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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Outras vezes tornava-se todo solícito pela sua saúde. – Bons dias, prima; – amanheceu hoje tão amarelinha!... coitada!... parece uma defuntinha! mas sempre bonita assim mesmo; bonita como ninguém!... é tal qual uma santinha de cera!... eu já vi uma Nossa Senhora de gesso, que era essa sua carinha sem tirar nem pôr... é preciso a prima dar um passeio lá em casa... suas primas estão com uma saudade da senhora! também há de ser bom para seu incômodo; a mana Mariquinha também costuma sofrer disso e dá-se bem com o passeio.

Outras vezes saía com uma espingarda pelo mato, e fazia as maiores diligências para trazer à prima uma caça delicada, um jaó, uma paca, uma perdiz.

A prima anda com tanto fastio! talvez esta caça lhe faça abrir a vontade de comer; mande a Susana prepará-la bem feita para o seu jantar.

Ai! todos aqueles obséquios, todas aquelas finezas eram perdidas. Paulina bem via que Roberto a amava extremosamente; tinha pena dele, e não desejava magoá-lo, ainda que suas contínuas atenções e galanteios não deixassem de importuná-la. E quanto mais crescia o amor que Eduardo lhe inspirara, mais fria, reservada e mesmo triste se mostrava, não de propósito, mas até mesmo a pesar seu, para com o pobre Roberto. Nem por isso deixava de dirigir-lhe algumas palavras de agradecimento, e um sorriso, mas tão frio, tão repassado de melancolia, que não podia fazer desabrochar muita esperança no coração do infeliz rapaz.

Roberto trincava de raiva e desesperava-se por não poder vencer a cruel apatia, em que para com ele se achava o coração de Paulina, e lançava mão de todos os recursos que seu fraco bestunto lhe sugeria. Por fim procurou vencê-la com dádivas e presentes. Uma rica e grossa cadeia de ouro, em que trazia preso o seu relógio, pediu-lhe que aceitasse em penhor de sua amizade, e firmeza. Ofertou-lhe mais uma linda e excelente besta de sela, além de muitos outros mimos delicados e de preço. Dádivas quebrantam penhas, e “a Deus rogando e com la mano dando”, tinha ele talvez ouvido dizer senão ao próprio Sancho Pança, ao menos a algum de seus confrades. Importunada para aceitar, Paulina via-se em torturas para recusar semelhantes donativos de um modo que o não desgostasse. Pobre amante! infeliz pretendente! disputava com admirável ardor e tenacidade a posse de um coração, e como não era repelido terminantemente em termos claros e rudes, em sua simplicidade não compreendia quanto era completa a sua derrota.

Mas Paulina também, coitada! era porventura mais feliz do que ele? É verdade que Eduardo mostrava com ela o mais terno interesse, e a tratava sempre com a mais lisonjeira deferência. Nem outra coisa se poderia esperar de um moço polido e de fina educação, e Paulina atraía as homenagens e a admiração de todos que a viam. Todavia era ela bastante inteligente e perspicaz para deixar de compreender que nem nas expressões nem nos olhares de Eduardo, nem em toda aquela afeição, aliás íntima e sincera, que o mancebo revelava por ela, não havia a mínima centelha de amor. Notava com extremo desgosto que Eduardo andava sempre distraído e pensativo, que seus olhos andavam sempre passeando ao longe, e como querendo transpor as distâncias com o pensamento. A conversação de Eduardo rolava freqüentemente sobre lembranças de sua terra, da qual se mostrava extremamente saudoso, e dando-se por feliz por ter sido como um instrumento da Providência para proteger a vida de Paulina, não deixava de lastimar o incômodo, que viera atrasar seus negócios, e retardar sua volta ao país natal. Um cruel desalento, uma tristeza mortal se apoderava então do coração da moça; mas como a esperança é a última companheira que nos abandona no infortúnio, ela procurava iludir suas tristes apreensões, e pensava consigo:

– Talvez ele seja frio e reservado de seu natural. – O amor nem sempre brilha nos olhos, ou se derrama em palavras de fogo, e dizem que quando existe oculto assim e guardado no coração, é ele mais forte e violento... Tem saudades de sua terra?... que tem isso?... há nada mais natural?... tem lá sua mãe, seus parentes e amigos... Quem sabe!... talvez que um dia vamos juntos para lá. .

Capítulo V

À sombra da gameleira

Assim se passaram uns quinze dias, durante os quais o espírito de Paulina se agitava na mais cruel ansiedade entre a esperança e o desalento.

Entretanto Eduardo, mais vigoroso e quase completamente restabelecido, tinha-se já levantado do leito, em que jazera por tantos dias, e ensaiava alguns passeios em derredor de casa, pelos currais, pelo pomar e pelos campos vizinhos.

(continua...)

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