele acontecimento, em um dia em que mestre Mateus acabava de contar com todas as particularidades aquele trágico sucesso a algumas pessoas que se achavam em sua casa. Dois rapazes tão novos, tão bons, tão bem-apessoados, dois guapos mocetões, que mereciam cada um uma noiva de truz, foram para o mato fora de horas esfaquearam-se como furiosos e matarem-se por amor de uma perdida, que...
— Arre lá com isso, minha velha! atalhou mestre Mateus; não te faz pena ao menos o triste estado em que até hoje se acha a coitadinha. Maroca era uma simples criança, que não sabia o que fazia. Os tais senhores mocetões é que eram dois loucos furiosos. Deus os perdoe e se amerceie de suas almas. Ela era uma pobre menina, que ainda não podia saber o que os homens são capazes de fazer por amor de uma mulher bonita. Olha, Josefa, a coitadinha ainda está muda e pateta assim mesmo como no dia em que aconteceu a desgraça. Foi castigo de Deus! resmungou a velha.
POUSO SEGUNDO
OS CHAVANTES
CAPÍTULO I
O COMBATE
Nas margens do grande rio Tocantins, que banha o norte da província de Goiás, e reunido ao Araguaia vai como que dar a mão ao rei dos rios para entrar de par com ele no Atlântico, habita uma nação indígena das mais ferozes e indomáveis que se conhecem, ainda que também uma das mais valentes e industriosas. É a nação dos Chavantes, que dominava uma larga zona em ambas as margens daquele rio, cuja navegação tornava extremamente difícil e perigosa para os Europeus. Sobretudo na época a que nos reportamos, o seu nome era o terror dos habitantes de Goiás, ninguém ousava penetrar naqueles sertões desconhecidos, infestados por essa e outras tribos selvagens, que muitas vezes saíam do fundo de suas brenhas a exercerem horríveis matanças, estragos e depredações nos estabelecimentos e fazendas dos brancos. Algumas dessas expedições, que se organizavam com o nome de bandeiras para rechaçá-los ou exterminá-los, voltavam desanimadas e destroçadas sem nada ter conseguido. Menos dóceis que os Caiapós e os Coroados, que já se iam submetendo ao aldeamento e catequese, os Chavantes mal conheciam os brancos, com quem não queriam relação alguma, e odiavam do fundo da alma.
Quatro ou cinco anos depois dos tristes acontecimentos que deixei narrados a noite passada, uma numerosa tribo daquela nação achava-se estabelecida no barranco esquerdo do rio algumas dezenas de léguas abaixo de S. José do Tocantins, pouco mais ou menos nas regiões onde é hoje o município da Palma.
Seu arranchamento era uma longa fila de tabas ou cabanas cobertas de palmas de coqueiro, disseminadas em pitoresca desordem ao longo da margem do rio em uma extensão de cerca de meia légua, como um bando de aves aquáticas pousadas à beira da torrente.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.